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BR 020

BR 020: SÍMBOLO DA FALTA DE INVESTIMENTO NA MALHA RODOVIÁRIA E INFRAESTRUTURA DO PAÍS

 

 

     Se existe uma ligação rodoviária em nosso país que representa o descaso e a incompetência dos governantes, essa ligação é a Brasília – Fortaleza, ou, BR 020.

     O abandono da rodovia poderia ser justificado pelo “isolamento” regional, ou seja, ela corta uma região praticamente sem cidades médias, “cidades de importância”. Eis a questão; as boas rodovias são implantadas onde já existem “cidades de importância” ou o surgimento das “cidades de importância” dependem da chegada de boas rodovias? Descobrir a resposta para esta questão é muito mais complexo do que se imagina.

     Para começarmos a compreender, vamos para o outro lado do país, a região amazônica, mais precisamente o trecho matogrossense da rodovia Cuiabá – Santarém. De Cuiabá até Sinop são 500 quilômetros de rodovia relativamente boa, se periodicamente há trechos repletos de buracos é devido ao excesso de chuvas e tráfego intenso de caminhões com cargas pesadas (entenda-se acima do peso). O desenvolvimento das cidades ao longo desse trecho de 500 quilômetros forçou a rápida chegada do asfalto. E o desenvolvimento dessas cidades se deu pelo agronegócio expansivo. A região compreende a transição do cerrado para a Amazônia, terra boa para plantação, ao contrário das terras mais ao norte cujo solo não possui vocação para tal. O que ocorreu nessa região foi uma “colonização” criteriosa, feita por pessoas capacitadas tecnicamente com o suporte do governo. O resultado desse desenvolvimento com critérios pode ser observado na qualidade de vida das cidades ao longo da rodovia, como Lucas do Rio Verde, Sorriso e a própria Sinop. O mesmo não ocorreu a noroeste da Cuiabá-Santarém. Em torno de toda região bem desenvolvida, surgem os cinturões de miséria e exploração. No caso da região amazônica, já dentro da floresta, cidades como Juína, Castanheira, Colniza e outras, possuem uma realidade bem diferente de Sinop e suas vizinhas. A colonização foi sem critérios, a floresta foi derrubada por grileiros, madeireiros clandestinos, pessoas sem qualificação nenhuma que invadiram a região na ilusão de se estabelecer num “eldorado”. Eis o atrativo! Eis a diferença de regiões! O desenvolvimento no interior do país ocorre seguindo uma “cultura” de conveniência e oportunismo. A região central do país não possui madeira nobre, não possui mogno, castanheira ou jacarandás. As terras da região central precisam ser mais trabalhadas, pois o clima semiárido torna necessária a implantação de sistemas caros de irrigação (caros na visão conservadora, pois hoje existem técnicas simples e eficientes). Começa aqui uma coleção de itens absurdos dessa “cultura”, cujas raízes estão diretamente ligadas à época do Brasil colonial, o estabelecimento de famílias de origens diferentes e a relação com os nativos. O assunto é extenso e pode ser resumido da seguinte forma; o desenvolvimento próximo ao litoral foi prioritário (e continua sendo). A proximidade dos portos é favorável em termos logísticos e financeiros, e o turismo completa a movimentação financeira. O progresso dessa região pede uma educação aprimorada, o que não existe no interior. Como a grande mídia está nas capitais, o interior fica a mercê da política coronelista. O isolamento favorece a proliferação da mão de obra barata e até mesmo o trabalho semi-escravo.

     Podemos concluir que: o desenvolvimento do país ocorre onde já existe a facilidade de infraestrutura ou há abundância de recursos naturais (por isso todos os olhos estão voltados para a Amazônia). O enorme círculo que compreende leste do Tocantins, sul do Maranhão, Piauí e Ceará, extremo oeste de Pernambuco e noroeste da Bahia, é a região do semiárido, distante da fartura do litoral e das florestas úmidas. É preciso vontade política e alto investimento empresarial para levar o progresso à essa região. O exemplo mais recente está no sul do Piauí, onde alguns empresários do sul do país investiram no agronegócio mas encontram dificuldades para recrutar mão de obra qualificada, justamente pela falta de investimento na educação e no aperfeiçoamento profissional do povo dos municípios locais. É justamente no traçado da BR 020 que encontraremos os municípios mais esquecidos pelo poder público. Partindo de Brasília, Barreiras é a última cidade “rica” de toda a região central do país. Seguindo em direção ao Ceará, a BR some no meio do sertão. É preciso desviar por Cristalândia e seguir até Canto do Buriti, cidades do sul do Piauí. De lá, pegar outras estradas até chegar novamente na BR 020, que é asfaltada somente a partir de Picos. De Barreiras a Picos, vai quase um dia de viagem atravessando uma região sem qualquer infraestrutura boa para alimentação ou hospedagem. Região onde só se viaja em comboio por questão de segurança, pois é comum ocorrer assaltos em qualquer ponto da estrada. Tudo isso vai refletir no preço do frete, no preço final ao consumidor, na qualidade dos produtos transportados por caminhões, já que inexiste ferrovia que atravesse aquela região.

     O país paga caro pela falta de visão desenvolvimentista criteriosa nos governos, desde Brasília às prefeituras das menores cidades. Para os parlamentares, é mais fácil e cômodo deixar o povo sair de suas cidades para as capitais do que investir no interior. No caso da BR 020, a complexidade da obra pela região que atravessa não compensaria em termos de votos, pois o progresso à região com a conclusão da estrada não seria imediato. E políticos querem votos imediatos. Cidades no trajeto, como São Raimundo Nonato, onde está o Parque Nacional da Serra da Capivara, seria conhecida e visitada anos depois da conclusão da obra, isso porque o parque não está preparado para receber turistas como no Parque Nacional de Itatiaia. O progresso a médio e longo prazo de toda essa região central do país não está nos planos de nossos políticos, porque também não há cobrança popular. A população dessa região, submissa aos coronéis, ou está conformada com a situação ou migra para as capitais.

     A situação da BR 020 denuncia tudo o que coloquei neste artigo. É utopia imaginar a BR 020 toda concluída, asfaltada e com pista dupla. Nem a movimentada Transbrasiliana (BR 153), em seu trecho paulista, é duplicada. Se um milagre ocorresse e a rodovia fosse asfaltada e com pista dupla, o trajeto entre Brasília e Fortaleza levaria quase a metade do tempo gasto atualmente. O preço das mercadorias cairia sensivelmente. Os produtos chegariam aos seus destinos em melhores condições. O Parque Nacional da Serra da Capivara receberia investimentos e turistas estrangeiros poderiam excursionar ao local, conhecendo todas as belezas do sertão nordestino, que, apesar da miséria social, possui paisagens naturais belíssimas sob o ponto de vista estrangeiro. Esse turismo só não ocorre devido à situação social, agravada pela falta de investimento em infraestrutura, educação e aperfeiçoamento profissional. Turistas que hoje se aventurarem pelo sertão, correm sérios riscos de assalto. Por isso preferem permanecer ao longo do litoral, quando muito, chegam somente a Caruaru ou Campina Grande.

     Enquanto deputados nordestinos fazem vai-vem entre Brasília e “suas” capitais litorâneas em jatinhos, aqueles que transportam a riqueza do país trafegam por péssimas estradas, sujeitos a assaltos em emboscadas. As empresas de ônibus exigem tarifas altas para compensar o desgaste em seus veículos, por isso hoje perdem passageiros devido as passagens aéreas possuírem preços similares, e o passageiro do rodoviário cada vez mais prefere o avião ao ônibus. Os itinerários dos ônibus fogem do trajeto oficial para buscar passageiros que preencham os lugares vagos. E assim o círculo vicioso não tem fim. Até a vizinha Argentina possui malha rodoviária infinitamente melhor que a nossa. Não que lá só tenha santos no governo. É que o governo de lá tem consciência de que o investimento em infraestrutura rodoviária faz bem para a economia. Tanto para os produtos transportados em caminhões como para o turismo terrestre. Enquanto lá abundam excursões levando turistas estrangeiros de norte a sul, deixando dólares em cada cidade que param, aqui no Brasil empresas tradicionais de excursão terrestre fecharam suas portas, como Soletur, Urbi et Orbi e várias outras. Até a CVC movimenta mais excursões aéreas que terrestres.

     O governo esconde essa realidade, e continuará escondendo, porque não há vontade política em mudar. Cabe à nova geração que lê estas linhas, retirar os corruptos que nossos pais colocaram no poder e votar em pessoas que possuam currículo limpo e com atitude para mudar, colocar o país nos eixos.

 

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