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CONDOMÍNIOS DE ILUSÃO E DE OMISSÃO

     Quando uma cidade é planejada e vão surgindo bairros, as ruas ganham nomes e constam nos mapas oficiais onde começam e terminam, se foram feitas com ou sem saída. Todo esse processo é oficial. Bairros, vilas, “jardins”, conjuntos habitacionais...até que com o passar do tempo o conceito de “condomínio” foi crescendo devido ao argumento de “segurança”. Veio na bagagem dos problemas sociais não resolvidos por prefeituras, governadores, presidentes...e cidadão comum, que quando cria associações, cria somente para olhar o próprio umbigo.
     Em Jundiaí existe um bairro classe A/B já antiguinho, desde criança o conheço. Chama-se Jardim Ana Maria e está situado na entrada principal da cidade. Até os anos 80 qualquer cidadão circulava por lá sem ser incomodado. Nos anos 90, com o crescimento da indústria da segurança, o bairro foi se armando com vigilantes a pé, de moto, até sair uma guarita e a Avenida Manoela Lacerda de Vergueiro, uma via duplicada, virar mão única para a outra pista ficar exclusiva para os moradores do bairro – citei bem, bairro, chama-se Jardim Ana Maria, e é dividido em parte alta e parte baixa. A parte baixa é composta por ruas que ligam a Avenida Jundiaí à Rua Barão de Teffé. A parte alta não faz ligação semelhante, mas não são ruas sem saída, de um lado é acesso à Avenida Jundiaí e do outro à Manoela Lacerda de Vergueiro. Nenhum motorista acessa o bairro para chegar à Manoela, já é um privilégio natural, ao contrário dos moradores da parte baixa, que convivem com tráfego constante em todas as ruas.
     A histeria por segurança, que não é exclusiva de Jundiaí, fez tanto barulho no ouvido do poder público que conseguiu “autorização” para fechar as ruas de acesso à Avenida Jundiaí com muros! Isso mesmo, muros bloqueiam a passagem de veículos. O acesso e a saída do bairro são feitos somente pela avenida lateral, onde há guarita.
     A questão da segurança patrimonial é perfeitamente compreensível. Quem não quer? Mas atitudes desse porte abrem precedentes; bairros que se enquadram em situação semelhante (não possuem vias de ligação de um bairro a outro), vão querer o mesmo privilégio (se eles podem, por que nós não podemos?) As ruas, oficialmente, possuem saída para veículos, continuam ligando o bairro à avenida, como consta nos mapas. O direito de ir e vir é garantido na constituição, as ruas são públicas. As ruas do bairro não são travessas particulares, estas sim podem ter o acesso controlado. Apesar dos defensores do pseudo-condomínio alegarem que o bairro foi fechado somente aos veículos, e que qualquer pedestre pode caminhar por lá, não foi o que aconteceu comigo quando passei com a pesquisa sobre hábito da leitura no local, três anos atrás. O segurança disse que eu só poderia bater nas residências com a permissão do presidente da associação de moradores. Se é essa a regra, a mesma não foi mostrada por escrito. O segurança não tinha nenhum documento em mãos para provar que essa regra existe. A desorganização era tão visível que a princípio deixaram eu entrar no bairro, mas quando entrevistava a empregada de uma residência, “se arrependeram” e vieram dizer que antes eu deveria conversar com o presidente da associação, a mesma associação que se omitiu de falar com a imprensa neste mês de julho diante da polêmica do muro.
     Sabe-se que em toda sociedade de determinada nação, quando cada um começa a modificar ou modelar as leis para benefício próprio, de um grupo privilegiado, surge algo chamado justiça com as próprias mãos. A paz, buscada por pobres e ricos, só é atingida quando caem os muros. Cada barreira levantada para separar povos, bairros ou nações, acirra o preconceito e o ódio. Os moradores desse e outros bairros alegarão segurança, segurança, segurança. Mas não é esse o caminho! Quem possui alto poder aquisitivo, tem a faca e o queijo nas mãos para fazer e cobrar do poder público ações sociais. Só ações sociais eficazes combatem a criminalidade. Se tais ações só serão sentidas a médio e longo prazo, por que as classes A, B e C, que possuem tanta influência na cidade, não começaram a investir no social dez, quinze, vinte anos atrás? Aliás, são vinte anos que o mesmo partido governa a cidade. Como disse uma moradora na entrevista, a cidade não é segura. Torno a perguntar: o que fizeram nesses vinte anos? Todos se omitiram. Abriram as pernas para a segurança privada. E o preço disso, é o aumento da criminalidade. Chegará o dia em que os criminosos estarão por trás de câmeras e outros aparatos de segurança. “Capiche?”
     O conceito de condomínio é ilusório. Se não acessam residências para assaltar, migram para assaltos em semáforos, estacionamentos...da mesma forma que é impossível colocar câmeras em todos os lugares do mundo, é impossível viver fugindo da criminalidade com aparatos de segurança. O que esse povo de condomínio está fazendo para exercer cidadania e cobrar do poder público ações que combatam o crime na raiz? Nada. Fazem barulho, gritam e acabam apelando para ignorâncias do gênero. Fazem chover no molhado. Até quando as classes alta e média insistirão em adotar medidas paliativas??

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