Boa noite!

A VIDA


A NOVELA DOS AMBULANTES

 

 

     “A princesa e o ambulante”. Não, não é nome de mais uma obra prima nacional no mundo literário ou do cinema. É fato. Pelos passeios públicos de nossas capitais uma nova geração de camelôs e outros vendedores autônomos exibem seus produtos e seus dotes físicos. Rostos joviais, olhar 43, penteados e cortes à moda “Neymar” ou qualquer outro astro da mídia. Braços e pernas malhados em casa ou no campinho da várzea, nada de academia. Nos pés, simulacros de marcas famosas, “tênis made in Paraguay”, imitação, mas que engana os leigos. No entanto alguém está ligando para imitações? Pirataria? Nenhum deles fica mais que cinco ou dez minutos sem vender algo. Nenhum deles fica sozinho nas poucas horas de descanso. É a nova geração, substituindo aquela velha figura do senhorzinho de rosto e boné surrados, pai de cinco, seis filhos. É esse novo rosto que marca uma “nova era” da realidade urbana brasileira, caso de ódio para o poder público e amor para muitas fêmeas, das margens sociais ao mundo da elite.
     Embora façam de conta que tudo está sob controle, os governantes vivem intensamente – e cada vez mais - o drama frente a questão da informalidade e o crescimento do comércio ambulante, fruto da pirataria internacional. Dos terminais de ônibus às praças, ruas e avenidas, a realidade social é “cabulosa”, “brutal”, como está nas letras de rap. Os fiscais ficam entre a cruz e a espada, pois são eles, como os oficiais de justiça, que vão ficar cara a cara com o cidadão que “deve” respeitar as leis. As ações repressivas mexem com a opinião pública: “ele é um trabalhador, pai de família”. Os próprios fiscais, como pude constatar conversando com um, reconhecem o embaraço da situação; “você está mexendo com o pobre”. Esse mesmo pobre que poderá dar o troco nas urnas. Nessa teia, entra em cena o famoso jogo de cintura. As ações isoladas aqui e acolá para mostrar serviço, serviços que não resolvem o problema em si, nem para os ambulantes nem para a sociedade.
     Se já não bastasse tudo isso, a fusão de realidades sociais tão distintas complica ainda mais a busca de soluções. Ontem, eram os senhores, humildes, semianalfabetos (quando não analfabetos), sem amigos ou parentes influentes. Hoje, a humildade é outra, aquela descrita nas letras de rap. Humildade no tratamento, mas aqui não tem ninguém besta. Tem sim costas-quentes. Desde o cidadão bem amparado por uma igreja evangélica aos autônomos amparados por um amigo de dentro do próprio mundo político ou a namorada (ou amásia) advogada. A realidade atual do mundo ambulante mudou rapidamente de dez anos para cá. Difícil dizer se o cidadão realmente está ali por necessidade ou conveniência. Difícil dizer se o mercado está apto a absorver essa mão de obra, já não tão inexperiente como a de dez, vinte anos atrás. A nova geração ambulante possui aparência, mente aberta para diálogo com gregos e troianos, noção de trabalho em equipe, quiçá até algum conhecimento em computador (quem é que nunca teve perfil no Orkut?) Talentos desconhecidos, largados, mão de obra desperdiçada por falta de políticas sociais associadas ao mercado. Quantos deles não poderiam produzir legalmente se o mercado fornecesse oficinas de trabalho, aprendizagem? Mas ainda assim, governos e empresários esbarrariam na ferida de nosso país: política salarial. Com um salário mínimo dos mais miseráveis do mundo, muitos e muitos descartariam o aprendizado no mercado de trabalho para continuar na informalidade, que em algumas áreas, rende bem mais que o salário mínimo.
     Devido a tudo isso que coloquei, e mais um pouco, ninguém se propõe a sentar e dialogar. A novela dos ambulantes continuará sem solução, e cada vez mais inserida no nosso cotidiano. Ninguém escapará deles.

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