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SÍNDROME DA FOBIA DO DIFERENTE

SÍNDROME DA FOBIA DO DIFERENTE

 

     Um assunto para livro mas que por hora fica no artigo, como introdução para uma futura análise mais profunda e abrangente. O título “síndrome da fobia do diferente” pode não ser adequado, porém resume de forma direta algo que tenho presenciado em determinadas pessoas desde minha adolescência.

     O medo é comum na infância, durante a fase da “descoberta do mundo”, e tende a diminuir conforme passam os anos. A superação varia de criança para criança, depende de fatores biológicos e principalmente do ambiente em que ela cresce. O natural é que todas as pessoas ao atingirem a maioridade, estejam prontas para os desafios do mundo, da sociedade, capazes de se sustentar, terem suas próprias vidas. Se não é assim, houve algum acidente no percurso. Se os acidentes são relacionados de fato a acidentes, doenças, problemas familiares e entraves sociais, pode-se dizer que são coisas corriqueiras e que a maioria consegue superar, a curto ou médio prazo se houver empenho. Aqui também se enquadram assaltos e sequestros, que produzem traumas sérios mas não impossíveis de superar. Agora, se o obstáculo é tal fobia, o medo ao novo, ao diferente, à quebra da rotina, isto é ainda mais complicado.

     Eis um breve retrato de pessoas atingidas pela “SFD”:

     - Seguem religiosamente um itinerário casa-escola-trabalho-igreja. Se por algum motivo saem do itinerário e se perdem (o que é lógico, pois não conhecem as adjacências), são tomadas por pânico, se desesperam.

     - Não se conformam com a mudança de um vizinho com o qual convivem há anos.

     - Imensa dificuldade para se enturmar na escola ou se adaptar ao primeiro emprego.

     - Raramente fazem novas amizades. Quando fazem, é por indicação de parentes ou do círculo de amizades que possuem desde a infância.

     - Mantêm uma rotina diária. Se um fator externo, acidental ou não, quebra essa rotina, a pessoa se perde.

     Para se chegar a raiz desse fator, faz-se necessário um prévio estudo das circunstâncias em que a pessoa viveu, seu habitat, pois tem muito a ver com questões culturais e influência de religião. É sabido que determinadas doutrinas podem influenciar positiva ou negativamente esta ou aquela pessoa conforme a bagagem que ela traz. Um exemplo clássico bastante atual, o caso do rapaz que frequentava o culto do “santo daime” e matou o cartunista Glauco e seu filho. Não vamos acusar a seita ou o assassino, mas tentar compreender o conjunto de fatores que proporcionaram a tragédia. Uma igreja é igual uma escola. Quanto mais alunos na classe, mais difícil fica para saber se todos estão compreendendo a matéria, pois cada aluno (ou membro de uma igreja), traz uma vivência diferente, um trauma oculto e outros problemas psicossociais. Não que o “caso Glauco” tenha a ver diretamente com a “SFD”, é apenas para ilustrar que a falta de aproximação com a realidade de cada indivíduo, pode desencadear piora no equilíbrio emocional, pois quem procura ajuda, busca transformação, e a transformação pede coisas palpáveis.

     Desde os anos 80 possuo um grande círculo de amizade, com pessoas de todas as classes sociais e religiões. Presenciei alguns casos leves e outros mais agudos da “SFD”. Um dos mais agudos ocorreu com o irmão de um ex-colega. O menino tinha uma certa dificuldade de se relacionar com os outros. Tímido. Baixa autoestima. Observava curioso quando eu conversava com seu irmão sobre meus trabalhos. Tentava se aproximar, interessado, mas algo o impedia de chegar e selar a amizade como seu irmão havia feito.

     Algum tempo depois, certos fatores fizeram com que eu me distanciasse dessa família. Como sempre fui de circular por toda a cidade, em alguns momentos cruzei com esse irmão dele, já maior de idade. Devido aos problemas familiares e pessoais, ele ingressou numa igreja que tem como método fazer lavagem cerebral. Resultado: ficou mais confuso e perturbado. Isso acentuou a “SFD” que germinava em sua vida desde a infância e adolescência. Certo dia que ele topou comigo, se assustou e tentou esconder algo. Fiquei sem entender nada. Só outro dia que novamente nos encontramos, ele, sem jeito, se aproximou e perguntou o que eu fazia naquele lugar do encontro anterior. Eu respondi que era candidato e distribuía meus “santinhos”. Encabulado, ele se desculpou e disse ter sentido medo, achando que eu ia denunciá-lo por ele estar vendendo produtos, ou seja, praticando o comércio ambulante.

     A pergunta que não quer calar: de onde ele deduziu que eu, apenas um escritor que exerce a cidadania, iria atrapalhar seu “ganha pão”? Será que ele acha que toda pessoa com estudo e trabalho publicado é uma “autoridade”?

     Na verdade, o assunto é bem mais complexo. Existe um segmento dentro das camadas D e E que desconhece seus direitos, e mais ainda a cidadania, e se preocupa apenas em sobreviver. Fecham-se nesse mundo e vivem uma rotina mecânica. Se algo de fora vem quebrar essa rotina, a reação é de susto, medo. Não é o mundo deles, e por isso não aceitam, se afastam. Essa novidade que rejeitam pode ser uma proposta de aperfeiçoamento do trabalho, uma proposta de estudo, mudança de endereço, de vida enfim. Até mesmo o mundo tecnológico, digital, como um computador em casa, muitos indagam: “para que isso”?

     Pessoas nessas condições tendem a desaparecer, mas ainda existem, e são convenientes para “empresários”, certos poderes públicos e certas igrejas. Viram objetos de uso em troca de uma suposta proteção e pequenos benefícios, como cesta básica, serviço de advogado, etc. Normalmente essas pessoas, como estão em meio ao povo, nas periferias e áreas rurais, são usadas como informantes. A “SFD” deixa o indivíduo restrito; ele vai olhar e seguir numa só direção, justamente aquela para qual foi programado. Detalhe: a uma certa altura, o sujeito já não tem medo, o termo “fobia” não se encaixa na personalidade. É um “matuto”, “veiaco”. Mas continua se contentando com aquela vidinha porque a “proteção” acomoda. Podemos comparar o sujeito em questão aos capangas dos coronéis que abundavam há 30, 40 anos atrás pelos sertões de nosso país. As circunstâncias hoje são diferentes, mas o método é o mesmo. O indivíduo pode ser burro, ignorante, mas é muito esperto. Só que em suas atitudes extremistas, fica fácil identificá-los. Principalmente aqueles a serviço de igrejas, pois ao contrário daqueles que estão a serviço de políticos, que ficam rodeando para “pescar” coisas, os serviçais de igrejas e seitas se afastam rapidamente. Como sou “escritor do mundo”, estes, no primeiro contato, dizem apenas “só leio a Bíblia” e se afastam, temendo serem seduzidos pela literatura mundana. Foi a atitude de um jovem de Franco da Rocha que topei certo dia na rodoviária. Rapaz novo e alienado. Cabeça feita por lavagem cerebral.

     A Bíblia é o livro dos livros. Nada substitui a Bíblia em termos de história da humanidade e lição de fé, mas a Bíblia pela Bíblia não traz os valores culturais exigidos para a plena realização técnica e profissional do ser humano no mundo contemporâneo. A Bíblia tem o poder de atravessar eras e continuar com sua Palavra viva, mas para cada era há um complemento cultural além da Bíblia.

     De tudo isto, o mais curioso é que A Palavra vem para libertar, mas neste caso a Palavra é usada para prender mais ainda o indivíduo que possui a “SFD”. A prisão que dá a falsa impressão de “proteção”.

     Para finalizar, deixo o recado: aqueles que fazem uso de pessoas nessa condições, o feitiço pode virar contra o feiticeiro. É só questão de tempo. As circunstâncias atuais não toleram mais essas atitudes, de ambos os lados.

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