Boa noite!

GERAÇÃO SHOPPING

GERAÇÃO SHOPPING, PELA ENÉSIMA VEZ

 

     Há décadas que se discute a “geração shopping”. Enquanto prós e contras travam uma guerra sem fim, a sociedade continua se rendendo à “cultura shopping”. Por quê?

     O estilo de vida norteamericano perdeu parte do espaço pela própria globalização. Começou com as ondas religiosas orientais na década de 90, a tal da “New Age” que sutilmente, está fundindo as crenças ocidentais com as orientais. A economia de mercados, abraçada também por países ditos socialistas (ou “comunistas” como a China), abocanha além dos mercados, a cultura. Se o mundo deixou de ser dividido em dois (capitalista e comunista), agora é uma colcha de retalhos, e o motor propulsor é a internet. Todo mundo quer comprar e vender. E o nome “shopping”, que começou tímido lá pelos anos 60, agora é a pérola de mais alto valor. Sinônimo de passeio, paquera,segurança. Quer queira quer não, com todo o brilho que a nação do Tio Sam perdeu paraconcorrentes, a cultura shopping sobrevive e cresce, dando fôlego ao estilo de vida norteamericano.

     Mas precisaríamos pensar e repensar tal estilo. Pesquisar. Sentir. Estilo de vida norteamericano é como política, religião e futebol; todos abraçam, sentem, sentem-se atraídos, se frustram, rejeitam...mas não se discute. Talvez os próprios norteamericanos não consigam iniciar o debate, a reflexão.

     Era uma vez uma grande cidade onde as pessoas conheciam as ruas, as praças, até seus vizinhos. As filas eram nas calçadas para entrar nos cinemas. Drive-ins abundavam. Respirava-se o ar das cidades, escondia-se embaixo das marquises na hora das chuvas, protegia-se do sol à sombra das árvores. Era divertido andar pelas ruas, a todo momento víamos novidades. Conhecíamos de verdade estas cidades. Até que alguém, cansado de percorrer quilômetros de ruas e avenidas, cruzando com pessoas de todos os tipos, resolveu criar um espaço seleto. O templo do consumo. E templo do consumo não é para todos. Por mais que hoje os shoppings tenham se tornado populares, suas origens estão lá no ideal separatista. O espaço reservado, do conforto, longe das intempéries, do sol e da chuva, dos pedintes, da mendicância. Como as políticas sociais não resolveram os problemas sociais, a saída mais fácil foi separar, afastar certas pessoas do incômodo das outras. Por mais que as portas dos shoppings estejam abertas a todos, “personas non gratas” são vigiadas e retiradas. Tanto que o maior motivo hoje apontado para frequentar um shopping, é a imagem da segurança. Segurança que tem telhado de vidro, pois em nossa capital paulista, assaltos a shoppings tem sido cada vez mais frequentes. Quem não tem memória curta, vai se lembrar também do estudante de classe média que entrou armado no cinema do shopping e abriu fogo contra o público no meio do filme. Shoppings trazem imagem de segurança, mas como qualquer outro lugar (até mesmo sua casa), não é cem por cento seguro. Pelo contrário, hoje é tão visado como um carro. Conforme o tempo passa, tudo muda. Está ficando mais seguro andar a pé do que de carro, fazer compras no comércio popular do que num shopping. E a explicação é simples: quanto mais se separa as pessoas, mais os confrontos se acirram. Quanto mais segurança se implanta, mais ativa a inteligência do homem para driblar e criar crimes perfeitos. Quem não gosta de um desafio?

     Os templos do consumo são como castelos de areia na beira do mar. As mudanças climáticas estão elevando o nível do mar, e um dia o mar engolirá extensas faixas de areia. O homem se consome no consumismo. Na terra do Tio Sam, a decadência das áreas centrais levaram as pessoas para os shoppings (ou foi o inverso). Até o belo Central Park ficou temido. Mas algo está abrindo os olhos das pessoas (até mesmo de alguns políticos). Aos poucos, as pessoas estão retornando às ruas. O Central Park está mais vivo que nunca, famílias inteiras estão presentes, inclusive levam suas crianças para o contato com a natureza. Na verdade, o ser humano cometeu o erro que está explícito num poema em meu mini livro Palavras de Atitude e Beleza: “Engaiolados”. O homem, na incompetência e na omissão de tratar as questões sociais, preferiu se engaiolar. E na gaiola, teve momentos de ilusão. Ilusão de segurança e felicidade. Descobriu tardiamente que o canto do canário na gaiola não é um canto real de felicidade, é um canto de socorro. Como alguém pode ser feliz preso num prédio, por mais belo que seja, enquanto uma multidão está lá fora, sentindo a brisa, o sol? Como o canário pode ser feliz dentro de uma gaiola vendo seus irmãos lá fora voando de árvore em árvore?

     Os templos do consumo podem ser muito belos, atrativos. Mas não troco a liberdade da rua por eles. Prefiro ver céu, nuvens, árvores, pássaros e pessoas de todos os tipos do que letreiros apelativos e pessoas que gostam de fazer desfile de moda. Prefiro respirar o ar puro do que ar condicionado. Conheço nomes de ruas e não nomes de lojas, pois sou ser humano e não número na lista de consumidores. Consumo. Mas não sou consumista, por isso não me enquadro na “geração shopping”. E graças a Deus.

 

 

 

Parceiros













Eu Apoio


Juliano Gaitero


Sebo O Barato da Cultura


Aloysio Roberto Letra
Escritor e Roteirista


Rock Nacional
e Internacional



Soul, Funk, Samba
Rock e Derivados


Em Defesa do Meio
Ambiente e Cidadania