Boa noite!

AOS MESTRES COM CARINHO

AOS MESTRES COM CARINHO

 

     Ensinar é uma das atitudes mais nobres do ser humano. É na forma de ensinar que se conhece o quanto aquela pessoa é capaz de se doar ao próximo. No período em que estudei (anos 70 e 80), sentia em mim e nos demais colegas de classe que o mestre era como um segundo pai, uma segunda mãe. Sentimento que foi se dissipando conforme os anos passaram. No final da década de 80, greves revelavam a outra face da realidade educacional. As periferias inchadas, trouxeram uma nova realidade para nossas cidades, despreparadas para o choque cultural. E assim as escolas começaram a se tornar territórios de ninguém, campos de batalha entre diretores, professores e alunos. O que aconteceu? Se jogarmos a pergunta ao poder público, cada um dará resposta conforme lhe convém. Mas a tacada final sobrará adivinha para quem...isso mesmo, para os pais! “Educação vem do berço” – é o ditado popular que todo político adora, pois tira-lhes boa parte da responsabilidade na questão social.

     Há fundamento que educação vem do berço, mas de forma alguma isenta a responsabilidade do poder público. As famílias são o que um país é, e o país é aquilo que um governo faz ou deixa de fazer. Logo, a educação de uma família depende da educação que um governo transmite e proporciona. Cada família tem sua liberdade de escolha, mas ela sofre influências diretas e indiretas da sociedade, que é reflexo de um governo. Portanto, não há como “tirar o corpo fora”. O primeiro educador é o governo. O segundo é a família, e o terceiro a escola. “Capiche?” Quando o povo tiver consciência do poder que está dando a uma pessoa quando vota nela, irá pensar duas vezes durante a eleição. Um presidente, um governador, um prefeito, aplica o dinheiro público naquilo tudo que estamos “carecas” de saber; saúde, educação, etc, etc. A questão é como ele é aplicado e se foi realmente usado para esse fim, pois ele percorre um longo caminho até virar benefício palpável. É nesse trajeto que existem os desvios, a manipulação. Os prejudicados? O cidadão comum e os servidores que lidam diretamente com o povo, neste caso, os professores. Do professor é cobrado o máximo, como é cobrado do policial, do oficial de justiça. Governos não sentem na pele a vida destes, que precisam se virar para se proteger fisicamente e espiritualmente, precisam ser doutores em pedagogia para lidar com crianças, doutores em psicologia para lidar com jovens e adultos e doutores em uma matéria que ainda não existe, que ensine a lidar com os extremos das classes sociais, do mais pobre ao mais rico. Exige-se muito preparo e profissionalismo, que raramente chegam na qualidade de um bom curso. Como um governo pode preparar seus servidores se a maior parte do tempo é ocupado com articulações partidárias, interesses empresariais, lobbies e interesses particulares? A distância que separa o alto escalão de um governo do servidor primário, aquele que lida diretamente com o público, é enorme. O sistema hierárquico traz vícios históricos, de geração para geração. O juiz manda. Fulano é pobre e por isso necessita da justiça gratuita (o atestado de pobreza). Essa opressão legal cria o círculo vicioso, que forma uma longa corda que vai pesando cada vez mais conforme se distancia da elite. O oficial de justiça está nas ruas entregando as intimações (correndo riscos). O policial está nas ruas para fazer valer a ordem e dar segurança à população (correndo riscos). Na situação atual, o professor também está correndo riscos. Todos estes, pessimamente remunerados pela carga de estresse e riscos. Já os secretários da educação, os juízes e altos militares, todos recebem salários altos e gratificações. São muito bem pagos para fazer o que é óbvio, básico a qualquer comunidade. Onde está o conhecimento técnico para adequar os servidores à realidade de nossas cidades que está a todo momento mudando? Onde está a criatividade e a ousadia para curar os problemas que surgem ao invés de remediar eternamente? Escolas que fizeram projetos modelo, conseguiram com criatividade e atitude através de parceria com a comunidade ou organizações não governamentais. Conseguiram também estabelecendo diálogo e entendimento entre direção e professores, fato impossível quando uma escola é dirigida por pessoas que se colocam no altar da vanglória e fazem tratamento diferenciado aos subordinados.

     É de extrema importância que o povo, os pais de alunos, saibam que a boa ou má conduta de um professor, é reflexo de quem está acima dele. Da direção de uma escola, que por sua vez é reflexo de um governo municipal (se a escola é municipalizada) ou de um governo estadual (se é escola estadual). Problemas particulares, todos os professores tem, como qualquer outro servidor público. A escola ou o governo estão (parcialmente) isentos de culpa se o cidadão escolheu equivocadamente a profissão. Todos possuem o dom de ensinar o que sabem, mas o professor tem esse dom e mais um pouco. Se não tem esse mais um pouco, está na profissão errada. Tudo isso as pessoas precisam compreender antes de julgar. Antes de atirar pedras no professor ou na escola. Outra coisa importante, é que o servidor público precisa de muita cautela para cobrar. Exonerações e transferências são as armas que o poder maior utiliza como punição. O servidor está atrelado ao sistema político vigente. Por isso que os servidores que estão na última fileira (no contato com o povo) são os únicos que aparecem nas manifestações e greves. Conforme vai subindo os degraus dos cargos, as regalias vão surgindo e consequentemente as cobranças desaparecem. Até surgir a expressão “mudar para quê? Está muito bom assim”.

     Tudo isto que falei não fugiu ao tema “aos mestres com carinho”. Este artigo é uma reflexão sobre a realidade, os bastidores da vida dos professores e demais servidores públicos. Para todo leigo, é fácil cobrar daqueles que estão ao nosso alcance. O professor, o policial, o oficial de justiça...se a atitude destes não está de acordo, o problema está na cúpula, que inclusive, deve ter a competência de identificar aqueles que não se enquadram na profissão em questão.

     Retornando aos anos 70...tive a felicidade de aprender com professores que amam suas profissões e a matéria que lecionaram. O professor Celso Fonseca Jr. de português, escritor e amante da aviação. O professor Elvio Santiago, artista plástico e mais recentemente escritor, Marco Scarelli, também artista plástico. Todos estes professores quebravam a rotina em sala de aula, criando e promovendo a integração dos alunos. Nas aulas de português do professor Celso, os alunos podiam ler suas redações e a classe votava, escolhia a melhor. Na aula de educação artística do Elvio, os desenhos passavam de mão em mão para cada aluno avaliar e compreender o que o colega queria transmitir com aquele desenho. Destaco também o professor Bonilha, que por ser anterior à minha época, não tive aulas com ele, mas aprecio seu fruto, um livro com nome e fotos 3x4 de todos seus alunos. Esse livro é semelhante ao meu álbum de amigos, que também é confeccionado com fotos 3x4. O professor que teve o capricho de nomear o livro com o singelo título “Meus Alunos”, deixou mais que provado que exerceu sua profissão com amor e dedicação aos alunos como se fossem seus filhos.      A escola é um dos principais agentes transformadores da sociedade, que está sendo perdido não por culpa de “maus alunos”ou “maus professores”. A culpa está lá em cima, na negligência, na incompetência e na corrupção de quem elegemos, colocamos no poder. Mas ainda é possível mudar. Como? Informação e formação de grupos, organização de pessoas. A internet é uma arma perfeita para isto.

     Se a educação no país vai mal, é reflexo de governo. Um governo que teve bons professores mas traiu seu povo, pois foi bem tratado e não soube retribuir. Se os governos tivessem com os educadores a mesma dedicação que o professor Bonilha teve com seus alunos, com certeza esses professores refletiriam tal dedicação aos alunos. E governo que investe nos educadores, com certeza investe no social. Quem investe no social, não colhe tempestade. A tempestade que assola as escolas públicas (e as particulares também), é fruto da forma que o governo trata seu povo. Existem pessoas que, após ler este artigo, ainda vão insistir que a culpa é das famílias, e não do governo. Pois estou aberto para o diálogo. Se o povo não sabe votar, é porque está sendo influenciado por uma força manipuladora: meios de comunicações, hoje muitos estão nas mãos de grupos políticos. A soberania de um povo só ocorre quando se desgarra das forças manipuladoras. Quando está apto a separar o joio do trigo.

     Aos meus velhos mestres, educadores, meu respeito e carinho, pois aprendi a separar o joio do trigo. Fiz bom uso da arma que aprendi a manusear, ao contrário de muitos colegas de escola, que tiveram bons professores mas usaram a arma para prejudicar o próximo. Estes, poderiam também dizer “aos meus mestres, com carinho, oferecemos esta reforma social, séria e eficaz, que vai trabalhar o problema na raiz”. Se isso acontecesse, com certeza aqueles que foram seus professores se sentiriam extremamente honrados. Um ou os alunos que fizeram história. Fizeram história porque entenderam que não se conserta um país com mais policiais e mais penitenciárias, e sim com investimento na estrutura social, nas famílias.

     “Não adianta preparar o professor se o governo se omite na questão social”.

 

 

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