Boa noite!

APARECIDA DO NORTE

APARECIDA DO NORTE; FÉ E COMÉRCIO

 

 

     Treze anos depois, estou de volta à Aparecida do Norte, cidade-santuário do Brasil, onde está o maior templo mariano do mundo. A primeira vez que lá estive foi em 1981, numa inesquecível excursão promovida pela avó de um amigo. A partir de então, fiz várias outras viagens à Aparecida durante aqueles anos 80 e também durante a década de 90. Um aprendizado muito valioso para compreender a fé do povo e também sua cultura.

     Em qualquer cidade-santuário do mundo encontraremos a dupla fé e comércio, duas coisas antagônicas, mas convivendo plenamente interligadas. Isso tem o nome de turismo religioso. Assim como temos o turismo da saúde (estâncias hidrominerais, spas, etc.), o turismo de negócios e no paralelo, o turismo sexual. Existe outro também não oficial, o turismo ligado às penitenciárias espalhadas pelo interior. Desde que famílias se desloquem centenas de quilômetros para visitar um parente preso, movimenta o comércio local, pousadas, e dá passageiros para as inúmeras empresas clandestinas de ônibus ou vans.

     Logicamente as cidades precisam oferecer infraestrutura, aos seus moradores e aos visitantes. O comércio sempre existirá para complementar essa infraestrutura. Todo mundo precisa de uma renda, desde que, sem explorar a fé e a cultura. O eterno e incurável problema da economia de mercado é o descontrole. As leis não são respeitadas porque o dinheiro compra e manipula as leis. Tanto é verdade que os monopólios avançam. No próprio setor de ônibus isso é perfeitamente visível. Enquanto meia dúzia monopoliza, triplica o número de clandestinos.

     No mundo religioso ocorre algo semelhante, e nas cidades-santuário isso fica mais visível. Saúde não pode ser comércio, assim como fé também não pode ser comércio. Não se compra “vaga no céu”, não se mede a fé pelo tamanho da oferenda ou da vela acesa. A verdadeira fé é invisível aos olhos materiais. É simples e discreta. Logo, o turismo religioso é mais turismo do que fé.

     Mas em meio ao tamanho da exploração comercial de Aparecida, podemos encontrar sim exemplos de fé. É no meio do caos que descobrimos os guerreiros verdadeiros, que não alimentam sacolas e sim a alma. A nova geração local, que pode ser vista em todo o comércio da cidade. Jovens sujeitos ao tráfico, consumo de drogas e à prostituição. Conversei com um “sobrevivente” desse mundo, que atribui à fé sua conquista, mas deixou bem claro que abraçou a oportunidade que bateu à porta, atitude que poucos têm.

     Não é por ser cidade santuário que Aparecida não enfrenta os mesmos problemas de outras cidades do porte ou que tem a economia baseada no turismo. Templos, por mais suntuosos que sejam, não convertem pessoas locais se não há vontade política para cuidar do social. Gerar renda para o município é fácil, quero ver é preparar o povo para a riqueza. Abundam carros novos e até importados na porta de alguns comércios da cidade. Riqueza material gerada pela imagem da riqueza espiritual. A igreja católica é santa e pecadora, e isso não deve ser pretexto para deixar como está. O poder da igreja católica na cidade possui o mesmo peso de um governador. Rádio e emissora de TV, instrumentos de evangelização que podem ser transformadores sociais, transmissores de cidadania. O poder de Aparecida tem longo alcance, e o benefício, independente de doutrina, pode e deveria ser maior. Infelizmente, pessoas com a determinação de Irmã Dorothy são raras.

     Aos poucos, igreja velha e basílica nova são restauradas. O serviço de atendimento ao romeiro melhorou e vai melhorar mais. O que falta é investimento na realidade social local, preparo da nova geração. É fácil ser devoto da santa quando o comércio vai de vento em popa. Mas não se esqueçam que a vigilância através de câmeras e seguranças está por todos os cantos onde circulam os turistas. Se traz tranquilidade que não havia algum tempo atrás, é uma tranquilidade aparente, pois todos ficaram dependentes dessa vigilância. No fundo, é a criminalidade que, como é praxe no mundo capitalista, gera negócios. Que o poder de Aparecida mobilize a região para gerar o que mais falta: fé e qualidade de vida.

Parceiros













Eu Apoio


Juliano Gaitero


Sebo O Barato da Cultura


Aloysio Roberto Letra
Escritor e Roteirista


Rock Nacional
e Internacional



Soul, Funk, Samba
Rock e Derivados


Em Defesa do Meio
Ambiente e Cidadania