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MORRO DO BUMBA 2010

MORRO DO BUMBA 2010, NITERÓI, BRASIL: A TRAGÉDIA DESCRITA NO LIVRO MARVIN VIROU REALIDADE

 

     Em 1989, eu ainda não havia me formado em Meio Ambiente. Mas possuía visão ampla da realidade socioambiental das grandes cidades brasileiras. Por isso, retratei em meu primeiro grande livro – Marvin – o que é o morro coberto por barracos e o que aconteceria com o passar do tempo. A tragédia no fictício Morro do Cruzeiro sensibilizou leitores. Alguns acharam exagero. E outros ironizaram. O livro foi lido em todos os escalões sociais – do morador de rua a executivos. Jornalistas. Políticos. Professores. Lamentavelmente os que ocupam os degraus mais altos, ignoraram o recado, a mensagem do livro. 14 anos depois de lerem, viram a tragédia do Morro do Cruzeiro virar realidade. Quem tinha a faca e o queijo nas mãos, nada fez. O Brasil saiu de uma ditadura militar de direita em 1985. Desde então, diz-se que vivemos numa “social democracia”. São 25 anos de “social democracia” que pouco ou nada fez para mudar a realidade brasileira. O salário mínimo é um dos mais miseráveis do mundo, e não há reposição das perdas salariais dos aposentados, por isso fazem “caridades” como gratuidade em viagens de ônibus, desconto nos remédios, etc. As pessoas continuam migrando do interior do país, ainda dominado por uma política coronelista, para se estabelecerem nas capitais, onde consequentemente vão parar nos morros.

     Meu livro incomodou muita gente, sei disso. E de fato, não escrevo livros e similares para agradar a elite literária. Escrevo para acordar as pessoas, abrir os olhos dos que são cegos (ou se fazem de cegos) para a realidade. Escrevo para mobilizar multidões, fazer os políticos e religiosos hipócritas descruzarem os braços e fazer o que é dever e obrigação: salvar o planeta. E salvar o planeta não é apenas criar mecanismos de combate a poluição e ao desmatamento. É proporcionar qualidade de vida a todos (o que significa acabar com a miséria) e educar as classes média e alta, pois a pobreza é alimentada pela corrupção daqueles que tem “poder” nas mãos. Não adianta querer acabar com a pobreza se a sociedade não estiver preparada para administrar o dinheiro, os ricos continuarem consumindo drogas e sustentando o narcotráfico, as máfias e o crime organizado. Por isso é preciso educar (ou reeducar), inclusive espiritualmente essa classe social que se acha no direito de fazer o que bem entende. Enquanto houver alguém pensando “eu faço o que quero porque posso”, não adiantará querer educar e fazer pelas classes menos favorecidas. O exemplo precisa começar em cima. E para quem quer desafiar e insistir no erro, no fazer o que quer e que se dane o resto, que pese a força e o rigor de uma lei para tal fim. Não defendo ditadura, mas rigor e disciplina. Toda liberdade tem um limite. Liberdade sem limite alimenta o caos.

     Até a tragédia de Angra dos Reis e do Morro do Bumba, tivemos 25 anos de governos “democráticos”, administrações municipais e estaduais repletas de funcionários ditos competentes para atuar nas áreas de infraestrutura urbana. No entanto, condomínios e favelas surgiram em encostas de morros, topos de morros, margens de rios e córregos, áreas de mananciais...tudo em nome de um progresso destrutivo que encheu de dinheiro bolso de políticos, empresários do ramo imobiliário, de transportes e muitos outros. Uma minoria saiu ganhando em detrimento da maioria, em detrimento de uma CIDADE. Agora, para reverter a situação, o preço será alto. Em alguns casos, o processo já é irreversível.

     Quem leu Marvin, teve 14 anos para se mexer, fazer alguma coisa. Alguns leitores me relataram que o livro mudou a maneira deles pensarem, de enxergarem a sociedade, que a estória abriu novos horizontes. Mas não foi o suficiente para mobilizar associações de bairro, políticos e igrejas. As associações de bairro continuaram olhando para o próprio umbigo e não trabalharam em conjunto. Os políticos, as prefeituras...ah! Foram deixando acontecer porque estavam preocupados com a expansão de suas legendas partidárias. E os religiosos, batendo no peito como os donos da verdade, foram se envolvendo mais com a política e menos com a consciência cidadã e espiritual do rebanho. Tanto é que o Congresso em Brasília está dividido entre católicos, evangélicos, espíritas e maçons. Muita doutrina e ideologia em confronto e nada de ação social de efeito. Quando surge uma proposta firme, de transformação eficaz, é barrada pelos opositores. Ou é implicância partidária ou religiosa. Enquanto o político brasileiro não aprender a trabalhar pelo país de forma apartidária, nada mudará. A questão socioambiental deve estar acima de divisões partidárias ou doutrinárias.

     Foram vendidos mil exemplares de Marvin. Estão espalhados por aí. De vez em quando ouço comentários de lá ou de cá, elogios, críticas...a obra repercute. E mais ainda agora, que os donos da verdade – políticos e religiosos - que adoram falar bonito e esconder o preconceito, veem que as coisas estão acontecendo. Exatamente como escrevi a tragédia no Morro do Cruzeiro, foi no Morro do Bumba. Um deslizamento na mesma proporção. Nas palavras da personagem Lucy, as tragédias não atingiram apenas favelas, mas também condomínios da elite. Isto porque a força da grana dribla as leis, se não dribla, passa por cima através da compra de laudos, de técnicos.

     No verão de 2010, todos os acontecimentos no livro Marvin passaram da ficção para a realidade. Os governos municipais, estaduais e federal passaram pano quente, enrolaram, fizeram uma coisinha aqui e outra ali. Mas nada de atitude que representasse mudança nas legislações e na forma de se fazer política pública. Resultado: no verão de 2011 a tragédia foi bem pior.

     Quando escrevi Marvin, não era técnico ambiental, mas tinha visão de futuro. Eu falava, em artigos nos jornais, em meus jornais e livros. As pessoas me viam como pessimista, exagerado ou “ecochato”. Agora, se calam. Abaixam a cabeça quando me veem. Fogem de mim. Hipócritas. Omissos. Cada um paga pelo que faz. Infelizmente os inocentes também pagam pelos pecadores. O mundo é assim. Mas meu trabalho de alertar continua. Quem quiser, que me ouça e abrace os trabalhos que proponho, a mudança de mentalidade, mudança de hábitos. Abracem e ajam enquanto é tempo, porque todas as máscaras cairão, é só questão de tempo.

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