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PERDOAR NOSSOS DEVEDORES

PERDOAR NOSSOS DEVEDORES?

 

 

     Está na mais popular das orações, “perdoar nossos devedores”. Nas orações mecânicas (e não nas meditadas), falamos sem noção do que isso representa. Falamos muitas coisas belas e praticamos tudo ao contrário. Mas quem parou alguma vez para refletir profundamente sobre isso? A sociedade vive julgando este e aquele pecador, principalmente aqueles que cometeram delitos e caíram nas garras da justiça (do homem). Ao mesmo tempo, essa mesma sociedade, quando pega no debate profundo, justifica que é impossível colocar em prática o que Cristo colocou. “O comunismo cristão é impraticável” – justificam. Ora, então por que a multiplicação de igrejas, por que todos possuem Bíblia em casa? Para que “perdemos tempo” indo à igreja se não há como colocar em prática o que está escrito?

     Tudo isso é mais complexo do que aparenta. Teólogos formulam explicações das mais simples às mais extravagantes, cada qual com sua verdade absoluta. Eu ficaria com um teólogo que trouxesse 50% de teoria e 50% de prática, e são raros os que aí se enquadram.

     Em primeiro lugar, qualquer estudioso das escrituras deve ser imparcial quanto à placa de igreja. Em segundo, não se forma teólogos que não tenham conhecimento de como funciona a sociedade na prática. As palavras de Cristo não passam e não passarão, porém a Palavra precisa ser adequada ao momento em que vivemos. E o momento que atravessamos é o de uma explosão do comércio da fé. E o pior; além do comércio, as sagradas escrituras viraram arma de estelionato. O exemplo vem do título deste artigo: “perdoar nossos devedores”.

     José Fulano da Silva, boa aparência, bem casado, enganou muita gente “simples” com sua formidável oratória. Fez fortuna à custa da boa fé pública. Foi descoberto, processado. Preso, “se converteu” ao Evangelho. Se diz arrependido e que não tem como pagar financeiramente pelos erros. “Implora” o perdão de suas dívidas. Não pode pagar àqueles que ficou devendo mas paga um bom advogado da igreja a qual se converteu, e que para todos os efeitos, se baseia na máxima bíblica “perdoa nossos devedores”.

     João Fulano da Silva, pouco estudo mas muito esperto, aplicou vários golpes quando menor de idade. Roubou muita gente, se fez de “amigo” para se apropriar de certos bens até se dar mal depois de completar 18 anos. Preso, “aceitou Jesus” dentro do sistema penitenciário. Cumpriu a pena mas não pode voltar à cidade ou ao bairro onde morava porque deve para muita gente. Deve mas não vai pagar, pois está “amparado” por sua igreja que diz às vítimas do João: “o cristão deve perdoar seus devedores”. “Pare de ficar cobrando, porque dinheiro não salva”. “Você é do mundo, converta-se e verá que Deus lhe dará tudo em dobro”.

     Isso já virou um círculo vicioso. As palavras bíblicas viraram armas de negócios do mundo. Assim como as leis possuem brechas, as palavras bíblicas são estudadas para formular interpretações que propiciem negócios, vantagens profissionais.

     Vamos estudar o caso: os pecadores devem ser perdoados? Sim, mas por que praticou o erro; foi consciente ou inconsciente? Para nós, homens, é dificílimo mergulhar na mente do outro para saber se o erro foi cometido de forma consciente ou inconsciente. Deus sabe, por isso a pessoa pagará por seu erro na medida em que foi cometido, se consciente ou inconsciente. É preciso sempre se lembrar da passagem que diz: “daqueles que mais tem, mais será cobrado, dos que menos tem, menos será cobrado”. Isso pode e deve ser aplicado na justiça do homem, no entanto é justamente o contrário, pois aqueles que mais tem, pagam os melhores advogados (até compram juízes) para se livrar da dívida. Nem por isso os que menos tem estão isentos da dívida. Pagarão conforme sua capacidade, sua realidade.  O que precisa ser abolida é a “fábrica do estelionato”. O sujeito comete vários crimes, fica devendo para várias pessoas e depois é abrigado por uma igreja que se compromete a preservá-lo das cobranças. Igrejas – que na verdade são “igrejas” que alimentam essa prática, não estão formando cristãos, e sim sem-vergonhas. Alimentam a sem-vergonhice. Eu, que circulo por todas as áreas sociais e estive por várias vezes visitando detentos, sei que 95% das conversões acontecem justamente por esse interesse. “Fulano saiu do sistema mas agora é irmão, aceitou Jesus”. Sim, quem sai do sistema merece uma chance, no mercado de trabalho e uma vida social normal como todos os demais. Sou totalmente contra o preconceito. Ex- presidiário merece uma vida normal e digna. Mas, se deve, por mais ou menos que seja, deve pagar a quem ficou devendo. Isso se chama justiça. Desde que um devedor não pagou porque os “ímpios” devem perdoar sua dívida, abriu precedentes para a sem-vergonhice, o estelionato. Assim, forma-se uma corrente que não tem fim: “Vou roubar o quanto puder, depois eu me converto porque as pessoas precisam cumprir o que está na Bíblia, perdoar os devedores”. Mais clareza que isso, impossível.

     Todo dia, em alguma cidade, acontecem mortes por dívidas. Dinheiro é a neurose da sociedade. Por isso, essa passagem do perdão das dívidas precisa ser praticada com muita cautela, analisado caso a caso. Chegar falando que é oito ou oitenta é fácil. Nada deve ser generalizado. Eu me considero cristão, por isso perdoo a dívida daqueles que tenho certeza que ficaram me devendo inconscientes do que praticaram. Já os que agiram conscientes do ato, não devo perdoar. Por quê? Para não alimentar a sem-vergonhice. Um cristão não pode alimentar a sem-vergonhice. Quem utiliza a Bíblia como arma para se livrar de erros cometidos intencionalmente, é o pior dos pecadores, juntamente com as igrejas coniventes. Pague a dívida e terá meu perdão. Quem não paga suas dívidas, cometerá outros atos safados, desta vez por debaixo dos panos para não queimar a imagem da “igreja” protetora.

     É preciso ficar claro que na sociedade moderna, todas as pessoas que agem corretamente, ou seja, são boas, são feitas de bobas. E a única forma de acabar com a pilantragem em cima de pessoas que são boas, é endurecendo. “Sou bom enquanto você é autêntico comigo; se me trair, pagará pela traição”. Não é questão de vingança, é questão de justiça. Cortar o mal pela raiz.

 

     COMO AS IGREJAS DEVEM REALIZAR O TRABALHO?

     Igreja que se preze, não deve pensar em conversão na base do benefício, da vantagem. Deve pensar na salvação da alma do indivíduo. Se leva em conta a salvação da alma, deve pagar na medida pelos seus atos. “Sairá do sistema para uma vida nova mas pagará a todos que ficou devendo, sejam de igreja x ou y”. Se a igreja induz o convertido a acertar só com aqueles que são da mesma denominação, a igreja está fazendo sectarismo e tratamento diferenciado. Apelando para o privilégio. Jesus não apelou para formar seguidores, pelo contrário; alertou que o caminho seria pedregoso, árduo. A recompensa estaria na pós-vida, e não na fortuna e ascensão social, como muitos por aqui prometem para aumentar o rebanho.

     Se eu devo, eu pago. Essa é a consciência que deve ser formada na mente de cada um.

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