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OS NOVOS CAMINHOS DO CRIME

OS NOVOS CAMINHOS DO CRIME

 

 

     De uns cinco anos para cá, alguns jornais, timidamente, noticiam a migração do crime organizado dos grandes centros urbanos para cidades pequenas e médias do interior. Enquanto sociólogos e outros profissionais buscam as raízes desse fenômeno, as autoridades “competentes” fogem do assunto, quando não dizem o óbvio.

     Para iniciar o assunto, deixo claro que o fenômeno é uma consequência direta da política. Calma, nada de conspirações de esquerda como alguns “doutores” gostam de pregar para induzir a população à ideologia “x”. Isso é grosseria. Se a lei natural é “cada um colhe o que planta”, nossas políticas públicas estão colhendo o que plantaram. A criação de regiões metropolitanas traz vantagens em termos de logística e padronização de serviços, mas ainda não traz soluções de caráter social. Se ela não traz tais soluções, ela produz exatamente o oposto: a fuga. Podemos entender melhor analisando o que ocorreu com Alphaville. Era o “paraíso” dentro da região metropolitana, pertinho da capital. A falta de critérios técnicos e a liberdade ampla, geral e irrestrita para o setor privado, levaram o “paraíso” a amargar os velhos problemas vividos na capital: insegurança, trânsito caótico, estresse. Como o erro começou lá atrás e por isso é complicado (e caro) consertar o estrago, é mais fácil fugir. Assim, pipocam condomínios nas bordas das regiões metropolitanas e cidades pequenas do interior. Como dinheiro atrai dinheiro, o crime organizado também deixa as grandes e visadas periferias metropolitanas para se instalar no interior. Por isso tenho colocado constantemente em meus artigos e informativos que “fugir” é ilusão. Precisamos encarar o problema, parar de fugir.

     Alguns leitores podem questionar: “o crime organizado não vinga no interior, pois nas cidades pequenas todos se conhecem”. Ora, se fosse “bola fora”, as quadrilhas não estariam se instalando e colhendo bons resultados. Estamos no século XXI, a mesma tecnologia e logística estão a disposição de todos. Inclusive a arma que abre todas as portas: o dinheiro. Enquanto o capital abunda nas grandes cidades para onde se dirigem os grandes empresários, boa parte das cidades pequenas “se viram” para gerar riqueza. Muitas ainda dependem de produção agrícola ultrapassada e do tímido comércio local. Na falta de ousadia do poder público para criar mecanismos de renda para a população (e a cidade), muitas vezes é mais cômodo abraçar circunstâncias e oportunidades obscuras. Até algum tempo atrás cheguei a presenciar a repressão, a linha dura no combate ao narcotráfico em algumas cidades pequenas. Mas os tais “acertos”flagrados nas grandes cidades e divulgados de forma insistente nos telejornais, fizeram escola pelo resto do país. A impunidade declarada estimulou as até então “corretas” autoridades dos cafundós de nossos estados. Se todo mundo sabe da vida de todo mundo, existe o temor pelo habitual regime disciplinar, vestígios da ditadura coronelista. Portanto, o buchicho é do “vizinho como eu”. Saindo desse meio, predomina a lei do silêncio, não vi, não sei. Se na favela é assim, no interior também é. Vai longe a época das cadeiras nas calçadas e reuniões de vizinhos nos bairros de cidades médias e pequenas. O tempo agora é outro. A nova geração quer adrenalina, e se a cidade não oferece, o jovem arruma um jeito, afinal, virtualmente ele vê de tudo o que os outros desfrutam e ele não tem acesso. Mais uma vez, a responsabilidade política. A tecnologia cresceu e ainda não é acessível a todos. Ideologia? Nada de ideologia. O que a nova geração quer é dinheiro. O sonho de consumo sempre apregoado pelos ditadores do mercado desregrado, voltou-se contra eles mesmos. É como se na ânsia pela perfeição do ciclo financeiro imbatível, tivesse produzido contra ele mesmo uma doença incurável. Isso tem nome: crime organizado. Se o mercado não permite acesso de todos aos prazeres da vida moderna, o sujeito vai buscar meios para gozar desses prazeres. E os meios são aqueles que estão ao seu alcance. A primeira oportunidade que bater à sua porta, ele abraça. Um exemplo paulista clássico; o rapaz trabalha na lavoura de uma cidadezinha e recebe um salário que não permite melhorar de vida. Se o consumo de drogas aumenta em sua cidade e ele é recrutado para trabalhar nos corres por ser esperto, acham que ele não vai abraçar? Agora sim, ele vai poder comprar o tênis de marca que via só nos pés dos filhos dos políticos de sua cidade. Poderá comprar o carro que todo santo dia vê nos comerciais da TV. Quem poderá mudar sua visão? Alguma igreja? As assistentes sociais? Lembrem-se que esta geração é outra. Não são os jovens da década de 70, “pacatos cidadãos idealizadores”. É uma geração que não engole sermões piegas nem repressão. Até a década de 80 ainda vingava o sermão “estude muito que você será um profissional de sucesso”. Claro, existe uma pequena parcela da população que vence com o suor do rosto. Mas precisa enfrentar uma concorrência completamente desleal. Os empregos arrumados por “cunha”. As portas que se abrem para os filhos dos amigos, dos parentes dos influentes. E até mesmo as falcatruas em concursos públicos, que por mais monitoramento que se faça, continuam ocorrendo. Se até multas à pessoas influentes são eliminadas (conforme matéria veiculada no programa Fantástico neste mês de março), vamos esperar honestidade onde? É revoltante, mas hoje o estudante honesto, que deseja ser um profissional competente, imparcial e correto, sente dúvidas quanto ao seu futuro. Ele termina a faculdade (sem colar) e vê colegas de sua idade já pilotando carros importados, com terreno comprado, construindo sua casa...graças a que? Ou conseguiu uma boca na política (cargo comissionado, etc.) ou foi adotado pelo crime organizado.

     Essa é a realidade nas grandes cidades e também no interior. Se a política é a mesma, os braços do crime não se estenderiam por quê? Surge até uma dúvida, seria mais conveniência a ida para as cidades menores ou uma forma de maquiar a realidade? A grande imprensa está nos grandes centros, desse modo é difícil escapar dela. É a grande mídia que faz a opinião pública. Quais foram os noticiários de maior impacto nos últimos anos? A pacificação das favelas cariocas, a queda nos números da criminalidade na zona sul da capital paulista...o que ocorreu? Alguma política pública acertada? Não, apenas transferência dos problemas para o interior. As grandes cidades possuem mais policiamento, melhor equipado e muito bem controlado pelo executivo, o que não ocorre no interior.

     Em suma, isto é resultado de uma forma errada de se fazer política pública, política essa cheia de vícios e que continua tratando o cidadão de forma diferenciada. Enquanto a política abre as portas para o cidadão que lhe é conveniente, o crime organizado, cada vez mais inteligente, ganha a simpatia daquele cidadão que trilhou o caminho mais difícil; o caminho da honestidade. Enquanto políticos escolhem incompetentes apenas por serem puxa-sacos e bons puxadores de votos, o crime escolhe universitários, competentes. Aos que não tem memória curta, o loirinho, lá da região central do país, que protagonizou cenas dignas de filme, sinalizou o que está por vir. Depois dele, veio outro, que colocou o governador numa situação embaraçosa, a atitude que ele tomasse, o comprometeria de um lado ou do outro. Por isso o criminoso morreu rapidinho, antes que virasse  “anti-herói” como o goiano. Não sei quem será o próximo. Mas uma coisa é certa; se nossos políticos não criarem juízo, ficará difícil acreditar que o Brasil possui um governo digno de ser respeitado (nas esferas federal, estaduais e municipais).

 

 

O QUE FAZER?

 

     Como o diálogo com prefeituras e demais poderes é complicado (apesar de vivermos num regime chamado de democrático), a única solução é o cidadão se mobilizar em grupos com o propósito de ensinar cidadania, tomar atitudes que levem à qualidade de vida a todos, e não a grupos selecionados. Não adianta esperar o poder público resolver questões de nosso interesse, nós é que precisamos arregaçar as mangas, fazer valer o que está na Constituição.

     Lembrem-se: os braços das maiores organizações criminosas saíram das capitais e se espalharam. Foi o atestado de incompetência de nossas “autoridades”. Não podemos contar com grandes grupos direcionados por tais governantes. O que resta a fazer é um trabalho “formiguinha”, nos bairros, um acompanhamento corpo a corpo. Só assim será possível levar o diálogo aberto e franco aos adultos, que não conseguem mais compreender seus filhos, e principalmente às crianças e jovens, as maiores vítimas de todo esse processo.

 

 

 

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