Boa noite!

LUXO E LIXO

LUXO E LIXO

 

 

     Sou imprevisível, posso a qualquer hora estar num evento social ou político, cercado de personalidades ilustres, como numa casa de fliperama ou no meio de uma favela, rodeado de “manos” firmeza ou nem tanto “firmeza”. A flexibilidade é a característica marcante em mim, e isso assusta muitas pessoas. Assusta alguns pela coragem, e assusta outros que tem o rabo preso, porque quem possui essa flexibilidade, possui uma arma. A arma que faz enxergar em todas as direções.

     Cada lugar que apareço, é um aprendizado. Jamais encontrei um camarada que conhece tanto este estado paulista como eu. Depois de concluir os estudos, as estradas e as ruas são minha escola atual. Nelas, conheço mais o mundo e também a mim mesmo.

     É nas esquinas da vida que podemos encontrar a felicidade, a tormenta ou a morte. A velha canção da novela “O Bem Amado”, dos anos 70, registra bem essa realidade, que não pertence somente a mim, mas a todos nós: “logo o vento da noite vem lembrar, que a morte está sempre a esperar,em um canto qualquer desta vida, quer queira, quer não”. E o vento da noite pode penetrar pelas frestas. Em meu caso, não fico preso. Estou sempre ao relento. E ao relento de uma noite deste mês de abril, estava eu em um ponto de ônibus aqui em Jundiaí, simplesmente analisando, observando. Não ia embarcar, sou uma pessoa observadora. Saio de casa e paro num lugar para observar o céu, os contornos da cidade ou o comportamento das pessoas. Naquela noite, estava analisando as pessoas na fila. Ao meu lado, um cidadão de aproximadamente 40 anos de idade, lata de cerveja numa mão e cigarro na outra, conversava em alto e bom tom com um rapaz de uns vinte e poucos anos de idade. O assunto, reviraria o estômago da maioria da elite acadêmica, dos mestres da ética e dos bons costumes e sobretudo das baratas de sacristia, que pregam a caridade mas não sentam a mesa com o povo. Por longos quinze minutos na fila, o homem descreveu detalhe por detalhe a briga com um camarada do bairro que teve a petulância de dar-lhe um tapa, jogando o cachimbo (não de crack) que era para sua mãe pitar, ao chão. O incidente, corriqueiro nas esquinas da vida, quase que resultou num b.o. mais sério, como o cara dizia, poderia tê-lo mandado para o inferno. Enquanto o papo seguia morosamente, o cidadão, já nas alturas porque não era a primeira lata de cerveja, atirou a bituca ao chão (apesar da lixeira estar quase ao seu lado), e descreveu, através de gestos, como acertou o soco no estômago do outro. A via de fato resultou-lhe em prestação de serviço. Passou não sei quantas semanas limpando os vidros da prefeitura. “Uma humilhação” como ele classificou. Mas o que indignava o homem, era o fato do outro não ter reagido, ou seja, não deu continuidade a briga. Preferiu se afastar e registrar o boletim de ocorrência. “Pô, ele não era homem? Por que não veio me enfrentar, preferiu fazer b.o.?” – queixava-se. Depois veio a descrição da “novela” com os policiais. Mais uns cinco minutos de “dá cá toma lá” com palavras, ameaças e uns sopapos por resistência. “Só isso?” – dizia o valente cidadão, zombando da “porrada” recebida. O rapaz de vinte e poucos anos não se pronunciou, simplesmente ouvia atentamente o cara. Embarcaram no ônibus e sentaram juntos. Logo em seguida me retirei, e fiquei com a imagem daqueles dois na mente. Vivem a realidade corriqueira que estampa a coluna policial dos jornais diariamente. O problema social que o poder público diz simplesmente: “isso tem em todos os lugares”. O que eu posso fazer? O que você pode fazer? O homem embarcou com seu camaradinha para o bairro distante de onde eu moro, você mora. Por isso, se preocupar por quê? Deixa eles. “Que se matem”. A maioria que aqui está lendo, comunga com esse tipo de pensamento. Enquanto a realidade não bate à porta. O homem mora longe, mas um dia qualquer não poderá cruzar com você e provocar um estrago em sua família? De onde eram os jovens que mataram meu colega do Curso de Cinema na região dos jardins em São Paulo? Itaquera? Osasco? Poá? Ou poderiam ser até mesmo de um bairro nobre ali perto, como Vila Madalena ou Vila Olímpia. O crime pode se originar de qualquer classe social, e atingir pessoas de todas elas. O cidadão exaltado no ponto, talvez não tivesse nenhuma passagem na polícia. Talvez seja apenas um trabalhador, de caráter explosivo. Um cidadão dentro do que chamamos de situação de risco. Ele foi punido com serviço. E o que mais? Procuraram saber sobre sua vida, sua capacidade, o que precisa profissionalmente e espiritualmente? Punir e “largar” é muito simples, e não resolve. Seu diálogo pode ter sido um desabafo, junto da exaltação machista, comum entre os cidadãos oprimidos pela sociedade. Um diálogo “inútil” do ponto de vista culto. “Perda de tempo”. O cara, com sinais de embriaguez, num ponto de ônibus a noite rumo à um bairro periférico, fumando e bebendo, poderia ser classificado como “lixo”, escória da sociedade. E por muitos é assim mesmo classificado. Mas ele tem um nome. Nasceu, anjo, como todas as crianças são. Cresceu sabe-se lá como, e perdeu toda a bondade que existia dentro de si. Seu olhar denunciava que já não havia um pingo de bondade. Somente revolta, desejo de vingança. Seria pai? Como estão crescendo seus filhos?

     De um lado, o diálogo franco e revoltado... “inútil”. Do outro, palavras acadêmicas, belas... poemas encantadores e oratórias sábias, cheias de palavras “difíceis”, termos técnicos e rebuscados que parecem que vão consertar o mundo. Mas não melhoram em nada. São palavras tão inúteis como daquele diálogo. Porque muitos que estão envoltos nos debates de alto nível, não são francos. São falsos. Proferem oratórias deslumbrantes apenas para autopromoção, e não para servir ao mundo. É o lixo do luxo. Se a cena do ponto que descrevi é “um lixo”, demonstra que aqueles que assim julgam por estarem muito acima dessa realidade, escondem o lixo que produzem... e que no fundo são.

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