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o papa É pop

Não há como negar que João Paulo II foi o papa mais popular da história. Conduziu a igreja católica nos anos críticos das transformações mundiais, sobretudo da geração virtual, onde a informação onipresente constrói ou destrói os alicerces de estruturas gigantescas. Conduziu também alguns avanços em termos de abertura (proximidade com o povo), diálogo e reconhecimentos oficiais que a igreja por séculos negou. No entanto, tais avanços pouco mudaram na maneira da maior igreja cristã lidar com as questões sociais e políticas a nível mundial, ou seja, muita teoria representando novas ideias e concepções, pouca prática. Diante disso, a igreja católica manteve-se estável diante da perda espetacular de pessoas para as denominações evangélicas. O que manteve o rebanho foi o esforço dos fiéis em educar seus filhos na igreja e a explosão carismática. A crítica conservadora calou-se diante da força dos carismáticos quando perceberam que, tal como o neo-pentecostalismo, as experiências de êxtase espiritual mostravam certo poder em arrebanhar ovelhas desgarradas e jovens e adolescentes em situação de risco. O próprio João Paulo II revelou-se líder carismático e apostou tudo nisso, diante da resistência de forças aliadas em mexer no que deveria ser mexido. Dessa forma, um dos pontífices que mais tempo ficou no trono, promoveu mudanças brandas, evitando polêmicas e conduzindo a igreja com extremo jogo de cintura.

A substituição pelo papa alemão oito anos atrás, agradou sobretudo os conservadores. No entanto, a distância da figura carismática e próxima como o anterior, já era sinal de que algo de impacto viria. A opinião pública mundial, diante dos escândalos de pedofilia, cobrava não apenas postura enérgica, mas de mudanças na instituição. Bento XVI não poderia usar o jogo de cintura até então feito, mas encarar a realidade social e espiritual do século XXI, fazer com que o poderio católico desse uma resposta a altura das necessidades materiais e espirituais que nossa época exige. A hipocrisia, palavra pesada usada pelo pontífice em seus últimos discursos, veio alertar o mundo sobre um dos males que contaminou todos os segmentos sociais, dos mais altos escalões de comando às camadas mais desfavorecidas. O "pano quente", os "cala-bocas", as saídas pela tangente, enfim, a hipocrisia pura para manter a aparência. Não há como separar a instituição religiosa da política neste instante. Nunca o Estado esteve tão envolvido com igrejas, de todas as denominações. Convém analisarmos alguns pontos polêmicos para compreendermos a mensagem deste artigo.

O ANTI-COMUNISMO

Quando as ideias marxistas ganharam o mundo, esse mundo já conhecia bem a história da igreja durante os séculos, a estreita relação com a aristocracia e as investidas junto aos colonialistas para catequizar os silvícolas. "Bíblia numa mão, arma na outra". Marx, independente de sua crença ou descrença pessoal, não pregava o ateísmo, e sim denunciava o uso que o poderio eclesiástico fazia com a Palavra, reproduzida por um dos raros pastores evangélicos de nossa atualidade que possui a coragem de expor a ferida: "a felicidade está no porvir". Portanto, a ideia de que o sofrimento e a pobreza são caminhos abertos para o céu, trazia muito mais que o conformismo, evitava a organização dos pobres para lutarem por seus direitos e as temidas revoluções. Ora, Cristo era um revolucionário, batia de frente com os reis da época, e sua pregação por uma sociedade igualitária e justa era o comunismo mais puro que poderia haver no mundo. Um comunismo que jamais foi estudado e levado a sério diante da continuidade do poder da aristocracia sobre a população planetária. Os ideais socialistas e comunistas que vieram durante os séculos ganharam os contornos característicos de uma sociedade em guerra permanente; pobres contra ricos e vice-versa. A aristocracia, que possuía todas as ferramentas de domínio das massas nas mãos, usou e abusou tanto da Palavra, interpretada e imposta de acordo com seu interesse, como virou o jogo bem à sua maneira: "as ideias revolucionárias são ateístas". Porém não levaram em conta que Marx tinha visão de futuro e previa o fim do capitalismo a longo prazo. Se os ideais comunistas não vingaram, é porque a evolução da raça humana não assimilaria uma sociedade justa como o comunismo cristão, nem na base cooperativista como os grandes nomes das revoluções comunistas-partidárias queriam. Por outro lado, os sistemas fechados e repressivos supostamente trajados de comunistas que vieram, como da Coreia do Norte, não representam em nada as verdadeiras bases comunistas, sejam da raíz da verdadeira palavra de Cristo, seja dos ideais marxistas. O comunismo-partidário ruiu dentro dele mesmo devido ao poder que corrói a mente dos líderes. Assim está ocorrendo com o sistema de mercados, com a falsa democracia instituída pelos governos de centro e direita.

A igreja católica, na metade do século XX, já estava se dividindo no acolhimento às famílias de classe média e alta, que insistiam nos ideais de domínio político, e as camadas desfavorecidas, que desejavam consumir tanto como as classes favorecidas. A explosão consumista, veiculada em jornais, revistas, rádio, televisão, e mais tarde na internet, exigiram não só da igreja católica, mas de todas as denominações, uma assistência espiritual e material que filósofos e teólogos jamais haviam estudado a fundo. Tanto que dos anos 90 para cá, vários profissionais se debruçaram sobre o assunto e lançaram no mercado editorial milhares de livros sobre o assunto. Já não havia como esconder a relação polêmica entre Estado e igreja. Representantes católicos e evangélicos começaram a abarrotar prefeituras e congresso, e pelos partidos escolhidos, ficava clara a posição ideológica desta e daquela igreja. As minorias católicas, representadas por grupos da Teologia da Libertação e pastorais ligadas aos camponeses, continuaram sufocadas pelos interesses econômicos dos grandes líderes que representam até hoje as igrejas, líderes que, justamente pelo poder econômico, possuem facilidade de locomoção e tempo para representarem tanto os interesses da igreja como seus interesses, em todos ou quase todos os bairros. No entanto, a própria crise do capital, promoveu reviravolta nos últimos dez anos. A nova geração da classe média abraçou os ideais revolucionários socialistas e a visão anti-comunista arraigada no clero ficou entre a cruz e a espada. O discurso anti-comunista passou a ser visto com gozação e deboche. Os conservadores, que embora derrotados, não desciam do salto alto, e ficaram para escanteio pelo grosso da nova geração. E o pior: passaram a ser vistos como hipócritas. Logo nos primeiros anos desta última década, percebi, nos artigos de padres e bispos, o tom mais moderado em relação a política: "não comungamos com o comunismo repressivo e nem com o capitalismo selvagem". E seguindo essa linha moderada, a igreja conseguiu pelo menos manter os fiéis que já estavam prestes a abandonar a fé na igreja de Pedro.

OS TEMAS POLÊMICOS

Aborto, casamento para padres, casamento entre pessoas do mesmo sexo, pena de morte e outras questões polêmicas, passaram a ser mais questionadas entre os membros de pastorais e grupos de jovens. Nos anos 90, os pais já não conseguiam esconder tais assuntos dos adolescentes, era preciso dialogar, e as respostas buscadas por esses pais na igreja precisavam colocar ponto final na questão. Mas ponto final sem deixar dúvidas. Tudo o que a igreja conseguiu nos últimos anos, foi colocar mais lenha na fogueira e levantar mais dúvidas. Sim, os temas polêmicos ainda rendem estudo. Inclusive devido a estreita relação com governos e políticos em geral, a igreja ficou numa saia justa. Políticos normalmente não seguem só uma denominação, e uma boa parte tem ligações com seitas ocultistas. Portanto, mais polêmica que tais questões em xeque, é a relação da igreja com os representantes do povo. Por exemplo, o número de homossexuais tem aumentado e isso significa votos. A pena de morte, diante da escalada galopante da violência, é defendida por milhões de católicos. Como manter o rebanho e a nova geração diante desse quadro de transformação social? Como lidar com essa questão dos homossexuais diante da revelação da existência de tantos padres homossexuais?

A NOVA ORDEM MUNDIAL

"Nova Era" ganhou espaço na mídia e a simpatia de milhões de pessoas na explosão literária de autoajuda na década de 90. Antes o assunto era mais restrito. E assim a famigerada NOM saiu do armário e conseguiu criar histeria coletiva, histeria que de certa forma acaba sendo positiva para ela. Independente de existir de fato ou ser apenas "fantasia, delírio coletivo", a NOM e os objetivos aquarianos tem sido alcançados sutilmente, sem pressa. Portanto, parte de tudo que é veiculado está ocorrendo, e o Vaticano não está alheio a essas transformações. Ingenuidade pensar que a maior igreja cristã revela tudo ao seu rebanho. Documentos secretos existem, tanto nos governos como nas maiores instituições religiosas e empresariais no planeta. Por que são secretos? Medo de conspiradores da oposição? Também. Mas o povo sempre estará na condição de povo, do último a saber. A questão que hoje rola nos altos bastidores é a seguinte: até quando manter sigilo? Não porque a evolução tecnológica está ao alcance de todos, mas porque o próprio ser humano evoluiu. A nova geração não aceita submissão, não aceita meias respostas. Se antes se escolhia a dedo as "crianças superdotadas" no meio de cem mil, hoje não é mais possível detectar onde estão.

Da mesma forma que a maçonaria sempre trabalhou sem atritos com a igreja católica, possíveis seitas como esta da "nova ordem" também ficam fora de polêmicas. Sair pela tangente diante do fiel seguidor sempre foi o ponto final na questão.

FINALMENTE, O SUCESSOR

Diante desse quadro exposto, Bento XVI, o então conservador, com certeza constatou que é chegada a hora de arregaçar as mangas, quiçá tirar as cartas escondidas. Suas atitudes discretas eram na verdade cautelosas, pois ele, o papa, tem um peso simbólico extremo, no entanto não é sozinho para promover mudanças. Tal como se fala dos testemunhas de Jeová, há um corpo governante. Não é um nome que dirige uma multidão, mas um corpo composto por vários membros. Se vários membros discordam do que a mão direita ou esquerda quer fazer, fica complicado. Portanto, uma atitude de renúncia pode ter vários motivos como provocar várias interpretações. Jânio Quadros renunciou, nem por isso seu prestígio diminuiu. No entanto, sabia muito, e levou tudo o que sabia para o túmulo. Renúncias podem revelar que o líder chegou num ponto de dois caminhos perigosos: ou um golpe para mandar definitivamente, inclusive no corpo governante, ou uma sentença de morte. Ou seja: agora é tudo ou nada. A terceira e única via é a renúncia. No caso do papado, as raras renúncias significaram grandes avisos, que nunca chegaram ao devido conhecimento do povo. Hoje, com o mundo todo conectado, sabemos que o papa conservador disse com todas as letras "mudanças", "reformas". Reformas que começaram lá atrás, com o 2º Concílio do Vaticano, mas muita coisa ficou somente no papel. O rebanho diz que foi uma atitude de coragem e humildade Bento XVI anunciar sua renúncia, para que um sucessor promova o que realmente é necessário. Mas não adianta o mundo aplaudir seu ato se o mundo continua alheio, assistindo de camarote aos acontecimentos. Vejo com bons olhos a nova geração, mas também vejo o perigo do extremismo e da autoafirmação. De um lado, uma minoria conservadora e que não enxerga o que está acontecendo dos lados. Do outro, uma geração plugada e antenada que se diverte com a adrenalina dos acontecimentos, sejam benéficos ou maléficos. O ponto de equilíbrio, que tanto falo, é para os fortes. Mas esses fortes onde estão? Eis o desafio para o novo papa. Lidar com as rápidas transformações e os extremos que estão se fortalecendo. O capitalismo agonizante, sendo ressuscitado pela suposta nova ordem, o comunismo, morto, sendo ressuscitado por boa parte das classes média e menos favorecidas. Como encontrar o caminho do meio? Como equilibrar espiritualidade com uma mídia onipresente que prega o consumismo como lei da sobrevivência? Como encarar 95% de igrejas evangélicas que seguem o caminho do culto da prosperidade (entenda-se "american way of life")...sem falar no caminho ocultista escancarado para as classes média e alta.

Talvez a frase de impacto proferida por Bento XVI seja mesmo esta: "chega de hipocrisia".

Se João Paulo II se tornou "pop" - popular pelo seu carisma, Bento XVI fez diferente. Tornou-se popular pela renúncia e a coragem de pedir nova postura para a maior igreja cristã do mundo.


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