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HOMOFOBIA OU DOR DE COTOVELO

HOMOFOBIA OU DOR DE COTOVELO?

 

     Os ataques a homossexuais na Avenida Paulista nos últimos meses me motivaram a escrever um pouco sobre este assunto, que fez parte de minhas pesquisas na década de 90 e tenho catalogado já muita coisa.

     A pesquisa foi na verdade um complemento para as observações feitas desde os anos 80, tanto que o livro Marvin, iniciado em 1989, traz um enfoque sobre a questão.

     Como todas as demais bagagens que trago, coloco não apenas a visão teórica, mas a prática (que não significa necessariamente que tenha praticado). Devido ao meu estilo eclético e a característica de falar a linguagem de todas as tribos, circulei pelos bastidores de quase tudo o que existe na sociedade brasileira, desde a nefasta política às inúmeras igrejas, do Direito estudado no curso de Administração às celas das penitenciárias do interior paulista, dos congressos espiritualistas e sobre prevenção às drogas aos círculos de “noias” numa rodada de crack, cocaína ou maconha. Sim, por ser discreto e não dar nomes aos bois, sempre circulei tranquilamente em todos os lugares e sempre fui muito bem recebido. Nunca roubei, nunca consumi drogas, mas por saber me comportar e ter boca fechada na hora certa, presenciei de tudo nesta vida, fui espectador nas situações mais embaraçosas. E é isto que me faz um escritor diferente, que consegue dar vida aos personagens, criar tramas com o gosto amargo da vida real. Graças a Deus não me lembro de nomes, justamente por serem de pessoas “simples”. Diferente de nomes colunáveis, de políticos e socialites, que aplicam o “faça o que eu digo mas não faça o que eu faço”. Daqueles que mais tem, mais será cobrado. Por isso, a vida me ensinou a não criticar e não cobrar daqueles que erram porque precisam sobreviver, mas criticar e cobrar daqueles que podem mudar para melhor suas vidas e a dos outros e não o fazem.

     Homossexualidade há muito tempo que saiu do guarda-roupa e das esquinas do submundo. Ainda assim, “impressiona” certos papais e mamães que insistem em serem conservadores. Aí entra a célebre hipocrisia (sim, ela de novo!) E dá-lhe estudos psicológicos, a psicologia das relações humanas, que também estudei no curso de Administração. Esta foi apenas um pontapé inicial, pois o estudo in loco foi no universo de minhas amizades. Maioria esmagadora de heterossexuais, um número pequeno de homossexuais assumidos e um número enigmático de bissexuais. Admirados, caros leitores? Sim senhores, sou realista. O mundo tende a ser cada vez mais bissexual, embora todos neguem. Agora, o que os estudiosos do assunto precisam rever, rediscutir, é o que é a bissexualidade no mundo atual. Falar somente em “atração” não cola mais. O mundo, cada vez mais materialista, é cada vez mais carente, e o ser humano está, de fato, se perdendo nessa questão emocional. Homens que querem que suas esposas sejam esposas e mães, mães que amam mais o genro que o próprio marido, homens que admitem que as “moçoilas” e “minas” não os amam e querem apenas suas “granas”, e (pasmem!) como disse um certo colega meu, “mina de hoje não fala em amor, só viado fala em amor”. Em suma, vivemos, mais que nunca na história mundial, uma BABEL de sentimentos e relações. O assunto é extenso, daria livro. Tentarei fazer apenas um resumo do que meus olhos captaram e sentiram nos últimos anos para este artigo.

     Primeiramente, a enxurrada de argumentos que os prós e contras se utilizam. Nem a Bíblia coloca um ponto final na questão, pois se um trecho diz, outro contradiz. E assim surgiram igrejas evangélicas para homossexuais (mais uma divisão!) A própria gigante católica se viu com telhado de vidro depois de vir a tona o número impressionante de sacerdotes pedófilos e homossexuais. O próprio bispo de minha terra, depois de tanto criticar a união civil de pessoas do mesmo sexo em um informativo católico, se deparou com o escândalo de um padre da região que se relacionava com meninos menores de idade. Pelo menos antes de falecer ele deixou a hipocrisia de lado e parou de falar nesse assunto, afinal, se nem os cientistas chegaram a uma conclusão sobre o “distúrbio”, o que um bispo quer colocar como certo ou errado? Enquanto a igreja excomungava o povo que pecava nas tentações da carne, o padre (que seria depois transferido para o Rio Grande do Sul e morreria misteriosamente), prosseguia sua curtição com meninos “na flor da juventude”. Em outras palavras, a igreja aplicava exatamente o que os políticos pregam: “façam o que eu digo mas não façam o que eu faço”. Se a igreja é santa e pecadora como afirmam muitos católicos (e eu concordo plenamente), sua missão é orientar, e não censurar, proibir, excomungar, pois a liberdade de ser e exercer o que cada um é, é o mais sagrado dos direitos. Igrejas são feitas de homens pecadores que precisam ouvir e conhecer a Palavra, e não serem castrados pelo velho deus da visão dos homens no Antigo Testamento. A Terra não é mais vazia como naquela época milhares de anos antes de Cristo, que Deus ordenou que o homem a povoasse e estendesse seus domínios. Hoje não há mais espaço para tanta gente, os desastres ambientais são provas disso, e o caos social, com milhões de crianças órfãs à espera de adoção, revelam que o mundo hoje é outro. É uma realidade diferente daquela época. Logo, ninguém está obrigado a casar e procriar. É uma opção única de cada ser humano constituir família. Seguindo essa linha, chegaremos às necessidades específicas de cada um. A natureza não é perfeita, ela é equilibrada. O homem pertence à essa natureza imperfeita, possui apenas o diferencial de ter o lado divino, a inteligência racional. No entanto essa inteligência racional não o obriga a ser perfeito emocionalmente e muito menos psicologicamente. A atração sexual é um instinto animalesco, embora no mundo animal o macho busque a fêmea e vice versa, existem aqueles que fogem à regra e copulam com aquele do mesmo sexo, vemos isso com frequência entre os cachorros. Alguns estudiosos afirmam que o homem é um animal com tendência bissexual, e que a hetero e a homossexualidade é algo que vai se afirmar durante a infância, diante do convívio familiar, do aprendizado e das circunstâncias. E é neste ponto que surge a confusão; se a lei universal é amar ao próximo seja ele quem for, por que a sociedade considera homossexualidade apenas uma relação afetiva entre duas pessoas do mesmo sexo? Quem prova que uma relação afetiva resulta necessariamente numa futura relação sexual? Isto pode ser inveja ou dor de cotovelo! Se um rapaz e uma garota são amigos, as más línguas dizem que podem estar transando. Se dois rapazes ou duas garotas estão sempre juntos, podem também estar transando! Maldita a língua do homem! Malditos os olhos que veem maldade em tudo! Por outro lado, que maldade há em “transar” se ambos estão de pleno acordo? Ora, o crime é forçar alguém a ter relações sexuais. Isto é estupro, e estupro é crime. Ninguém pode também obrigar fulano a te amar, a casar. O amor é livre, espontâneo. E também indecifrável. Nenhum cientista pode desvendar o mistério que leva uma pessoa a amar outra. Explicar atração sexual é simples, pois o sexo vicia, como o cigarro, como a bebida...já o amor não vicia. Se alguém falar que é viciado em amor, está se confundindo. Não é amor, é obsessão. Aqui então entra a babel das identidades sexuais. Atração por sexo ou pela pessoa, pelo caráter e personalidade? Você pode ser “dependente” de uma companhia do mesmo sexo que de alguma forma te completará, não necessariamente numa relação sexual. A atuação dos seres humanos homem / mulher vai muito mais além do que o sexo. A beleza masculina e feminina não se resume somente ao sexo. Portanto, explicar uma atração apenas pelo fator sexo, é uma explicação simplista, pobre. O que une seres humanos em relações homo ou hetero, é algo muito mais complexo; e quanto mais o ser humano progride culturalmente e espiritualmente, mais complexo fica. Lamentavelmente, o progresso cultural e de qualidade de vida não livra o ser humano da maior das doenças: a inveja. A homofobia está de uma forma ou de outra associada à inveja. As pessoas não gostam de ver o “diferente” sendo feliz, amando e se dando bem à sua maneira. Existem pessoas que não gostam de ver a felicidade do outro porque estas pessoas, no fundo, tem o desejo de fazer aquilo mas jamais tiveram coragem para experimentar. A castração de um sentimento, um desejo, uma atitude, provoca ira. Provoca a condenação bruta do outro. Esta pessoa gostaria de estar no lugar do outro mas não admite. É um sentimento semelhante ao que faz pobres e ricos se criticarem mutuamente. O pobre inveja o excesso de bens materiais dos ricos, e os ricos invejam a liberdade do pobre, que circula por onde quer sem o medo dos ricos. Na incapacidade de pensar em soluções, é mais fácil atacar. Dentre minhas amizades, presenciei muitos fatos, muitas cenas que fariam os hipócritas enfiarem o rabinho no meio das pernas e sair de mansinho. Colegas evangélicos, que criticaram (e criticam) a homossexualidade (ou homoafetividade), beberam da água. E alguns repetiram. Colegas noivos, casados. Não, não admitem serem homossexuais porque apenas “experimentaram” o fruto. Da mesma forma que experimentaram maconha, cocaína, etc. Faz parte da liberdade. Faz parte da essência masculina, o homem, que sempre se colocou como deus, acima do sexo feminino, o sexo historicamente submisso. Hoje não é bem assim, e vemos as mulheres dominando muitos segmentos, além do crescimento delas no próprio mundo homossexual / homoafetivo. A realidade é “cruel”, “baby”. Lembro-me da mãe de um colega, que desconfiou do colega dele e, para desmanchar aquela imagem feita pela mulher, meu colega sugeriu que o colega dele arrumasse uma amiga para apresentar como namorada. E assim fizeram. A mulher, depois que viu o cara com a “namorada”, não desconfiou mais dele. Incrível como pessoas preconceituosas vivem no reino da fantasia! São as primeiras a atacar, consequentemente as primeiras a levar uma bofetada da vida. Pensam que são muito espertas, são no fundo trouxas. Outro dia, ao passar de carro numa rua central, vi nada menos que um ex-professor, muito bom da boca, nariz empinado e muito bem casado, chavecando um travesti.

     “Maldito o homem que confia no homem” – assim dizem os religiosos. Se não adianta confiar, adianta vigiar? Prender? Não, não adianta nada. O negócio é entender que os seres humanos são livres, curiosos e caem em qualquer tentação. O que superou as tentações é um forte, mas ainda não é vencedor, pois na vida não se supera apenas as tentações. É preciso superar o sentimento de inveja, os preconceitos. É preciso aceitar que a natureza não é perfeita e os diferentes possuem o mesmo espaço para coabitar. O mundo não é da forma que você quer, é aquilo que a sociedade faz. Você faz parte dessa sociedade, e é dialogando com ela que teremos um mundo melhor. É conhecendo as diferenças, e não combatendo sem ao menos saber as raízes daquilo, que haverá entendimento. Lembre-se das palavras ditas por muitos: “você acha que acontece só com os outros, nunca com você...mas quando acontece com você, aí fica o choque, pois não estava preparado”.

     Em suma, a questão da homossexualidade é uma tempestade em copo d’água.  Enquanto igrejas, bancadas evangélicas ficam discutindo união civil, o bonde da história passa, pois independente de leis, conceitos e valores morais, o ser humano depende da afetividade de seu semelhante, e isso ele vai buscar durante toda sua vida. Ele vai se juntar àquele que lhe compreenda e preencha o espaço vazio. Homoafetividade é uma coisa, promiscuidade é totalmente diferente. Eu particularmente sou contra promiscuidade, seja tanto numa relação homossexual quanto heterossexual. Sou a favor do amor e do companheirismo, sou a favor daquele que busca no outro, aquilo que preenche, complementa. E isso é tão difícil quanto encontrar uma agulha num palheiro, pois as pessoas estão buscando diversão, aventura e interesses materiais. O ser humano está corrompido, e diante de toda essa perversão de caráter, muitos simplesmente se entregam. Entregam-se ao acaso, à ilusão da promiscuidade. O prazer momentâneo engana o trauma, a revolta. Por isso, seja autêntico. Não engane a sociedade nem a si mesmo.

 

 

 

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