Boa noite!

Água Beleza

Água da Belleza

 

     Escolhi este título para o presente artigo por me remeter ao passado. Não o passado nostálgico que faz a pessoa ficar parada no tempo, mas o passado que serve de exemplo para não repetir velhos erros ou preservar atitudes boas que ficaram para trás, que a modernidade atropelou. O nome em questão é de uma antiga estação ferroviária paulista, cujo nome mudou ou nem existe mais o prédio. Se a “Água da Belleza” não existe mais, mesma coisa ocorre com a beleza do mundo adulto. O despertar do homem/mulher adultos tem um preço alto, que a realização profissional não paga. O desmoronamento dessa edificação é normalmente aceito, é essa a comparação que faço entre coisas tão distintas.

     Ser chamado de “criança” é uma ofensa. Se analisarmos profundamente, seria elogio. Uma bênção, embora muitas crianças do mundo atual não sejam dignas de receberem classificações de anjinhos, ingênuas, imaculadas.

     Meus olhos se abriram tarde para a realidade. Até os 10 anos de idade, eu via a beleza de um mundo idealizado. A realidade que via era aparente, como a máscara que as pessoas usam para esconder o verdadeiro perfil.

     Nasci com um espírito idealizador, construtor, formador de opinião. Precocemente dominei a Geografia. E nela, mergulhava nas fantasias paradisíacas. O desejo de fugir da gaiola familiar era para encontrar um mundo acolhedor e belo. Pessoas brancas, negras, amarelas, cultas ou não cultas que seriam amigas para sempre. O homem do campo e o executivo da metrópole. O cidadão do bairro nobre e o humilde da periferia. A mulher rendeira e a atriz da TV. O cantor. O astronauta. O motorista do ônibus. O piloto de Fórmula 1, que um dia me passou pela cabeça ser. Na visão infantil, tudo era fácil, tudo estava a um passo de alcançar. A amazônia virgem, intocada. O sertão quente e acolhedor. O oceano pacífico. Águas oceânicas da beleza, com o brilho enigmático e encantador das algas e protozoários...o homem do fundo do mar! Ironicamente, não aprendi a nadar ou mergulhar. Além do oceano amigo, terras estranhas para desvendar. Angola, Senegal, Rhodésia, Alto Volta, Bagdá com suas mil e uma noites. A beleza do externo distante é terrivelmente sedutor das almas poéticas, sentimentais, “ingênuas”... seria daí que se originou a expressão “santa ingenuidade?” A beleza da imagem da fotografia é limitada. A beleza das palavras, nem sempre reflete o interior de quem as proferiu. Assim, grandes oradores se revelaram mais tarde grandes ditadores extremistas. Ou grandes corruptos travestidos de democratas. Hoje os olhos se abrem mais cedo para a realidade, embora em algumas pessoas o processo seja ainda lento.

     O escritor tem em sua essência o poder de observar além. Em alguns mais, outros menos. No meu caso, a observação é pra lá de aguda. Luto para não parecer uma pessoa indiscreta, excessivamente desconfiada ou que vê conspiração em tudo. Mas é graças ao dom da observação que me tornei imortal nas palavras. Palavras que podem ser suaves ou duras, mas sempre expressões fiéis do real, e não do falso. Isto porque nunca me envergonhei de assumir a ingenuidade passada. Descobri que a amazônia não era o paraíso selvagem, e sim o faroeste sem lei dos madeireiros, da exploração da mão de obra (e sexual) infantil; o sertão “multicolorido” ainda guarda e vive os ranços do coronelismo; os oceanos estão poluídos e em alguns pontos há piratas e caçadores de baleia; a África vive em guerra tribal e política...e as mil e uma noites de Bagdá...não passam de ficção. Nem sabia o que era a ditadura no Brasil durante minha “encantada” infância. Estava preocupado em criar minhas cidades. Montava mapas. As ruas de Jundiaí, montadas artesanalmente na parede de casa. As rodovias paulistas. Por elas, conduzia meus carrinhos, trens e ônibus. Não havia perfeição, mas tudo se encaixava. Os problemas eram resolvidos. Quando se faz com amor, os problemas se resolvem. Quando se faz por dinheiro, não se resolve, se tapeia.

     As duas realidades estão presentes em mim. A inocência infantil, guardada numa gaveta. E a atitude adulta, dura e implacável. É por isso que sou visto como um escritor ousado, “bocudo” mas ao mesmo tempo infantil, sentimental. Em suma, um escritor de estilo complexo para definir. Não é comum encontrar pessoas que se posicionam num ponto de equilíbrio e de uma hora para outra “visitam” um extremo ou outro. O mundo (entenda-se sociedade) caminha para oito ou oitenta. Ou é capitalista ou comunista. Ou é gay ou não é. Ou é de Deus ou do demônio. A sociedade não consegue ir ao encontro do ponto de equilíbrio, que é a verdadeira natureza de tudo que existe. Se estudarmos a vida de pessoas que fizeram história no mundo, descobriremos que essas pessoas, para cumprirem com suas missões, nadaram contra a correnteza. Contra rédeas familiares e de seus países. Em minha infância, inconscientemente eu ia contra essas rédeas. E na pressão da família ou da sociedade é que experimentamos os extremos. Passei a infância e parte da adolescência nesse vai-vem. Hoje, adulto, tenho o ponto de equilíbrio como o ponto de pausa, meditação, o “pasto verdejante”. Saio dele somente quando necessário. Quem tem no sangue e na alma dotes artísticos (como o verdadeiro escritor), vê nisso a universalidade, o poder de dialogar com gregos e troianos, e a crítica que abala o íntimo dos leitores. O verdadeiro escritor não emite crítica destrutiva, pois a destrutiva provém da inveja e da omissão. A crítica deve ser sempre fator de transformação, e para transformar, ela não pode ser “mansa”. O verdadeiro amigo não diz somente aquilo que você quer ouvir, mas diz (e muito) o que você não quer ouvir. E é assim que construo minha obra literária, com protestos e apontamentos do caminho a seguir (protestar sem apontar direções não leva a nada), palavras firmes, de atitude e também serenidade. O paraíso do ideal infantil não deve morrer jamais, pois se o homem crescesse e evoluísse sem perder a bondade de criança, o mundo seria outro. Se a contemplação infantil fizesse parte do cotidiano adulto, o mundo seria outro. Sim, eu paro e contemplo as estrelas. As nuvens. O contorno da serra. Os cursos d’água. Consigo idealizar a “água da beleza” que nunca conheci. Talvez tenha aproveitado a chance de ter nascido no berço da velha classe média, pois assim subi os degraus em direção a elite e desci em direção ao “proletariado”. Constatei que o rico não tem tempo para contemplação porque “tempo é dinheiro”. Rico observa marcas e concorrentes. Pobres não têm tempo para contemplação porque trabalham o tempo todo para ter o mínimo para sobreviver e depois querem fechar os olhos para o “descanso merecido”.

     Foi observando e aprendendo essa realidade que cheguei a conclusão de que as transformações virão da classe média. As raras pessoas da classe média que lutam para chegar ao ponto de equilíbrio, pois sentem de um lado o drama da insegurança da classe alta, e a tensão da necessidade que a classe baixa vive do outro. É a classe média que tem a verdadeira consciência de que os extremos só conduzem à infelicidade e à destruição. E ela tem a arma transformadora nas mãos, pois possuem teoria e prática, coisas que dificilmente caminham juntas nos extremos. Como transformar? Idealizando. Como idealizei na infância. Não deixar morrer o ideal. Lutar por ele. Nem que seja em palavras, pois palavras firmes, que produzem efeito, não morrem. Agora, se você acha que sonhos e ideais infantis são bobeiras, criancice, lembre-se das palavras do Mestre: “se não forem iguais as crianças, não entrareis no Reino”. E disse mais: “ai daqueles que fizerem mal às crianças”.

     Lamentavelmente, a sociedade tem feito muito mal às crianças. Não só pedofilia. Mas tem destruído o sonho de um mundo cheio de amigos, lugares belos, beleza...”Água da Belleza”. Passado perdido. Nossas águas e nossas almas estão poluídas. E só a minha, a sua atitude pode mudar esta realidade.

SANTA HIPOCRISIA

 

 

     Independente de você ser contra ou a favor de misturar (ou unir) política com religião, as duas coisas, distintas, possuem muito em comum. E uma dessas coisas é a responsabilidade. Quem abraça um cargo público, carrega a responsabilidade de administrar bem uma cidade, uma nação; e sobretudo dar o exemplo de honestidade ao lidar com o dinheiro público. Quem segue uma religião, carrega a responsabilidade de ser exemplo cristão (no caso das religiões cristãs) em seus atos. Repito: atos. Pois pregar a palavra é relativamente fácil. Mesmo para aqueles que ficam suados pregando em praça pública, isto qualquer pessoa com um pouco de disposição faz. Os palestrantes. Os que dão cursos, independente de serem remunerados ou não. O político que promete, assume responsabilidade. O pregador da Palavra é responsável pelos seus atos. Inclusive os atos praticados nos bastidores. É aqui o ponto central deste artigo.

     A sociedade brasileira vive um drama que parece não ter fim, o comportamento rebelde dos jovens e adolescentes, cada vez mais envolvidos com as chamadas “baladas”, regadas a muita bebida e drogas ilícitas. O sexo banalizado. E o deboche àquilo que sempre chamamos de “ética e moral”. É fácil condenar o comportamento dos jovens. Difícil é assumir que eles são frutos de um sistema político que vive a hipocrisia e mantém uma sociedade amarrada ao consumismo – “você só é alguém se tiver isto e aquilo”. Como esse sistema é chamado de “democrático”, a sociedade – os adultos conscientes de seus deveres – são responsáveis por manter ou mudar esse sistema. É aqui onde os políticos escapam pela tangente. “O povo votou em mim”.

     Ao mesmo tempo em que os olhos dos adultos se abrem para os compromissos da vida responsável, caem numa terrível arapuca: lutar honestamente ou aliar-se. A maioria escolhe aliar-se, pois o ideal de luta da juventude “virou utopia”. Eis os mundos separados de jovens e adultos! Enquanto os jovens dizem “mostrem suas caras”, os adultos, fatigados, argumentando que estão velhos, tentam se esconder atrás de uma religião ou de amizades do meio político. Precisam ter “costas quentes”. Assim, entram de corpo e alma no reino da hipocrisia, religiosa e política. E alimentam o distanciamento entre o mundo adulto e o mundo dos jovens. Isto pode ser notado de forma explícita no sistema educacional brasileiro: tanto as escolas públicas como particulares, vão muito bem na educação infantil, até por volta dos dez anos de idade. Com alunos a partir dessa faixa etária, governos e instituições particulares se perdem. Viram reféns do medo. Por quê? É o confronto de mundos. Os olhos dos jovens e adolescentes começam a se abrir para a realidade. E o que mais mexe com eles, é a hipocrisia do mundo adulto que vem com a velha ética e moral, desmascarada facilmente. A famigerada ordem “faça o que eu digo mas não faça o que eu faço”. São aliciados por partidos políticos, no entanto os meios de comunicações trazem diariamente escândalos de corrupção dentro de todos (ou quase todos) eles. São disputados por igrejas, no entanto casos de pedofilia não cessam, e o enriquecimento das mesmas já virou caso de polícia, por lavagem de dinheiro e estelionato. Eis o dilema: ficar fora e lutar por mudanças ou se envolver, “aliar-se” para ter costas quentes e uma vida “sossegada?”

     Hoje, do alto de meus quarenta anos, continuo convivendo perfeitamente com jovens e adultos, e não apenas presencio, mas sinto esse distanciamento e os conflitos que raramente terminam num consenso. O jovem assume seu erro, sua rebeldia, enquanto adultos escondem, não admitem erros. Não que eu esteja dando razão somente aos jovens, o que falta ao adulto é ser autêntico. Muitas vezes a frustração por ter chegado aos quarenta, cinquenta anos e não ter conseguido superar um trauma, um vício ou determinados erros e preconceitos, leva o adulto a “lavar as mãos”, se vestir numa roupa fantasiosa. No entanto, por mais que se esconda atrás dessas vestes, a verdade de uma forma ou de outra vem à tona. E aí resulta nos conflitos. Ele quer transmitir experiência de vida aos mais jovens mas não consegue ser exemplo. Basta observar a realidade dos grupos de jovens de igrejas. Os números caíram espetacularmente de 15 anos para cá. Por quê? O jovem de hoje não é igual o de décadas atrás, que circulava menos e tinha menos informação. A juventude de hoje circula a pé, de carro, se comunica pela internet. A sociedade tem cada vez menos privacidade, consequentemente, fica mais difícil se esconder. E é assim que vemos e descobrimos que nem tudo o que parece, é. O cidadão que faz bonito na igreja, é um péssimo patrão para seus funcionários. Na igreja, é um “santo”. Em sua empresa (normalmente microempresa) explora seus funcionários. Atrasa pagamento. É mesquinho com seus funcionários...e investigando um pouco mais a fundo, é mesquinho em família. O outro, que dá curso para casais, esconde o materialismo. É apegado a patrimônio, “quer levar a casa quando morrer”. Quer orientar casais que o procuram para saber sobre a questão das drogas mas o próprio filho utiliza maconha para “relaxar”. E de vez em quando prova uma nova droga fina que chegou ao mercado. Como pode uma pessoa pregar ensinamento cristão se na vida pública e familiar faz tudo ao contrário? Ah, podem alegar: “sou pecador também, sou falho”. É óbvio! Todo mundo peca. Mas não é o pecado ou as falhas que produzem o caos na sociedade. É a mentira e a omissão unidas ao poder. O cidadão que conquista uma posição, da mais alta à mais simples, quer mandar. Passar por cima dos outros. Ele se arma com a Bíblia ou as leis dos homens (que são falhas) para causar temor. Quem nunca ouviu a célebre expressão “você sabe com quem está falando?” Cristo disse: “quem quiser ser o primeiro, que seja o último”. “Daqueles que mais tem, mais será cobrado”. Como então se explica tanta hipocrisia? Manipulação. A ferramenta política presente nas igrejas: “ensinar ao povo somente o que é conveniente”.

     O cidadão que atingiu tal posição, se esquece de detalhes. O poder cega para coisas simples. O ser humano, independente de classe social, evoluiu. E percebe as verdades nas entrelinhas. O jovem descobre tudo. A criança de hoje descobre tudo. Questiona. Faz perguntas delicadas, e o adulto hipócrita, sem resposta, desvia o assunto. Pior, pois sem resposta, a criança ou o jovem irá buscar resposta por seus próprios meios.

     O argumento “errar é humano” não deve jamais ser usado por pessoas que atingem certas posições dentro dos dois grandes poderes da sociedade: política e igreja. Tentar justificar erros incentiva o uso da força através da criminalidade. É o erro secular dos poderosos manipular leis a seu favor. Impor através da condição financeira e do domínio das letras, da Palavra, de “costas quentes”. Não é a toa que meu trecho bíblico predileto é “dos que mais tem, mais será cobrado”. Essa Palavra é a mais omitida pela sociedade humana através dos anos. E justamente por fazerem o inverso dela, o mundo está totalmente dividido. Desde que a nobreza justifica uma vez um erro cometido, ela não pode impedir que seu extremo oposto faça justiça com as próprias mãos.

     Por tudo isso, a hipocrisia é algo extremamente sério. Ela é percebida sutilmente pela nova geração, e o pior, faz escola. Ensina. Ensina a lei da conveniência. Do quem pode mais, chora menos. É preciso quebrar essa corrente. E pelo nível de hipocrisia que domina nossa sociedade, o conserto é doloroso. Desmascarar hipócritas não é fácil, exige coragem e preparo. Não adianta esperar que o tempo dê conta dos hipócritas. Cada um pagará pelo seu erro mais cedo ou mais tarde. Se quisermos transformações sociais, precisamos começar a desmascará-los já. Desde o simples cidadão que faz a palestra numa comunidade de jovens ou casais ao bispo, ao prefeito, ao presidente. Você estará ajudando a sociedade e até mesmo esse cidadão, que na hora não irá admitir, mas no futuro, inevitavelmente, reconhecerá que estava errado...e atrasando a vida de muitas pessoas.

 

 

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