Boa noite!

IMACULADA CONCEIÇÃO DA CONVENIÊN

IMACULADA CONCEIÇÃO DA CONVENIÊNCIA

 

 

     O título não é nenhuma “blasfêmia”. Quero apenas deixar bem registrado o momento que vivemos: o da conveniência.

     Foi-se a época das mães que davam a vida pelos seus filhos. Não generalizo, existem mães exemplares. Porém é perceptível o aumento dos casos de mães que utilizam a gestação com a finalidade de “viver de pensão”, segurar fulano ou sicrano, e o pior: mães que jogam a criança no lixo.

     O assunto é extenso e podem ser desenvolvidos vários temas, neste vou focar num caso próximo e que também revela uma prática crescente em todos os setores sociais; a conveniência em se passar por ingênuo. “Eu não sabia!”

     Voltemos ao início da década de 80. A censura caía aos poucos no Brasil mas o sexo-tabu ainda existia em larga escala. Eu, adolescente, não tinha muita afinidade com os adolescentes da malandragem, andava mais com os comportados e “nerds” da época. Molecada de famílias conservadoras, classe média recatada. Consequentemente, aprendi tarde o que hoje crianças com seis anos sabem muito bem. Só fui entender como uma mulher engravida quando tinha doze anos de idade. Sexo oral, pasmem! Só fui saber quando já tinha mais de dezoito anos de idade. Aos quinze, conhecia por um nome vulgar, mas o nome correto só depois dos dezoito. E não era o único. Uma amiga de classe, em pleno colegial, cometeu uma gafe na classe, pois também não tinha noções dos sinais de uma gravidez. Isso no ano de 1987, quando a ditadura já havia acabado e a censura também. Foi no final da década de 80 que eu compreendi todo o mundo a minha volta, tanto que veio a inspiração para escrever Marvin, meu primeiro romance social. Mas ainda tinha muito o que aprender. Aos 23 anos de idade, quando desenvolvi a trama, ainda trazia reflexos da ingenuidade da adolescência. Por isso, quem leu esse primeiro Marvin, teve a impressão de ter sido escrito por um adolescente de 14 anos, ou seja, possui a realidade nua e crua, como qualquer adolescente dessa idade hoje joga na cara da sociedade, no entanto faltou a maturidade. Por isso, escrevi recentemente o Marvin II. Estória tão forte como Marvin I, porém madura, adulta.

     Por que falei tudo isto? Para reflexão sobre a rápida mudança nas últimas três décadas. Informação naquela época era mais restrita, fora do alcance da massa. Havia mais analfabetos, havia o tabu em cima do sexo, e havia sobretudo, o conceito do amor acima do sexo. Hoje ocorre o contrário, uma relação, bem ou mal feita, “prova” o que uma pessoa quer da outra. As informações, bem ou mal transmitidas, estão ao alcance de todos, inclusive dos que moram nas áreas rurais, analfabetos e moradores de rua. Todos conhecem as malandragens e suas consequências. Até a temida SIDA (AIDS) todos sabem muito bem como se prevenir. Quem não se previne, é porque não quer se prevenir. Quer correr os riscos.

     Na história da humanidade, o avanço do conhecimento, da cultura e da ciência, criou, inevitavelmente, os meios para esconder a verdade. A oratória intelectual para sair pela tangente. As leis foram criadas com brechas, que só os que estudaram conseguem penetrar por elas. Mas a marcha da evolução é tão rápida e abrangente que atualmente não é preciso ter estudo para maquiar as situações. Basta olhar atento, percepção e informação. E informação é que não falta.

     Eis onde queria chegar: ninguém pode alegar ingenuidade, inocência. Como uma jovem de 18, 20 anos pode afirmar que não sabia que estava grávida, aos sete meses? Conforme citei, se fosse nos anos 80, poderíamos acreditar, como no caso de minha amiga. Mas hoje, vinte anos depois, com o bombardeio de notícias pela televisão, jornais, revistas, internet...por menos cultura que a pessoa tenha, ela é ladina. Seja na pequena cidade do interior seja na metrópole. Imaculada Conceição, dogma da Igreja Católica. Não duvido que milagres possam ocorrer. Como não duvido de que exista, hoje, uma ou outra pessoa ingênua, que nunca conheceu a maldade. Meus personagens Evandro e Léo, do livro, são figuras raras. Deixo bem claro: raras. Tive minha fase de pessoa rara no final da década de 80, portanto, experiência própria. Hoje conheço de tudo, embora saiba identificar os sintomas de apenas algumas doenças, a maior parte eu desconheço. Como desconheço as técnicas do futebol, que a maioria conhece. Ninguém é obrigado e nem consegue conhecer de tudo. Agora, sexo...quem é que não sabe dos riscos de uma relação sem proteção, sem preservativo? Desconhecia os sintomas da gravidez? Não sentia a criança se mexer no ventre? Ingenuidade existe até um certo ponto. Passou desse ponto, ou é burrice ou malandragem, sendo que acredito sim é nesta última. A todo o momento aprendemos pela mídia as técnicas de sair pela tangente. Começando pelos políticos, flagrados e filmados em ato de corrupção. “As imagens não são nítidas... as provas são insuficientes...” Agora está na moda arrumar justificativas psicológicas “ele passava por um momento de estresse agudo... foi ingenuamente induzido ao erro... foi pressionado psicologicamente pela situação...” Quem tem dinheiro, facilmente compra laudos. Quem não tem, se vira nos argumentos, nas justificativas que aprende com o mundo. É fácil dizer que não sabia que estava grávida, como é fácil dizer que não sabia que estava praticando crime contra a economia popular ou contra o erário. As técnicas são tantas e absurdas, inventadas pelos homens públicos, que daqui a pouco iremos nos deparar com alguma moçoila dizendo que não sabia que havia perdido a virgindade. “Ave Maria!”

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