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FAMÍLIA FÍSICA E FAMÍLIA ESPIRITUAL

     Neste mês de junho mais uma vez houve polêmica a nível nacional agitando o Planalto Central. Só não foi escândalo político, mas para os conservadores o escândalo era “moral”.
     A união civil e “religiosa” entre parceiros do mesmo sexo é uma realidade que está chegando para ficar. Conservadores são espécies em extinção; ainda por décadas estarão por aqui “azucrinando” nossa paciência com seus conceitos retrógrados, mas no século XXII com certeza já estarão extintos. Se isso é bom ou mau, depende de como a sociedade conduz as transformações. Eu por exemplo, conservo somente aquilo que acredito que faz bem e deve continuar, por exemplo em questão musical. A velha música erudita, que muitos ouvidos da geração y e z não suportam, é música de verdade. Maravilha que o ser humano produziu e que não deve ser extinta jamais. Uma pessoa pode gostar de “psy”, rap, funk, até o pagode atual que carece de qualidade, mas não admitir que a música clássica é a mãe de todas as músicas, o que de melhor existe em termos de som, é inaceitável.
     Nas interpretações jurídicas a respeito de família, podemos fazer uma comparação com o caso acima. O passar do tempo não apagará a imagem da tradicional família, pai, mãe e filhos, que dá continuidade à espécie humana. Mas não é por isso que esta constituição familiar deve ser a única privilegiada. A preocupação de pessoas ligadas à igreja (que é o caso do juiz ou promotor que foi o pivô da polêmica), é com o conceito de família. É uma lógica que a perpetuação da espécie humana só é possível através de machos e fêmeas, homens e mulheres. No decorrer dos séculos os grupos familiares foram conquistando direitos, e em questão da relação do Estado com as famílias digo que falta mais. O problema está no fato de que as constituições em diversos países não levam em conta as exceções. Estados, governos, nunca deram importância aos deficientes físicos ou psíquicos, que por tais limitações, são impossibilitados de procriar, constituir uma família. Para os governos, tais casos eram “problemas pontuais de cada família”, que deveria “se virar” para cuidar de seus “acidentes de percurso”. Hoje os deficientes conquistaram diversos direitos, e muitos deles conseguem levar uma vida normal sem depender de parentes. No entanto, falta mais. Dentre os direitos que ainda precisam conquistar, está a consciência coletiva de que não são vítimas de puro acaso ou “castigo divino” como pregam algumas seitas. A prova de amor na vida humana está na aceitação do limitado, do diferente. Toda provação não é somente para a família, mas para a sociedade. E provações não admitem preconceito ou exclusão.
     O caso da realidade homossexual ou homoafetiva é de inclusão. E inclusão não coloca em risco a estrutura familiar, que é o temor dos religiosos conservadores. Por mais que existam pessoas do mesmo sexo se unindo no mundo todo, a espécie humana não correrá risco de extinção devido a esse fator. O que está colocando em risco a espécie humana é justamente o oposto disso, a natalidade descontrolada, que podemos constatar em nossas grandes cidades; o número de crianças, menores perambulando pelas ruas, pedindo esmolas em semáforos e se matando com o crack. Se governos e igrejas não estão tendo capacidade de preservar esses menores largados por famílias desestruturadas, não devem interferir no direito de pessoas que se enquadram na realidade da exceção e acabam prestando um serviço ao mundo: adotam crianças que muitos casais “legítimos”, por puro preconceito, não querem.
     O problema está realmente nas leis, que ainda ignoram as exceções. A própria natureza convive equilibradamente com as exceções, aliás, são as exceções que dão equilíbrio à natureza. Como estaria o mundo hoje se cada ser humano que nasceu tivesse procriado? Se não existissem os estéreis e os que por opção não quiseram ter filhos? Alguém aí tem noção ambiental de como estaria nosso planeta com tanto lixo e água contaminada? A falta de água potável é uma realidade que ameaça o mundo num futuro próximo.
     As leis levam em conta somente a família física. Se ignoram as exceções, ignoram igualmente o fator espiritual. União de seres humanos não se restringe ao sexo, que é um detalhe físico. União vai além disso, que é a afetividade, cumplicidade, parceria. Logicamente quem deseja ser pai ou mãe vai em busca do sexo oposto. Mas construir uma vida social não precisa ser necessariamente com o sexo oposto. A união civil de pessoas do mesmo sexo incomoda pelo detalhe sexo. Mas o fundamento da vida não é o sexo propriamente, e sim o servir ao mundo. Para ser servidor, plantar sementes (que não significa somente ter filhos), não existe obrigação universal de se unir ao sexo oposto. O homem se unirá àquele que lhe der um complemento na vida, suporte para cumprir com sua missão no mundo, e não somente familiar. O homem não nasce somente para constituir família, mas para servir ao mundo. Aqueles que constituem família, devem servir às suas famílias e também ao mundo, e isso nem sempre fica claro devido a visão limitada que a própria sociedade cria. Portanto, as interpretações jurídicas sobre a questão esbarram na visão limitada das leis, na visão de que somente o perfeito (entenda-se este perfeito como igual à maioria) é apto a possuir direitos. O fundamentalismo religioso nasce da visão estreita da interpretação religiosa e política do mundo. Leis e disciplinas devem existir para haver ordem, evitar a anarquia e o caos. Mas não devem interferir na privacidade, na particularidade de cada ser humano. Em outro artigo, defendi que a Palavra de Deus deve ser a moderadora dos atos políticos no mundo. Mas se a Palavra for interpretada por uma visão estreita ou obsessiva, de nada adiantará. Temos exemplo de sobra pelo mundo que o fundamentalismo religioso e o fanatismo produzem o caos. Para compreender a Palavra que está na Bíblia, é preciso levar em consideração o período da história da humanidade em que foi escrita, e o mundo não se fecha a um período, a evolução da humanidade é fato e tudo precisa ser adaptado à realidade do momento, do período em que estamos atravessando. É hora das igrejas debaterem a questão social e psicológica do ser humano, e não fugir do assunto. Dentro do mundo homossexual existem sim sérios problemas, muitas vezes originados de traumas. Da mesma forma que dentro do mundo heterossexual existem os eternos problemas que nem igrejas ou sociedade conseguiram sanar, como a obsessão que faz o homem considerar a mulher um objeto de prazer para pura satisfação e domínio, a pedofilia, o adultério, etc. Em suma, se a relação hetero está cheia de problemas “incorrigíveis”, quem está no direito de apontar o dedo para as relações homoafetivas?
     O dia em que as relações heterossexuais estiverem de acordo com o plano de Deus, talvez os “juízes” possam se dizer aptos a apontar os erros nas relações homossexuais. Se alguém disser que “um erro não justifica outro”, complemento com a palavra de Cristo: “atire a primeira pedra aquele que não tiver pecado”.
     Estou à disposição para debater o assunto.

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