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OS INTELECTUAIS

OS INTELECTUAIS

 

      Por estar inserido no mundo literário, frequentemente me deparo com essa palavra; intelectual, intelectuais... mas conforme a ocasião, ela pode ter conotação positiva ou negativa.  Vejo os dois lados da moeda.  Como serve ao mundo este ou aquele intelectual? Da mesma forma que os não intelectuais servem ou não servem, existem os “intelectuais inúteis”. Aqueles que deixaram seus nomes gravados pelo peso do sobrenome da família ou da conta bancária. E nada de proveitoso para as gerações futuras. Afinal, a lei eterna é aprender, ensinar, aprender, ensinar.

     Dos sábios da antiguidade aos “nerds” de hoje, a história é cheia de exemplos positivos e negativos. Os mais velhos, sábios e experientes, foram os primeiros a se retirar quando Cristo disse “atire a primeira pedra aquele que não tiver pecado”. De lá para cá, quase nada mudou. As leis foram feitas para servir àqueles que têm dinheiro ou conhecimento pleno dela. As portas dos templos e dos partidos políticos se abrem aos donos da boa oratória, da força da palavra e do poder de dominar. Todos querem para si o geniozinho, a criança prodígio, super dotada. E na “volúpia” da possessão do “objeto de valor”, ignora-se que todo ser tem sua carência, seus pontos de fraqueza, dons e necessidades particulares. A criança é moldada de acordo com o interesse da sociedade que a cerca.  E ao invés de ser servidora do mundo, passa a ser serviçal de um grupo seleto. Chegamos então num ponto interessante; a sabedoria silvícola, em certos casos, é inofensiva, ao contrário da sabedoria do homem “civilizado”, que, apesar de todo avanço tecnológico e científico, não consegue deixar de ser destrutiva e sectarista.

     Costumo citar em meus livros que ninguém nasce ruim, com maldade; mas com pré disposição para isto ou aquilo. São o ambiente e as circunstâncias proporcionadas pela sociedade que vão direcionar a criança para este ou aquele lado.  Portanto, temos cada vez mais a inteligência e a sabedoria a serviço da vida e da morte. Intelectuais tentando “consertar” a sociedade e outros a serviço do crime (inclusive crimes do colarinho branco).

     No mundo todo, as pessoas costumam cultuar, idolatrar, cortejar seus intelectuais... intelectuais da música, da literatura... temos até os intelectuais da Bíblia. No Brasil o “assédio” é ainda maior. O sujeito não tem diploma nem competência, mas devido à boa oratória é conduzido ao altar, e lá, é chamado de “doutor”.  Por outro lado, tem oratória, diplomas, competência... parece a perfeição. Mas falta humildade (por mais alto que voe um pássaro, ele precisa baixar para comer).  São as “bestas intelectuais”. Por trás da aparência que impõe respeito, escondem a falsidade, a traição ou até uma psicopatia. São os donos da verdade, ditam “soluções” para tudo, mas não melhoram nada para as pessoas em volta, pelo contrário, buscam do bom e do melhor para si, mesmo que isso custe a vida alheia... é a lei do individualismo.  Neste caso, temos aqueles que conseguiram se instalar muito bem no podium e dificilmente são alcançados. E muitos morrem condecorados, com toda a pompa (e os segredos enterrados para sempre).

     Temos também a nova geração de intelectuais, aqueles que não tem tanto conhecimento, mas esperteza de sobra.  Buscam o caminho mais rápido para a ascensão profissional (hoje não faltam publicações do gênero – o “sucesso financeiro”). Afinal, para aprender a falar e influenciar pessoas não é necessário adquirir conhecimentos. Estes, são os pseudo intelectuais.  Gerenciam pequenos negócios (que costumam acabar tão rápido como começaram), outros se tornam executivos, adquirem permissão para treinar pessoas, fazer palestras ou dinâmicas de grupo, mas falam “para mim fazer”.

     E finalmente, temos os intelectuais carentes. São aqueles que cresceram numa redoma de vidro, cheios de teorias, mas carentes de experiência de vida. Nunca apanharam da vida, porém têm dores e angústias na vida afetiva, traumas não superados...

     O mundo intelectual é tão complexo como o dos não intelectuais, por outro lado é frio. O gelo das palavras que apunhalam, bombardeiam o tempo todo corações e mentes. Colunas em jornais, que produzem “ooohhhsss” dos leitores, mas não descruzam os braços desses mesmos leitores. Livros e mais livros, empoeirando nas bibliotecas e inacessíveis à maior parcela da população por burocracias e incompetências político-administrativas.  A pequena leitora, fã do escritor, que não consegue se comunicar com ele. Se porventura conseguisse, dificilmente o intercâmbio fluiria. Porque a maioria dos intelectuais vive num mundo diferente, que não permite essa sintonia. E é justamente por isso, que todo o romantismo, a beleza, a graça e a “perfeição” das palavras produzidas em livros, filmes, peças e todo tipo de trabalho intelectual, produz admiração, mas não produz ação. Não ajuda o mundo em nada apesar do bonde da evolução continuar seu trajeto, levando a minoria que consegue ler o destino e não cair dele. Sábios em milhares de templos, intelectuais do capital e do comunismo, heteros, homos, bi e pansexuais, líderes políticos, prêmios nobel, cientistas... ainda é pouco para um efeito transformador.  Talvez falte voltar nossos olhos para dentro de nós mesmos, mas com cuidado para não soltar o “ego cêntrico”. Voltar os olhos pra a sociedade, para o empreendedorismo social, para o cooperativismo, aceitando que somos parte dessa massa e que o meu bem estar e qualidade de vida dependem do bem estar e a qualidade de vida do meu vizinho.  Adquirir experiência, prática. Porque a teoria sem a prática é como a fé sem obras: morta. Uma não se complementa sem a outra. Quando isto acontecer, o intelectual começará a deixar de ser aquela figura antipática e sonhadora aos olhos do povo. Não que o povo esteja errado em julgar dessa forma os intelectuais. No que ajuda os jovens e adolescentes da periferia fazer trabalhos escolares sobre um romance ou poema sertanejo dos anos 40, 50? Para que entender “Os Lusíadas” se não conseguem entender o próprio meio em que vivem? Como pensar na revolução francesa se o pensamento está na boca de fumo? No pai desempregado? No tênis de 400 Reais? Numa revolução que nunca chega?

     A cultura e a história são fundamentais, como escritor, defendo plenamente a cultura. Mas antes, colocar a casa em ordem. A transformação é constante, a evolução não para. E o intelectualismo não pode estacionar numa época passada. Precisa ter os pés no chão, porque o futuro está nas mãos desta geração. A geração dos confrontos armados, que passam do mundo virtual para o real num piscar de olhos. Primeiro, entender a realidade do momento. Para conseguir estabelecer diálogo. Porque enquanto houver uma muralha separando os intelectuais do povo, os dois lados se distanciarão cada vez mais e ambos sairão perdendo. E ao contrário do que muitos justificam e querem, não são eles, os cidadãos de menor poder aquisitivo, que devem deixar suas “culturas marginais” para se tornarem “cidadãos civilizados”.

     A pesquisa sobre hábito da leitura está mostrando o que a criança, o adolescente e o jovem de hoje busca. Sim, muitos reconhecem a beleza de versos românticos, magistrais... mas não são esses versos que mostrarão o caminho a seguir nesta conturbada sociedade contemporânea. Precisamos primeiramente, de intelectuais teóricos e práticos, trazendo para debate as ideologias e os confrontos sociais urbanos. Qual o principal motivo dos escritores não estarem presentes nas escolas das grandes cidades hoje? Violência. Medo da violência, das gangues. Mas se não enfrentarmos isso, onde chegaremos?

     O primeiro passo é usar os mecanismos culturais de acordo com a realidade local. O aluno cuja família está desempregada e cheia de problemas, não encontrará solução na rima perfeita que fala da beleza da ave do paraíso, nem no Cântico dos Cânticos. Onde esse aluno encontra forças para prosseguir? Na letra do rap, do hip hop. Porque ele vive essa realidade, e para ele não interessa tampar o sol com a peneira, ouvindo coisas que só quem nasceu em berço de ouro tem tempo para admirar.  Primeiro ele precisa se livrar dos problemas familiares, e para isso, é necessário entrar em cena o empreendedorismo social, as políticas públicas verdadeiras, que cabe a quem tem a faca e o queijo nas mãos colocar em prática.

     Portanto, não defendo a tese de que cada um viva seu mundo separado, sua cultura separada já que “não há como entrar em sintonia”. Há um meio de entrar em sintonia, difícil, mas há, porque as culturas separadas a sociedade já não consegue sustentar, os confrontos violentos se acentuam gradativamente.

     Existem as rimas ordinárias, no funk, no pagode, mesmo no rap. Da mesma forma que já vi muito besteirol escrito por “intelectuais” das classes média e alta. O que proponho é a separação do joio e do trigo dos dois lados. E a aproximação, que deve vir de cima para baixo. Se dos dois lados há coisas boas, por que não a troca de experiência? É penetrando no mundo do outro que será encontrado o caminho para a questão da violência que assola a sociedade. A elite intelectual precisa descer do altar de vanglórias para sentar a mesa e dialogar com o povo, por mais difícil que isso seja. “Dos que mais tem, mais será cobrado”. Não é apenas uma passagem bíblica, é uma lei universal. A lei do retorno, da qual nenhuma criatura, independente da crença, escapa.

     O intelectualismo só será realmente útil, e deixará de ser hipócrita, quando admitir que a busca do equilíbrio não é utopia.

 

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