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OS DONOS DA VERDADE

Com a adesão em massa das pessoas às redes sociais, vamos descobrindo não apenas o perfil da sociedade, mas também a verdadeira face de parentes e amigos.

É preocupante o futuro das relações humanas. Quinze anos atrás o setor de RH das empresas era o ponto-chave da entrada de novos funcionários. A relação entre funcionários e clientes ia além. Avaliava-se o relacionamento familiar, em grupos de amigos...tudo olho no olho. Se o sorriso era verdadeiro ou teatral, o nervosismo ou a timidez observados nos gestos faciais ou com as mãos...isso numa época ainda em que a maioria escrevia cartas ou visitava os amigos. Se naquela época já havia a fuga do corpo a corpo, como ficará nestes tempos de relacionamentos virtuais?

Inicia-se e termina-se namoro pela internet. Tentamos convencer os outros de nossa honestidade, nossa capacidade intelectual em textos digitados e críticas aparentemente consistentes. As pessoas se abrem virtualmente como jamais fariam frente a frente. Nunca o “eu sou” esteve tão alto como hoje. As últimas discussões que presenciei na mais popular das redes sociais, entre jovens na faixa dos 18 anos de idade, evidenciaram muito bem esta realidade. Ninguém afirmará ser “o dono da verdade”, mas deixará bem clara a sua necessidade de autoafirmação, de experiência de vida. Foi assim também numa recente discussão com certa pessoa do mundo das letras. O sujeito busca um suporte e cria a redoma em torno de si para não ser atingido por pedras, mas atira pedra nos outros como forma de aliviar seus traumas não superados ou a sua triste experiência de vida. E assim, armados com suas redomas e experiências, tentam impor respeito e passar uma imagem de força, que na realidade não existe.

Por mais bagagem da tão popular experiência de vida, por mais conhecimento acadêmico adquirido, até mesmo pelo equilíbrio obtido entre teoria e prática, ninguém é dono da verdade. A verdade não tem dono, pois ela não pode ser descrita em sua “essência”. O que descrevemos e jogamos aos outros, seja para ajudar, atacar ou se defender, é nossa visão de mundo, bagagem de aprendizado. Ou fatos presenciados. Boa parte do que escrevo e escrevi nos livros e livretos, são fatos presenciados, posteriormente descritos ou modificados conforme minha visão do mundo. Não há nada de mais nisso. Minhas afirmações nos artigos também são meu ponto de vista, todo ser humano é único, por isso todos tem o direito de expor sua visão de mundo e experiências vividas. A discussão e as brigas surgem quando alguém quer impor sua visão do mundo como se ele tivesse descoberto a verdade. As pessoas se excedem e, “em defesa da honra” chegam ao autoritarismo. Nem as autoridades políticas e religiosas são donas da verdade! E assim, muitas amizades têm sido rompidas, tanto no corpo a corpo como no mundo virtual. A humildade, virtude tão falada na Bíblia, virou sinônimo de fraqueza. E em nome dessa tal honra, ninguém quer demonstrar fraqueza. Esqueceram que é pelas trilhas da fraqueza que descobrimos as pistas para a verdade.

A complexidade do tema faria muitas pessoas desistirem de analisar, pois penetra pelas veredas da espiritualidade e das atitudes entre os seres humanos. O primeiro desafio é entender que verdade e realidade são irmãs, mas não correspondem à mesma coisa. Estamos na realidade do mundo, mas não estamos na verdade. Compreendem? Logo, podemos dizer que somos realistas, mas nem por isso somos íntegros, verdadeiros. Logo, a realidade nem sempre condiz com a verdade. A realidade pode ser pura ilusão, por que não? A realidade é a falsidade! É a imagem que as pessoas fazem de si mesmas e dos outros! Mas a verdade é imutável. A realidade pode ser manipulada, a verdade não. O homem pode traçar sua vida, mas não mudará a verdade de seu ser! Isso porque a verdade está intimamente ligada à missão do ser, daquela vida, ao propósito da minha, da sua existência. A verdade está embutida no “nada acontece por acaso”. E é por isso que a verdade, ao mesmo tempo em que é buscada desesperadamente pelo ser humano, nos braços da ciência ou nos altares das igrejas, é também temida. As pessoas buscam-na cheias de medo, temor do que podem encontrar. E nessa angústia, muitas acabam se entregando às ilusões, mesmo sabendo que as ilusões são passageiras e quase sempre nocivas. Digo quase porque estamos cercados por elas e é praticamente impossível desviar os olhos delas vinte e quatro horas por dia, portanto temos que conviver com as ilusões usando o jogo de cintura, fazendo com que suas armadilhas não nos prejudiquem e até sirvam de coquetel para nosso fortalecimento. Este é o segundo desafio. Aceitar que a verdade não está ao nosso alcance, e temos que usar a dupla realidade x ilusão para construir nossos alicerces para algum dia, aqui ou “lá” compreendermos a verdade.

Poderia usar neste momento a tão popular expressão “na verdade”, como já usei até mesmo em artigos neste site. É uma força de expressão, todo mundo usa, e de forma mecânica, inconsciente, ou simplesmente para ilustrar o texto em questão, demonstrar clareza e profundidade naquilo que se escreve. Verdade é uma palavra popular, usada até de forma banal, mas com um peso que ninguém sequer imagina. Poderíamos fazer a comparação com as expressões “meu Deus”...”Nossa Senhora”...ditas e repetidas milhões de vezes sem noção alguma pelo povo. Isto é real! Porém não corresponde à verdade da natureza humana, ainda desconhecida. Se até mesmo os cientistas, que chegaram ao núcleo do átomo e avistaram as galáxias anos-luz, desconhecem o segredo da vida e da morte, o que é a alma, Deus e a complexidade da mente humana com seu poder transformador e manipulador, como alguém pode afirmar ser o dono da verdade?

Não tenhamos medo de voltar os olhos para dentro de nós, pensar em nós mesmos, sobretudo em nossas fraquezas antes de nos autoafirmarmos aos outros, seja pessoalmente ou pelas redes sociais. Uma das experiências mais valiosas na vida do indivíduo é olhar para dentro de si, e admitir seus erros, enganos e dúvidas. Depois de conhecer a si, aí sim se prontificar a ajudar ou corrigir alguém. Tudo o que sabemos até aqui, pode mudar de hoje para amanhã. A realidade está em constante mudança. Eu mesmo, uma palavra que disse ontem, posso hoje admitir que estava enganado quanto àquela afirmação. Se cada um se corrigir e admitir o engano, o aprendizado da raça humana dará passos maiores. Mas para isso é necessário haver humildade. Lembro que um adolescente que conheci dez anos atrás, escravo da moda e da aparência, admitiu não gostar da palavra humilde, humildade, causava-lhe mal estar, vergonha. Além da humildade, precisamos ter controle sobre a ansiedade, a obsessão de querer descobrir a verdade. O mal da sociedade é querer saber coisas do além, coisas da faculdade, antes de aprender as tarefas do primário e ginásio. Este, por sinal, o grande e mais comum erro de muitos acadêmicos, que gostam de expor “suas verdades” esfregando na cara dos outros seus diplomas. E vale também para os que não gostam de estudar e se impõe com a força bruta, como se só a experiência prática desse diploma da vida e a “verdade” para atacar e se defender.

A realidade ensina, basta observar. Se ninguém é dono da verdade, todos têm a aprender uns com os outros. Aprender e ensinar. Defenda seu ponto de vista, sem confundir com “honra”. Ninguém é digno de nada neste mundo, pois estamos aqui para servir. Tudo o que conquistamos e acumulamos, ficará. Até nossos filhos ficarão. Amamos as pessoas, e umas partem antes, outras depois. É a realidade, com a verdade embutida num cofre que ainda não pode ser aberto. Por isso, deixemos de lado a ira, a inveja, essa autoafirmação para transmitir a imagem de algo que não somos. Se temos certeza de algo que corresponde à nossa realidade, de ser humano único, apenas tenhamos a força da palavra, dita com convicção, e isso basta. “Eu creio nisto e não naquilo”. Estamos em nosso direito de afirmar ou discordar. Mas não temos o direito de impor. Apenas isso, algo bastante simples, que irá melhorar nosso diálogo com os outros e conservar as amizades, algo belo e que muitas vezes perdemos por causa de uma palavra mal colocada...o cuidado é a fórmula ideal para não passarmos a imagem de donos da verdade. O mesmo cuidado que devemos ter com o mundo, com a vida.

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