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A SÉTIMA ARTE E O DESTINO INCERTO DA SOCIEDADE

     A marcha da evolução prossegue e nada impede. O cinema, a sétima arte, evoluiu como tudo no mundo evolui. Mas a arte cinematográfica também foi vítima, como todas as demais formas de expressão artística, de algo que conduz a sociedade a um futuro preocupante: o individualismo.
Arenas e expressões teatrais, que uniam gregos e troianos, remontam a Idade Média. O mundo conseguiu se estabelecer em países definidos e - apesar dos conflitos isolados - acabar com a época das grandes guerras, graças a essa convivência tolerante entre povos que se encontram e se cruzam nas esquinas culturais e artísticas.
Quarenta anos atrás, professores levavam a classe ao cinema, que era apenas algumas quadras distante da escola. Eu mesmo participei desse evento cultural alternativo na quarta série primária. A professora Estella levou a classe ao cinema, o velho Ipiranga que se localizava na rua central de Jundiaí. Hoje os cinemas são em shoppings, normalmente localizados em avenidas perimetrais, de grande fluxo, com estacionamento cobrado. Shoppings estão “popularizados”, mas o povo se dirige ao centro das cidades, e eventualmente aos shoppings. “O artista deve ir onde o povo está”. E para ir onde o povo está, é necessário ter muito jogo de cintura.
A primeira e maior dificuldade, é a relação com o poder público. Poder público nada faz se atividade tal não reverter em possíveis votos. Logo, se a sociedade caminha para o individualismo, o poder público não tentará mudar essa realidade, ele “se moldará” a ela. É o caso por exemplo da segurança pública.
A segunda dificuldade é que a maioria dos artistas sobrevive de sua arte e não quer se envolver com política, mas inevitavelmente dependerá de patrocínios ou parcerias.
Do pequeno artista à poderosa sétima arte, que é uma indústria, existem quilômetros, no entanto as pedras no caminho são as mesmas. Todos estão sujeitos às variações comportamentais do ser humano, influenciado por ideologias, doutrinas e obsessões nascidas dentro da própria sociedade. A sétima arte goza do vasto campo de trabalho, das profundezas da mente humana aos confins do universo, seja na ficção ou com a última descoberta científica. Se pra lá de Tijuana a indústria goza de maiores benefícios pela apologia ao país que sempre quis ditar as ordens, não é o assunto deste artigo. A sétima arte corre o risco de perder o glamour que lhe é característico pelo rumo tomado pela humanidade; o individualismo.
O que é emoção para você? Assistir o jogo de futebol num estádio ou na televisão, em casa? Assistir a corrida de fórmula 1 no autódromo ou em casa? Talvez você admita que em casa não tem emoção mas tem segurança. É o ponto que pretendia chegar. Hoje se fala em “cinema em casa”, com a tecnologia dos televisores gigantescos de tela plana e a opção de possuir o som estereofônico. Para que sair de casa, “correr riscos”, pagar isso e aquilo se posso desfrutar do filme no conforto do lar, sozinho ou somente com as pessoas que acho conveniente? Talvez eu possa estar “exagerando”, já que a indústria do cinema tem seus macetes para garantir que a nova produção seja estreada nos cinemas, sem o risco de cópias num primeiro momento. Sendo assim, o cinema parece ter sua existência garantida por um bom tempo. Mas o cinema em si, aquele que reúne multidões numa sala, resistirá a essa mudança comportamental? Quem garante que daqui dez, vinte anos, aqueles que podem, não pagarão para ver o lançamento em seu cinema privado? Ora, no mundo capitalista a indústria não sairá perdendo de forma alguma, já as mudanças comportamentais são inevitáveis, mesmo que causem prejuízos ao convívio humano.
No país do futebol, os estádios continuam lotados. Apesar de todas as brigas e a violência de algumas torcidas organizadas mostradas incessantemente na mídia, nada aponta para um possível fim desses estádios. Já no caso do cinema, é possível visualizar alguma mudança num futuro próximo, pois muita coisa mudou de trinta, quarenta anos para cá. Onde estão os auto-cines – “drive ins?” Jundiaí teve um no final dos anos 70, durou pouco. Por que a maior cidade do país, São Paulo, perdeu todos os cinemas de rua e o único sobrevivente, o Belas Artes, lutava até este ano para não fechar as portas? Que poder “invisível” é esse que obrigou uma das mais belas artes da humanidade a curvar-se primeiramente aos espaços seletos e corre risco iminente de ficar cada vez mais restrita a espaços menores?
Se o avanço da tecnologia favorece o individualismo, não é culpa exatamente da tecnologia em si, mas a forma que o homem utiliza a tecnologia. As produções artísticas sempre carregarão mais tecnologia, depende posteriormente do uso, da aplicação. Sobretudo, da cabeça do homem. O caso do cinema pode ser comparado ao da fotografia: as câmeras analógicas foram superadas, hoje se fotografa “infinitamente” (até o que não deveria ser fotografado). Facilmente se descarrega as fotos no computador e a família toda aprecia. Jogando na internet, “maravilha”, todo mundo vê. Mas não passa de uma imagem virtual, que pode ser deletada num clique. A obra, com validade de coleção, só existe se for revelada, no papel. “Coleção digital” ainda é coisa embrionária, duvidosa. Na questão de “ser ou não ser”, o mundo virtual só é seguro com uma biblioteca real, palpável... e vice-versa. Todo o acervo de uma biblioteca ou um sebo pode estar digitalizado, o que não retira a importância da biblioteca ou do sebo continuar existindo! Assim é o cinema. O tal do “cinema em casa” jamais terá o charme, o glamour de uma sala lotada, com cem, duzentas pessoas. A emoção de meia dúzia em casa não pode ser comparada a emoção de uma gigantesca plateia, composta por uma incrível diversidade de mentes. Por isso, é fundamental que o cinema continue existindo como sempre foi, por mais que a tecnologia avance. E vou além. Todas as pessoas envolvidas com a sétima e as demais artes, devem lutar para a volta do cinema às vias públicas. A retirada dos cinemas das ruas foi uma prova de que o poder público não teve capacidade de enfrentar a decadência das áreas centrais, “deixou acontecer” pela pressão do mercado privado e da própria falta de políticas sociais. Se uma cidade não se sente segura transitando pelo próprio centro, que competência tem essas pessoas à frente de uma prefeitura, um governo? Talvez seja também falta de cultura, espírito artístico. O artista de verdade torna-se imortal. Passam gerações e sua obra continua encantando corações e mentes. Enquanto políticos só são lembrados em nomes de ruas, avenidas e rodovias localizadas, o mundo jamais esquecerá o que produziu Glauber Rocha, Quentin Tarantino, Federico Fellini, Truffaut, Scorsese, Sergei Eisenstein, Copolla, Chaplin...
Que venha a tecnologia do 3D e tudo mais. Mas não devemos deixar morrer o charme do verdadeiro cinema, que é aquele que reúne multidões nas salas, acessíveis a todo tipo de público. De nada adiantará assistirmos obras de arte se continuarmos perdendo aquilo que o ser humano tem de mais precioso, que é o espírito de convivência.

 


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