Boa noite!

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A RESPONSABILIDADE DAS IGREJAS

 

     Há 30, 40 anos atrás, não era comum encontrar igrejas aqui e acolá. Famílias precisavam se locomover de carro ou de ônibus para ir à missa ou ao culto, normalmente uma vez por semana. Era praxe, fosse nas grandes cidades ou cidades pequenas.
     Entramos no século XXI com toda a tecnologia, o progresso e questões sociais não resolvidas. Qualquer político dirá que se trata do “preço do progresso”. Evidentemente que o número de igrejas se multiplicou, segundo alguns estudiosos, para atender o aumento da população urbana, já outros afirmam que abrir igreja é um bom negócio, basta ter conhecimento bíblico e boa oratória.
     Negócios a parte, a lição transmitida obrigatoriamente em toda igreja é a Palavra de Deus.
     Eis a questão: qual o peso da Palavra no século XXI? Quem fizer a retrospectiva, de forma totalmente imparcial, dos anos 70 para cá, irá refletir sobre o seguinte fato; as igrejas cresceram na mesma proporção da violência urbana. Alguém já irá gritar: “se não fossem as igrejas, a situação estaria muito pior!” Pois bem, poderia estar pior, mas não há motivos para festejos e rojões. É fácil apontar o dedo para a parcela que está fora das igrejas, se drogando e se prostituindo pelos cantos da cidade e dizer: “é a minoria que ainda não aceitou Jesus; sempre haverá aqueles que não aceitam... muitos são chamados, poucos são os escolhidos”.
     Arrumar argumentos sempre foi fácil, difícil é enxergar e admitir fatos. Todo o rebanho que lota as igrejas nos finais de semana e inclusive diariamente, está sujeito ao peso das leis dos homens. A lei divina é teoria, a lei do homem é prática. Sendo assim, perigosamente vivemos duas realidades distintas: no templo, momentos de êxtase, comunhão, estado alterado de consciência e até mesmo um suposto amor fraternal. Fora do templo, a dura realidade da sociedade, totalmente submissa à política, pois já vemos em alguns lugares fumaça de um judiciário que serve ao executivo. Hoje, não estamos exatamente sujeitos a lei, mas a um sistema político.
     Pela ordem de um planeta habitado por criaturas feitas à imagem e semelhança de um Deus, a sociedade deveria funcionar da seguinte forma: todas as autoridades que respondem por seus países, colocando em primeiro lugar a lei universal, que é a lei da vida. Primeiro essa lei, em segundo as leis dos homens. Partindo desse princípio, tudo começaria a se encaixar. As igrejas, como segundo poder mundial, deveriam atuar como fiscais do cumprimento dessa lei maior da parte dos governantes. Mas não fazem essa fiscalização, porque também os fiéis seguidores não possuem essa consciência. No decorrer das décadas, as igrejas se transformaram em “socorristas” das vítimas da sociedade. Na falta de políticas públicas voltadas para a educação, a profissionalização e a inclusão do cidadão na sociedade de direito, as igrejas entraram como socorro espiritual, o que não ajudou em nada. Não adianta fornecer socorro espiritual sem garantia dos direitos que todo cidadão deve ter, como moradia e educação de qualidade, profissionalização, emprego e segurança. É “estelionato espiritual” dizer que dar ofertas à igreja e ter fé no deus que ela apresenta vai garantir bom emprego, saúde na família e livrar seus filhos das drogas. É picaretagem apelar para a carência do povo e sua religiosidade primitiva impondo sermões que causam temor, do tipo “o mundo está a mercê das obras do mal, o demônio entra nos lares daqueles que não temem a Deus” ou “quem não está batizado em nossa igreja, não é homem e sim criatura, estando sujeita a todas as tentações mundanas”.
     Esses tipos de pregações favorecem duas grandes enfermidades sociais: o sectarismo e a espiritualidade ilusória. Sectarismo porque a forma que algumas igrejas atuam, induzindo seus membros a não participar de eventos sociais e culturais, não ler livros que não sejam da igreja e não ter amizade com pessoas de outras doutrinas, cria uma divisão que prejudica o exercício da cidadania no bairro, na cidade. Como colher assinaturas para um abaixoassinado para mudar determinada lei que está prejudicando o cidadão se fulano ou sicrano não quer assinar porque “sua igreja não se envolve com política”? Como garantir presença popular numa passeata ou numa sessão na câmara se determinada família considera política como algo descartável? Isso é a junção do sectarismo – igreja supõe união, sectarismo é o que separa – com a espiritualidade ilusória. Quando Jesus falou “meu reino não é deste mundo”, deixou claro que a sociedade estava fazendo tudo ao contrário do que Ele propôs. “Não é este o mundo que Deus quer”. No entanto, Jesus não se isolou, não formou nenhuma seita ou reduto seleto, de puritanos, escolhidos. Jesus andava em meio a pobres e ricos, cultos e incultos, crentes e não crentes. Se estudarmos sua vida de forma imparcial, entenderemos que tudo o que Ele colocava, era um chamado para a participação do povo em tudo o que envolvia a sociedade na época. Jesus era um cidadão participativo! Onde havia algo a fazer, Ele fazia para mostrar o que cada um deve fazer. Não adianta fé sem obras! Logo, o que faz uma igreja que não convoca seus membros para participar nas audiências públicas, assistir sessões na câmara, participar da sociedade amigos de bairro, estar presente na escola onde estudam os filhos, ler jornais, se informar, ler livros, adquirir cultura? Espiritualidade enganosa e sectarismo! Mercado da fé! O cidadão “se enche do Espírito Santo” durante o culto e depois volta para a realidade que nada faz para mudar, pois sua fé é narcisista, egocêntrica. Não é uma fé transformadora do meio em que ele vive. Chamar o vizinho para participar de sua igreja não é obra. Obra é lutar pelos direitos. Conquistar qualidade de vida para seu bairro, cultura e educação para as crianças. Obra é defender o meio ambiente, pois Deus criou tudo de acordo para termos água e alimento em abundância, e consequentemente saúde. Que adianta a igreja cheia durante o culto se todos jogam sacos de lixo no córrego que passa pelos fundos das residências? Se ninguém planta uma árvore na calçada ou na praça ou não se propõe a fazer uma horta comunitária num terreno público ou naqueles por onde passam as torres de transmissão de energia?
     Não adianta colaborar com a obra de sua igreja, ajudando a ampliá-la, pintar, fazer uma hortinha para os irmãos... a obra não deve ser sectária! Obra de Deus não está restrita a parede de igreja x ou y. Deus não está presente entre quatro paredes de denominação tal. O mundo é de Deus. Cristo falou que seu reino não é deste mundo devido ao que o homem fez do mundo. Deus vai preparar um lugar melhor, mas não sabemos que lugar é. Se não sabemos que lugar é (afinal o mistério da morte continuará sem ser desvendado), porque não fazemos o dever de casa? Por que não cuidar do mundo em que nascemos? Ora, se nascemos neste mundo, um propósito há. Quem nasce no mundo e se isola, busca uma fuga numa seita (ou simulacro de igreja), não está fazendo o dever de todo ser vivo, que é servir. A igreja é feita por homens, se esses homens não agem, logicamente é uma igreja que não age como transformadora. É uma instituição que vive com o único objetivo de sustentar uma família ou algumas famílias em si; em outras palavras, querem sobreviver, e não transformar. A partir do momento que formarmos cidadãos transformadores, deixaremos de ser seres que lutam apenas para sobreviver, como os animais da selva.
     Não vou entrar na questão religião e política, que é assunto extenso e polêmico. Só vou deixar claro que o pior analfabeto é o analfabeto político. Todo cidadão deve votar e analisar o currículo de cada candidato. Deve olhar para sua igreja sem aquela visão sentimentaloide ou interesseira. Igrejas são escolas de formação espiritual, e não se faz formação espiritual ignorando formação cidadã. As duas coisas devem ser aprendidas conjuntamente, pois uma não se completa sem a outra. Se sua igreja não permite que membros se candidatem a cargo público, respeite-se, está no direito. Mas não possui o direito de pregar voto nulo ou em branco simplesmente para não dar voto a pessoas que não são da mesma doutrina. Por outro lado, se a igreja é bem representada na política, com pastores vereadores e deputados, não adianta só comparecer nas atividades cidadãs quando é interesse da igreja. A participação na vida social e política deve ser de consciência coletiva. Que tal convocar os membros da igreja para fazer uma limpeza na praça do bairro? Um mutirão de limpeza na serra para coletar material para reciclagem? Isso não é competência só de prefeituras. É competência de todos nós. Uma atividade desse porte é alimento para a alma, é amor pelo próximo, é botar a casa em ordem.
     Volto ao que coloquei lá no início. Chegamos ao século XXI com igrejas por todos os lados. Num só bairro, podemos contar cinco, seis, dez igrejas diferentes. Se cada uma dessas igrejas unisse seus membros para uma faxina no bairro, mudaria totalmente a cara do bairro! E as pessoas passariam a ver a igreja com outros olhos.
     O caminho que leva a Deus não é o mais prazeroso. Vejo em algumas igrejas, cultos quase que diários. Irmãos reunidos, tocando, cantando. O irmão que não trabalha, quase não para em casa. Onde está? Na igreja. Estudando com os irmãos, orando, cantando. É casa-igreja, igreja-casa. Parece não ver que a rua, o bairro e a cidade são complementos de sua moradia. O mundo em que nasceu, o planeta Terra, espera que uma semente germine a partir de sua existência. E semente para germinar não é somente colocar um filho no mundo. É fazer algo transformador, que seja exemplo para a sociedade. Esse é o caminho difícil e o verdadeiro caminho de Deus. Refugiar-se na igreja, com os irmãos que comungam com suas ideias, a “segurança” de estar entre quatro paredes, isso é fácil! Quem não gosta? Está longe dos “frutos estragados”, afastado da contaminação mundana. Que soldado de Cristo é esse? O verdadeiro soldado é aquele que faz brilhar uma luz na escuridão. “A grandeza de uma causa não é determinada pelo que seus seguidores ganham ao segui-la, mas pelo preço que estão dispostos a pagar por ela”.
     Igrejas são instituições privilegiadas, porque reúnem pessoas que não se conheciam, favorecem o círculo de amizades, conquistam a confiança do cidadão. Por tudo isso, podem fazer muito pela vida cidadã, que não pode ser separada da vida espiritual. Se o seu bairro está um “lixo”, a culpa não é só da prefeitura. É também dos moradores; moradores que sentam nos bancos de sua igreja e se ajoelham no chão ou nos genuflexórios, pedindo perdão a Deus e bênçãos para suas famílias. Aprendam a pedir bênçãos para o bairro, para o coletivo. Transformações não acontecem só a partir de pedidos, palavras, mas de ações concretas. Uma andorinha só não faz verão – diz sabiamente a letra de uma certa canção. Dê a mão para o irmão da igreja vizinha e faça acontecer o Reino de Deus que tanto falamos. Por que a cada dia nos deparamos com cenas terríveis de assaltos, crimes, tráfico disso e daquilo, estupros e outras coisas que todos estão carecas de saber? Porque não ousamos fazer coisas diferentes, criar. Além de nos prendermos a práticas mecânicas de culto, nos rendemos ao “conforto” da rotina. Os acontecimentos que alteram nossas vidas (para o bem ou para o mal), não estão presos a métodos. São coisas que estão em constante transformação. Por isso, aqueles que almejam uma vida espiritual verdadeira, querem ser salvos e entrar na glória, precisam ser soldados, transformadores, e não papagaios acomodados. O papagaio pode estar se sentindo seguro na gaiola, mas de uma hora para outra vira caça. Por isso, não esperem “milagres” do céu. Se nascemos, Deus nos deu a capacidade de transformarmos o meio em que vivemos. É responsabilidade das igrejas ajudarem seus “alunos” a descobrir as ferramentas transformadoras e a melhor forma de utilizá-las.
    

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