Boa noite!

MAIS ATITUDE

MAIS ATITUDE, MENOS COMPAIXÃO

 

 

     A “novela Wellington Menezes de Oliveira” vai se prolongar por um bom tempo, até ser abafada por algum novo episódio de violência ou escândalo político, fatos corriqueiros de nosso país. Entre explosões de ódio contra o matador e suicida que ocupam mais de 50 páginas na internet, reflito e escrevo o segundo artigo.

     Emoções não levam a nada. Dó, compaixão não levam a nada.  Até a nobre caridade já é piegas. Vivemos um momento na história da humanidade que chama todos para a atitude. Chega de justificar erros. Chega de remediar. Ou buscamos a cura ou deixamos a vida nos levar para o inferno.

     Em minha vida, pequei como todos os demais. Todos erram, atire a primeira pedra aquele que nunca bebeu da água “proibida”. Estudei na época da ditadura militar, quando os alunos diziam sem maldade ou vergonha “este é meu amigo ou minha amiga”. Era das amizades que surgiam os namoros. Sim, ocorriam brigas eventuais ou sarrinhos, mas esse negócio de “bullyng”, massacre, humilhação, não era do caráter dos alunos naquela época. Havia, no entanto, o desprezo, o pouco caso, que causava, creio eu, dor semelhante. Percebia isso principalmente nas meninas que não possuíam beleza física, eram obesas, usavam óculos “fundo de garrafa”, etc. Os preconceitos passavam (e continuam passando) de pais para filhos. Todos querem o (a) namorado (a) mais bonito para se esnobar diante dos amigos e de suas famílias. Apesar das igrejas lotadas, todos valorizam mais o exterior que o interior. E assim caminha a humanidade. Fabricando traumas, despertando o que existe de mais caótico dentro de nós para agir a qualquer momento. Para “descontar”, não exatamente em quem nos causou mal, mas em qualquer um que esteja a nossa volta, pois esses milhares de “qualquer um” estão – talvez – melhores que nós, ou omissos à nossa dor, aflição. Esses anônimos podem ser nossos inimigos, pois se demonstrarmos nossa fraqueza, se aproveitarão, como todos os demais que já nos prejudicaram.

     A natureza não é perfeita, é equilibrada. Em sua imperfeição, sempre existiram os feios, fracos e os que chamamos de especiais, portadores de alguma deficiência física ou distúrbio mental. Por ser equilibrada, os aparentemente perfeitos também possuem algum problema que não é visível, e os feios e fracos podem possuir algum dom muito superior aos seus opostos. Dessa forma, todos precisam de todos. Ninguém necessita de sentimentos de dó ou compaixão. Precisamos de troca mútua de experiências e cooperação. Falo tranquilamente isso porque nunca conheci o sentimento de inveja ou o estranho prazer de maltratar alguém. Tenho sim meus defeitos, mas esses citados eu desconheço em minha pessoa. No entanto, convivi com pessoas invejosas, falsas, exploradoras e violentas. Consegui sempre me colocar no lugar delas para tentar compreender o que sentiam com tais atitudes. Foi assim que me interessei em psicologia, e antes de estudá-la no curso de Administração, já sabia muita coisa, na prática.

     Quando morava no Parque Eloy Chaves, na fase da adolescência, eu e minha irmã nos deparamos certo dia com uma cadela vagando pela rua; magricela e de uma cor extremamente feia; era um preto desbotado, que não chegava a ser cinza. Passava longe de ser aquele preto vistoso dos cachorros de raça. A cadela ia e vinha, para cá e para lá, procurando o que comer pelos cantos e sacos de lixo. Até que decidimos nos aproximar para ver a reação. Chegamos com cuidado e fazendo gestos de carinho. Ela, com um pouco de medo e receio, se abaixou no gesto típico de submissão, o rabo tentava balançar mas parece que de tanto tempo sem sentir alegria de alguma brincadeira, estava um tanto travado. Sem jeito, permitiu ser agradada. Saímos de perto e ela ficou por ali, parece que não acreditando no que havia acontecido. Mais tarde, como ela permanecia na rua de casa, resolvemos trazer água e um pouco de comida. Colocamos na calçada e ela comeu. À noite, ouvimos choramingo no portão. Era ela. Saímos, dessa vez junto de nossa mãe, e ficamos espantados com o jeito daquele animal. Enfiava a pata pelo portão, como se implorasse abrigo e carinho. Não teve jeito. Adotamos a cadela que vagava pelas ruas. Nossa preocupação era com a saúde dela, mas sequer precisou de veterinário. Bastou banho e talco. Não possuía sarna ou pulgas, estava somente magra de fome, tudo o que precisava era carinho e boa alimentação. Bastou essa atitude para algumas pessoas da vizinhança ficarem espantadas: “nossa, vocês adotaram aquela cadela vira-lata?”  “Puxa, vocês pegaram um cachorro de rua?”

     Se fosse um poodle, basset ou qualquer outra raça, diriam “nossa, que sorte que vocês tiveram de encontrar esse cachorro!”

     Não quero ser bom samaritano. Não quero glórias. Também não faço caridade para inglês ver...aliás, não faço caridade. Faço aquilo que minha mente diz: “faça!” Sou movido pelo sentimento de justiça, e não de dó, piedade. O caso passado da cadela é para refletirmos como agimos com nós mesmos. Assim como os humanos, o animal, perambulando pelas ruas, poderia ficar doente, adquirir raiva e morder alguém; até mesmo atravessar repentinamente a rua e causar um acidente automobilístico.  Adotar crianças exige critérios, é algo que deve ser feito dentro das leis. Muito mais que crianças para adoção, temos crianças que convivem com pais violentos, viciados, doentes...temos milhares de crianças e pré adolescentes em situação de risco. Crianças que não dependem só da assistência social do município, mas da atitude de todos nós. Do respeito de nossos filhos, belos, saudáveis e felizes. Crianças que para serem felizes, não dependem da falsa caridade da elite, que no natal ou no dia das crianças abarrotam as entidades com brinquedos ou guloseimas. Essas crianças precisam de calor humano, diálogo, carinho, coisas que nós, muito bem posicionados socialmente, não fazemos e justificamos com aqueles velhos argumentos “não tenho tempo” ou “ela vai se apegar a mim”. É fácil fazer caridade à distância, ninguém quer responsabilidade! Perante Deus, esse tipo de caridade não tem valor nenhum. São atitudes para autopromoção, interesses (normalmente políticos).

     Da mesma forma que o jovem de Realengo, traumatizado, revoltado ou o que seja, não poderia justificar as mortes ao seu sofrimento passado, a sociedade não pode justificar sua ausência na atenção às nossas crianças e pré adolescentes por “falta de tempo”, “falta de verba” ou “impossibilidade de se atender a toda a população”. Colocar mais segurança, mais vigilância, mais polícia nas ruas, são medidas paliativas, podem amenizar, mas não resolvem. Identificar problemáticos, loucos, psicopatas e mandá-los para hospitais psiquiátricos, cadeias e penitenciárias superlotadas, também não resolve. Justiça com as próprias mãos, linchamento, dá uma falsa sensação de alívio, mas não é o caminho. O assassino morreu, se matou. Se fosse linchado, daria na mesma; não traria as vidas que foram tiradas de volta. Do lado de lá, ninguém sabe como é a justiça de Deus. Portanto, precisamos repensar nossas atitudes em sociedade. É inútil punir criminosos, precisamos fazer algo para evitar que crianças e jovens se tornem futuros criminosos. O que poderia ter sido feito para que esse rapaz não chegasse ao ponto de cometer essa barbárie? Onde houve omissão e de quem? Agora também não adianta procurar culpados. A lição que ficou é; ninguém gosta de ser maltratado com atos ou palavras; ninguém gosta de servir de saco de pancadas; ninguém gosta de ser tratado como anormal ou coitadinho. A lei é: não faça aos outros o que não gostaria que fizessem com você. Tenhamos atitudes fraternas, livres de preconceito e arrogância. E o principal: cobremos isso dos outros sem medo. Porque não adianta fazermos nossa parte sem ensinar os outros. Se nosso vizinho está errando, podemos virar vítimas devido à omissão desse vizinho. Corrijo a expressão “inocentes pagam pelos pecadores”, pois pecar todos pecam. Os inocentes pagam pelos que gostam de tirar vantagens em cima do erro. Há muito o que refletirmos sobre aquele anônimo e desprezado rapaz, que do fundo de seu inferno pessoal, causou dores infernais à pessoas que o desconheciam. Do anonimato, ficou conhecido nacionalmente; não como deveria. Não acredito em acasos ou “coisas do destino”. Acredito na lei do retorno. Uma árvore maltratada, não produzirá bons frutos. Quando vemos pessoas cometendo erros de forma consciente e nos calamos porque “não é conosco”, estamos fortalecendo a propagação daqueles erros. Até que um dia, aquela desgraça que parecia distante de nós, nos atinge. Por quê? Porque esquecemos que tudo é interligado. Nenhuma mentira dura para sempre, da mesma forma, tudo o que permitimos que de ruim aconteça porque está longe de nós, um dia volta e nos pega de surpresa.

     Que estas palavras acordem muita gente. Cuidar de seres humanos é uma das tarefas mais difíceis do mundo. Mas não há outro jeito. Enquanto insistirmos em esperar as tragédias para depois punir, não haverá solução.

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