Boa noite!

OS SINAIS QUE VEM DA NATUREZA

“ERROS DIVINOS”

 

     Este artigo é uma reflexão sobre o artigo de um famoso articulista brasileiro (in memorian), que li alguns anos atrás na coluna de um jornal. O polêmico título “erros divinos” é referente ao fato do homem (ser humano) ter seu corpo físico mais frágil e menos hábil que o de muitos animais. Citava ele como exemplo a pulga, com uma constituição física extremamente flexível, o que faz inveja ao próprio ser humano...em suma, o respeitado articulista e escritor (que por questão ética não citarei o nome), coloca a seguinte reflexão: “Por que Deus colocou mais perfeição física em determinados animais e no homem não?”

     É claro que num primeiro momento o artigo provoca a ira e o desprezo por parte dos religiosos fervorosos, afinal, Deus nos fez à sua imagem e semelhança.  Eu mesmo a princípio considerei o artigo imprudente, ou como um simples desabafo de um homem inconformado com sua doença na época (doença que o levou à morte algum tempo depois).

     Mas como também sou escritor e minha memória não é nem um pouco curta, às vezes paro e repenso situações que li ou presenciei, cinco, dez, vinte anos atrás...agora foi o momento de fazer uma reflexão sobre aquele polêmico artigo. Não fiquemos presos à questão da pulga ser fisicamente muito mais perfeita que o homem. Desse tema podemos deduzir muito mais.

     No mundo de hoje, Deus é questionado de diversas formas, até sua existência é questionada. Mas a fé é inquestionável, pois esta é particular de cada um. Por mais ateia ou “sem fé” que uma pessoa seja, ela terá ao menos a fé em sua existência e seus atos.”Ela está viva e isso não lhe deixa dúvidas”. Um ateu não crê em Deus, mas pode crer e depositar fé em algo que vê, seja numa árvore ou num grão de arroz. Logo, tudo pode ser questionado e discutido, inclusive religiões, doutrinas e “deuses”. O que não se discute é fé.

     Outro ponto que causa muita confusão: a associação de Deus à natureza. Deus (a força criadora) traz em sua essência a perfeição, mas a sua criação (nós e a natureza) não é perfeita, pois goza de liberdade plena de agir e está sujeita às transformações naturais do mundo. É na adaptação ao curso natural do mundo e do universo que desastres naturais ocorrem. Da morte surge nova vida, é um ciclo evolutivo. Isto não é uma colocação espírita, independente de doutrina o ciclo de vida e morte segue seu curso, é a lei natural. Até eu, anos atrás, comungava com a visão dos poetas excessivamente românticos e dos religiosos ingênuos de que “a natureza é perfeita”. Não, a natureza não é perfeita. Ela é equilibrada. E manter o equilíbrio não é estar na perfeição, é apenas o ponto de partida para alcançar a perfeição. O que leva à perfeição é o tempo, a experiência dentro desse ponto de equilíbrio. Refletindo sobre isso, começaremos a encaixar as peças nessa polêmica expressão “erros divinos”.

     Um amigo meu tem o seguinte conceito sobre capitalismo e comunismo: o capitalismo é o cavalo, e o comunismo é o cavaleiro. Por quê? O que é o comunismo puro, no sentido exato da palavra? Comunismo – tudo em comum, todos iguais, economia planificada, ninguém é mais que ninguém, não existe pobres nem ricos. Estão todos à mesma altura. Logo, concluímos que nenhum país do mundo atingiu esse ponto de equilíbrio, pois mesmo os países que se dizem comunistas, apresentam distorções sociais. Já o capitalismo é o que vivemos e conhecemos muito bem. Sociedade dividida em classes, pois quem quer crescer, acumula fortunas infinitamente. Portanto, temos aí um cavalo selvagem, sem cavaleiro, sem comandante. E na sua cavalgada sem rumo, assistimos de braços cruzados as crises que vão e vem, sempre à beira de um colapso, uma quebra total da economia mundial, já que não há regras, e quando há, são dribladas já que o dinheiro compra tudo. O capitalismo praticado por nossos países é o cavalo selvagem, sem comando. E os países ditos comunistas, são os cavaleiros que se endeusaram tanto que acham que podem dispensar a força do cavalo. Ambos estão errados. Num primeiro momento, um precisa do outro para que a sociedade mundial chegue ao ponto de equilíbrio. O capitalismo precisa do cavaleiro, mas um cavaleiro sóbrio, para estabilizar a sociedade e equilibrar a distribuição de renda (sem paternalismos e assistencialismos). Já o cavaleiro precisa do cavalo, pois nenhum país é totalmente autossuficiente que dispense a transação comercial entre nações.

     O que isto tudo tem a ver com os tais erros divinos? O ponto de equilíbrio. Quer queira quer não, política e religião são coisas distintas, mas bem próximas, tanto que em muitos lugares deste nosso mundo as duas estão extremamente associadas. E nessa ligação, Cristo estaria de que lado politicamente? Não, Cristo não combina com capitalismo, pois Ele não fez distinção entre pobres e ricos; Cristo desafiou os reis, os donos do poder, os donos da riqueza. Portanto, Cristo quis e fez a partilha. Cristo mostrou o caminho do ponto de equilíbrio. Por outro lado, Ele não fez como os extremistas autoritários que dispensam o cavalo. Cristo até poderia dispensar o cavalo, por ser o Mestre, filho de Deus. Mas não. O mundo não está preparado socialmente e espiritualmente para dispensar o cavalo ou o cavaleiro. Para se chegar ao ponto de equilíbrio, ambos precisam se aproximar e dialogar. E o cavalo selvagem terá que ser domado, o que significa que a economia de mercado precisa se socializar. Com o cavalo domado, o cavaleiro conseguirá encontrar o rumo do equilíbrio, que são as oportunidades iguais para que todos possam competir lealmente, sem uso da força e sem abuso daqueles que estão na dianteira.

     Isto não é busca da perfeição, é busca do equilíbrio! A perfeição está tão distante, fora do nosso alcance, que é perda de tempo falar sobre ela neste momento. Portanto, “erros divinos” é uma afirmação exagerada, o próprio autor deve tê-la usado com a intenção de chocar, chamar a atenção. Porque se levarmos ao pé da letra, seria como afirmar que a África é culpada pela disseminação do vírus da SIDA (AIDS) pelo mundo. Não faz sentido. Mas podemos debater os seguintes pontos: a origem do homem no continente africano, o combate à AIDS, as doenças causadas pela poluição, pelo aquecimento global, etc.

     O criador não erra. Mas sua criação erra. A natureza tem suas aberrações, tem o diferente, a exceção. Por quê? Alguém dirá: por causa do pecado. Mas então a natureza também peca?? Não! A prova de amor se dá através da partilha. Da ajuda e da inclusão do menos favorecido à sociedade. Inclusão que transforma, e não aquela caridade que só sustenta a pobreza como é comum. Ensinar a pescar, ensinar ao próximo o conhecimento que você tem da vida. Amar o diferente e rejeitado. Lembrem-se que se um filhote de determinada espécie é rejeitado pela sua família, um animal da outra espécie pode adotá-lo. Já presenciamos fatos assim inúmeras vezes, mostrados na TV e internet. A natureza erra, mas se ela está em equilíbrio e não foi modificada ou destruída pelo homem, ela mesma tem seus recursos, suas alternativas. Nada acontece por acaso. Tudo tem um motivo, seja provação ao ser humano, seja para que a evolução da natureza prossiga rumo a uma “utópica perfeição”.

     Os erros da natureza são justificáveis. Por quê? Porque são partes de um quebra cabeça no jogo da evolução. Diferente dos erros humanos, que são cometidos intencionalmente, para conquistar poder sobre o outro e prejudicá-lo. Enquanto a natureza encaixa uma peça, o homem distancia cada vez mais as peças.

     Errar, portanto, faz parte do jogo da evolução. O problema maior é a insistência e a conveniência que o homem encontra no erro. Isso é o que retarda a evolução e leva o mundo a caminhar no sentido contrário. A insistência nos prazeres momentâneos, na glória temporária que a política proporciona, na exploração criminosa da mão de obra barata...tudo momentos passageiros de poder e prazer, pois a lei do retorno é um elo de ligação entre a natureza e o criador e ela age sobre todas as ações humanas. Ninguém escapa dela, independente de crença.

     Os erros humanos, erros conscientes, são injustificáveis porque o homem tem duas armas poderosas: o conhecimento e a fé. Se ele tem ambos, seus erros não se justificam, pois “daqueles que mais tem, mais será cobrado”.

     Pois é, meu caro escritor e articulista que já não está entre nós...é bem provável que seu polêmico artigo seja um desabafo, um inconformismo com a pobre situação do corpo humano, tão frágil e vulnerável a doenças...homens ilustres, intelectuais, dotados de carisma, inteligência, poder ou riqueza espiritual, são abatidos “impiedosamente” por câncer, diabetes, úlceras e tantas outras doenças que a ciência e a tecnologia tentam a todo custo vencer. A pulga salta não sei quantas vezes a altura de seu corpo. E não se quebra. O homem, se cair numa escada, pode quebrar o fêmur. Se quebrar a coluna vertebral (que não é flexível como em certos animais), fica paraplégico. Mas o homem tem armas poderosas para contornar tudo isso e dar prova de amor, pois só o amor leva à evolução. Podemos ser cavaleiros para domar o cavalo selvagem, e fazer com que a justiça seja igual para todos. Temos o conhecimento para levar aos que não conhecem. E a fé, que pode mover montanhas.

     Se não estamos conseguindo domar os cavalos, dividir nossos dons e talentos, e nem conseguindo superar as doenças com a fé aliada à ciência do bem, é porque OS ERROS SÃO NOSSOS. E o pior: continuamos insistindo neles por puro egoísmo.

 

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