Boa noite!

MAIS UMA LIÇÃO QUE VEIO DO RIO D

MAIS UMA LIÇÃO QUE VEIO DO RIO DE JANEIRO

 

 

     Depois dos deslizamentos em Angra, Niterói e cidades serranas, o Rio de Janeiro volta à mídia com um bárbaro crime numa escola pública. Mais um golpe, uma dura lição no poder público, responsável pela segurança do cidadão.

     Segurança? A questão não é segurança, já disse em artigos e livros que é impossível implantar uma segurança “onipresente”. É uma luta sem fim contra práticas que tendem a aumentar infinitamente na sociedade mundial. Temos os exemplos dos terroristas, “homens-bomba”, que praticam o suicídio para matar os outros. Pessoas acima de qualquer suspeita podem praticar atentados contra multidões e a própria vida. Câmeras identificam o assassino...assassino que não será punido, pois “se mata”. Se a luta é para preservar vidas, o caminho não é esse. Nunca haverá um policial para cada cidadão. E policiais não sabem o que se passa na mente da pessoa que está ao lado.

     Dois artigos aqui escritos ilustram bem o caminho a seguir. Investir em profissionais que orientem famílias, estudantes, crianças. Precisamos investir em seres humanos, e não em armamento, câmeras, parafernálias que custam caro e servem apenas para identificar pessoas, não impedem mortes. Segurança pública e privada são itens importantes, remediam, mas não são a solução final. Ou pensamos como buscar a cura ou sucumbiremos aos remédios de efeitos parciais e temporários. A cura deve ser a meta. Um ser humano que consigamos curar é uma vitória. Pode representar vidas salvas.

     Culpar pais separados, doentes, desequilibrados, famílias desestruturadas, não tira a responsabilidade do Estado. Governos devem cuidar de seu povo. As divisões são suficientes, se ainda não são, que sejam criadas subprefeituras. Basta parar de roubar que dinheiro existe para investir em qualidade de vida, e um exemplo é Cingapura. Lá o governo interage juntamente da população, governa para servir o povo, e não o contrário.  De nada adianta obras faraônicas se a sociedade está doente de “cuca”, de caráter, de educação. Todas as cidades possuem secretarias de assistência social, assistências que seguem uma cartilha ultrapassada, cheia de vícios e egocêntricas. Digo egocêntricas porque não trabalham em conjunto com outros municípios. Por quê? Rixas partidárias. Não defendo a extinção dos partidos, nem a volta de “Arena” e MDB. Defendo o trabalho conjunto independente de legenda. Um trabalho social verdadeiro jamais será concretizado se não houver intercâmbio entre municípios. E tal trabalho, se tem como objetivo investir no equilíbrio social e psicológico do cidadão, precisa criar agentes profissionais em psicologia para atender as famílias, como existe em alguns municípios o médico da família. Precisa criar orientadores profissionais para atuarem nas escolas. Transformar as escolas em centros referenciais de atendimento às famílias do bairro. O caso do Wellington, o “franco atirador” da escola do Realengo, revela como a omissão partiu de todos os lados durante sua trajetória na infância, adolescência e juventude. A família tentou fazer algo por ele, mas não tinha suporte, orientação. A maioria aqui que está lendo este artigo, possui família e sabe bem como é. Predomina o clima de proteção aos seus, ainda que o perigo esteja presente. Políticos corruptos são protegidos por suas famílias. Alunos violentos são protegidos por suas famílias. Criminosos são protegidos por suas famílias. O próprio fato de esconder o problema significa proteção. Os errados estão sempre lá fora, nunca dentro da própria família. Os erros começam aí. Se a casa está em desordem, fica difícil querer fazer algo pelo próximo. “Cuide de sua família que eu cuido da minha” – é uma expressão muito comum. A sociedade não sabe equilibrar a relação. Não pode ser nem tanto a terra nem tanto ao mar. Uma sociedade individualista não é feliz, como não é possível ser feliz sem momentos de privacidade.

     É um contra-senso. Milhares de profissionais trabalhando - muitas vezes com apoio e incentivo dos governos - na produção de alimentos transgênicos, cujo objetivo maior é o lucro para os produtores e não combater a fome no mundo, e não termos profissionais suficientes e disponíveis para estudar e tratar os traumas sociais e familiares, as doenças mentais, a esquizofrenia, a psicopatia e problemas similares que de tempos em tempos resultam nisso que vimos recentemente.

     O poder público pode e deve investir nessa questão e em profissionais para atuar exatamente na raiz do problema. Como disse o psiquiatra forense Guido Palomba, as pessoas possuem pré-disposição para cometer tais atos, e são as circunstâncias que levam o indivíduo a ativar aquilo de pior que guarda. Eu acrescento: ninguém nasce ruim, mas distúrbios podem desencadear a ruindade, e principalmente a pré-disposição para uma personalidade “dura”, difícil, antissocial. Existem milhares de misantropos, que não sabem que são misantropos e desconhecem o próprio termo. É aqui que entra a responsabilidade familiar e política.

     Colocar um filho no mundo não deve ser fruto apenas de “vontade própria”, realização de um sonho. Criar nova vida vai muito mais além. Qual o propósito de se ter um filho? Na lei universal, gerar vida deve ser para servir ao mundo em que vai nascer. Todo pai, toda mãe deve ter em mente que está colocando um filho no mundo com uma missão. Esse filho tem uma missão. Servirá ao mundo com seu dom, o dom da voz, da escrita, do esporte, da medicina, da ciência... os pais descobrirão qual o dom do filho e o incentivarão; “faça o melhor para você e para o próximo”. Devido à cultura (incultura seria o termo apropriado), nosso povo não tem essa noção, por isso a consciência deve partir daqueles que são, visivelmente, manipuladores da sociedade: governos e igrejas. É inútil discutir se o filho de um estupro deve ou não ser abortado. Igrejas e governos devem chegar antes do problema, ou seja, cuidar das pessoas para que o “bicho” adormecido não acorde. Detectar e cuidar daqueles que pedem cuidados especiais. Isso ainda não acontece! Vemos diariamente aqueles que possuem privilégios físicos e intelectuais, maltratando os que têm alguma deficiência física ou intelectual. Maltratar pode ser de várias formas; desde o famigerado “boollyng” ao descaso, ignorar a amizade e o convívio. Repararam que as pessoas se afastam de uma criança que possui comportamento atípico? Deveriam sim se aproximar, para conhecer e auxiliar. Exatamente isso que ocorreu com o assassino da escola de Realengo. Seu comportamento diferente durante a infância não foi acompanhado por profissionais porque os profissionais estão em seus escritórios e clínicas, acessíveis àqueles que possuem condições financeiras de pagar por um tratamento. Cada dia que passa para uma criança que sofre com algum trauma ou distúrbio pode significar o crescimento de uma tragédia futura. O balde vai enchendo, até transbordar. E ninguém sabe o tamanho desse balde, nem onde ele vai transbordar.

     O poder público tem obrigação de recrutar profissionais para dar atenção, atendimento gratuito ao povo. Claro que o profissional precisa ser pago por seu trabalho, e deve e pode ser pago porque todo cidadão paga seus impostos. Dinheiro há, o que não há é transparência com o dinheiro público. E ao invés de gastar inventando tecnologia para tirar a privacidade do cidadão com câmeras que não trazem a segurança total, invista-se em profissionais da mente. Profissionais que orientem os adolescentes a formar família com responsabilidade. Profissionais que trabalhem na eliminação do preconceito, pois vítimas de preconceito tendem a “dar o troco” na sociedade mais cedo ou mais tarde. Não há como fugir. Ou governos e prefeituras admitem que não há outro caminho senão investir no social ou continuaremos a mercê de novos e piores crimes bárbaros. Transformar as escolas em “presídios” é paliativo e causa mais trauma aos alunos. Essa histeria por segurança vai destruir o que há de mais sagrado no ser humano, que é a paz interior. Vigilância traz uma paz aparente. Precisamos conhecer e ajudar o próximo. Se a sociedade capitalista (que se disfarça de democrática) diz que precisamos de clientes para termos nosso sustento, falta o principal: enxergar no próximo um irmão que precisa de nossa atenção, pois esta sociedade que fizemos é má e é ela mesma quem produz monstros; vários Wellingtons batem à nossa porta para comprar tênis, roupa, cigarros, bebidas...depois que vendemos e pegamos o nosso, damos as costas. Moral da história: os problemáticos nos são úteis enquanto consomem coisas para o corpo, mas quem se dispõe a oferecer-lhes alimento para a mente e a alma? Quando falo de mente e alma, não digo doutrina e placa de igreja. Se doutrina e placa de igreja resolvessem situações sociais, estaríamos já no paraíso, pois as igrejas, sejam católicas ou evangélicas, estão lotadas. Fanatismo também produz monstros. Quando não produzem monstros, produzem omissos.

     Não é hora para choro e lamentos. Passeatas, faixas pedindo paz despertam um pouco de consciência, mas não resolvem. O que resolve é agir. Percamos o medo de cobrar do poder público. Deixemos a sem-vergonhice do puxa-saquismo conveniente e cobremos de quem está lá, sejam parentes ou amigos. E o principal: cobremos de nós mesmos. Percamos o medo do feio, do esquisito, da “criança problema”. Se uma criança leva o trauma para a adolescência, pode-se considerar um caso perdido. Ensinem seus filhos a respeitarem os colegas de escola. Não fazerem tratamento diferenciado a ninguém. Não se pode julgar ninguém sem antes conhecer; e para conhecer, precisamos nos aproximar e dialogar. O diálogo é solução para tudo. Comecemos a agir já, antes que a próxima lição seja mais dura que essa.

 

Parceiros













Eu Apoio


Juliano Gaitero


Sebo O Barato da Cultura


Aloysio Roberto Letra
Escritor e Roteirista


Rock Nacional
e Internacional



Soul, Funk, Samba
Rock e Derivados


Em Defesa do Meio
Ambiente e Cidadania