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A IGNORANTE ERA VIRTUAL

 

     Durante a década de 80 quando eu ainda estava na escola, era comum ouvir pais de amigos meus contando: “naquela época não tinha estudo, precisava trabalhar na roça, ajudar meus pais... por isso só aprendi a ler pra escrever o nome, entender alguma coisa”.

     É fato.  Naqueles tempos, escola era para filho de doutor, quando muito um filho de comerciante bem sucedido.  Mulher então... estudar para quê?  Só para as senhoras de classe média, que era uma honra ser professora. Até a virada dos anos 80 havia o orgulho em ser professora.  Hoje, ouve-se a pergunta: “você tem certeza que quer ser professora?”

     Tive a felicidade de estudar naquela época, quando o jovem pensava diferente e a alienação ainda não era uma arma de enriquecimento em massa e “democraticamente” legalizada.  Graças aos dourados anos 80, quando existiam professores que incentivavam o aluno a fazer trabalho de próprio punho e redações, e mais ainda, ler esses trabalhos para a classe, tornei-me escritor e palestrante.  Hoje, posso escrever este artigo afirmando que o Brasil não acertou o passo na educação.  Saímos de uma época em que estudar era artigo de luxo e passamos (pulando matérias) para um sistema de educação acessível a todos, mas totalmente banalizado.  Os culpados? Política e políticos.

     O incentivo à sociedade urbana, sem critérios e planejamento, levou o cidadão a criar o conceito de que é o diploma que abre as portas, e não a educação, o conhecimento.  A sociedade urbana exige dinheiro.  E tempo é dinheiro.  Por isso tudo precisa ser rápido.  Surgiram inúmeros cursinhos supletivos, curso disto, daquilo, em 3, 6 meses... é preciso ter o diploma para as portas se abrirem.  Portas que tem pressa, prepare-se rápido!  E eis que o mundo virtual chegou.  Tudo ainda mais rápido.  O mundo tem pressa de produzir.  Porque produção é dinheiro.  E o dinheiro construiu as grandes cidades, as megalópoles... e o povo da megalópole quer consumir.  Portanto, quem não aprendeu antes datilografia, digita.  Digita errado.  Quem não pegou a fase das cartas, envia e-mail.  Com erros.  Trabalha errado.  Produz errado.  Porque correu atrás do dinheiro, e não do conhecimento.  Pulou matérias básicas.  Pegou trabalhos prontos na Internet.  Nem se deu ao cuidado de ler se era aquilo mesmo.  “Não há tempo, pois tempo é dinheiro”.

     Assim, entramos na era em que a nova geração tem muito mais dinheiro que a velha geração, nossos avós, bisavós... mas somos tão ou mais ignorantes que eles em conhecimento.  E pior ainda quando descobrirmos que eles não eram ignorantes, porque aqueles que tiveram a oportunidade de estudar aprenderam com qualidade.  Porque precisavam pensar.  A qualidade era atingida pelo valor dado aos mestres e também pelo esforço pessoal.  Hoje, “o computador corrige”.  Corrige mas não monta textos.  E como poucos sabem criar, a maioria copia.  Afinal, quem quer ocupar horas estudando, pensando, se pode encontrar tudo pronto?  Até currículo! Quantos currículos tive a oportunidade de verificar em meu trabalho no comércio e constatar erros gravíssimos?  Erros de concordância e gerúndios naquelas cartinhas ridículas que resistem ao tempo, erros ortográficos, endereços incompletos, erro até no nome do candidato!  “Nossa, eu não tinha visto!” – exclamou a dona do currículo, uma jovem na faixa dos dezoito anos.  Só neste caso dos currículos, tiramos duas conclusões que revelam a situação no mercado brasileiro: quem trabalha (produz), faz para si.  O digitador de currículos não está pensando no bem que pode e deveria fazer ao cliente que paga pelo serviço.  Ele não vê a hora de terminar o serviço para tirar o seu; em suma, ele não produz para servir a sociedade, ele produz porque precisa ter dinheiro.  E a segunda conclusão: a omissão do próprio cliente.  Ele pagou pelo serviço e não confere.  Não conferindo, prejudica a si próprio e dá margem para que a má prestação de serviço continue.

     A bola de neve não para de crescer.  Vai rolando e atinge os mais altos patamares.  Revistas, jornais.  A informação errada. Como pode um jornal de grande circulação publicar “montador de imóveis?” O computador não acusa erro, pois todas as palavras estão grafadas corretamente. A profissão não existe, bem como não existe “proibido a entrada”.  Porém o aviso errado pode ser encontrado em todo tipo de empresa e repartição pública.  Sem nenhum  constrangimento.  “O povo se acostuma” – diz alguém.  E se acostuma mesmo.  A tecnologia dos letreiros eletrônicos nos ônibus está mudando o nome de dois bairros em minha região: Morada das Vinhas para “Moradas” das Vinhas e Bairro da Chave para “Bairro do Chaves”.  Lembrem-se daquela expressão “uma mentira repetida insistentemente acaba se tornando uma verdade...”  Já vi currículo cujo endereço do candidato era “Moradas das Vinhas”! E já deve ter “Bairro do Chaves” espalhado por aí também.

     É, alguns tolos achavam, vinte anos atrás, que o avanço tecnológico iria melhorar a educação, acabariam os erros... grande engano!

     Por causa de colocar a “boca no trombone” sobre isso, já fui taxado de chato, perfeccionista e outras coisas.  Sim, eu também erro.  Mas me policio.  Fico vigilante.  Se não houver esforço de todos, a coisa cresce e atinge um ponto irreversível.  Em minha opinião, já atingiu.  A prova maior de que a educação foi banalizada tivemos recentemente, com o caderno do aluno.  Mapas errados para escolas!  E não é caso isolado.  Dias atrás, folheei um livro para crianças (ensino fundamental) e lá encontrei “igreja epsicopal”.  Como nas administrações públicas há muita gente “ocupada em fazer nada”, sobra para os professores o papel de revisores.  Só que nem todos sabem o que é episcopal, como a professora que alertei sobre o erro; nem sabia da existência de tal igreja no Brasil. Como ela responderia se o aluno perguntasse?  Pediria ao aluno para pesquisar?  Mas o aluno jamais acharia igreja “epsicopal”. 

     Da mesma forma que muitos professores de hoje carecem de preparo e conhecimento pela própria desvalorização da profissão, muita gente que está nos órgãos públicos municipais, estaduais e federais, não possui conhecimento técnico da área em que atua. Isso é conseqüência da velha política de apadrinhamento, emprego em troca da amizade e apoio político.  É a explicação para a situação que chegamos.  Tudo tem origem na política.  Na má conduta dos que chegam lá e a corrupção.  E o  povo?  Não é o povo que põe os corruptos lá?  Para essa pergunta, façam uma pesquisa e descubram quantos veículos de comunicação estão nas mãos desses políticos.  Lembrem-se que veículos de comunicação são armas poderosas. A verdadeira democracia só se estabelece quando a mídia é imparcial. Caso contrário, ela é falsa, e o que existe é manipulação.

     E assim, estamos na era da ignorância. Onde apesar de toda a tecnologia, os mapas não são confiáveis.  Nem mapas de escola, de prefeituras, de satélite e muito menos de listas telefônicas. Porque ninguém está aí com Geografia.  Todos querem terminar o quanto antes o serviço para receber o pagamento e ir embora pra casa.  Ninguém está aí com a língua portuguesa, com redação, com o próprio currículo. Porque a própria sociedade mudou. Hoje se valoriza os espertos. A inversão de valores foi ampla, geral e irrestrita. Muitos inteligentes estão desempregados.  E todos os espertos, garantidos. Inclusive os espertos que usam a esperteza para obter vantagens.  E todas as glórias são rendidas ao incompetente, que apesar da ignorância técnica e cultural, é esperto, sabe dar nó em pingo d’água, é ótimo em arrumar argumentos, sair pela tangente... e na hora do apuro, tem dinheiro para pagar os melhores advogados.

     Ainda bem que nem tudo está perdido, e a única lei que não falha e não é corrupta como a dos homens, é a lei do retorno.

 

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