Boa noite!

SÃO PAULO

SÃO PAULO, TERRA DE TODOS E DE NINGUÉM

 

 

     Conheço a capital paulista desde criança. Considero como minha segunda cidade. Aprendi a entendê-la e amá-la apesar de todos os pesares. Muitos paulistanos amam e defendem com unhas e dentes a sua cidade. Para outros, é caso de amor e mágoa, pois ódio seria o ponto extremo, traumático. E é este o debate proposto neste artigo. Quem ama, defende. Mas basta apenas defender com palavras? O que o cidadão que não gosta de ouvir críticas faz para melhorar sua cidade?

     Levanto a questão após passar com minha pesquisa sobre hábito de leitura em alguns bairros da capital.

     São Paulo é cidade de extremos. Amor, ódio, liberdade, encarceramento, coragem, medo, vida, morte, sucesso, miséria. Em São Paulo com certeza você encontra “a metade da laranja”, mas também pode encontrar o inimigo até então oculto. Muitos encontraram o emprego ideal, outros foram parar debaixo da ponte. São Paulo é um jogo, ou se ganha ou se perde. E nesse jogo, todos arriscam. Continuar ou mudar, ambas possíveis somente com muita coragem.

     A capital não possui segredos. Vigiada, falada e filmada de todos os ângulos, todo mundo sabe como é. Mas não custa colocar neste artigo minha experiência pessoal no corpo-a-corpo com o paulistano.

     Primeiro: o paulistano tradicional, conservador, está traumatizado. Bairro: Alto da Mooca. Primeira nota zero da pesquisa. Perdeu até para o Jardim Brasil de Jundiaí, que recebeu nota 1. O curioso é que o Jardim Brasil é um bairro nobre, essencialmente classe B. Alto da Mooca não é bairro nobre, é classe C e D. Um bairro tradicionalmente conhecido pelas famílias italianas “tutti buona gente”.

     O progresso custou caro, muito mais à capital que às cidades interioranas. Isso porque foi um progresso destrutivo. E toda a população ficou assistindo no camarote. Assistindo de braços cruzados e até aplaudindo. Ingenuamente, não se ligavam no que iria acontecer. Deu no que deu. Bairros traumatizados. Qualquer estranho é suspeito. As pessoas se trancam em casa e já não conhecem nem seus vizinhos. Se é ótimo para aquelas pessoas que detestam ser controladas por vizinhos “fuchiqueiros” , é péssimo para o exercício da cidadania. O individualismo produzido pelo medo e desconfiança de todos, inviabiliza a união em torno de um bem comum, coletivo. Como eu poderia apresentar meu manual de cidadania às pessoas que sequer atendiam ou viam o escritor como uma pessoa suspeita? Como diz o sábio ditado, o medo é uma das piores coisas que pode acontecer na vida de uma pessoa, porque na dúvida, joga fora uma oportunidade que jamais terá outra igual. Se existe associação de moradores no Alto da Mooca, já era. Pelo que vi e senti no bairro, é cada um por si. Já nas redondezas, Quarta Parada e Belenzinho, a realidade é semelhante. Foi possível conversar com alguns moradores, e confirmar que a região atualmente é assim mesmo. Muitas pessoas idosas, moradores antigos, pouco saem de casa, se encarceraram, com medo de assaltos e pedintes. Os adultos, revoltados, acabam maltratando qualquer estranho. Curiosamente, jovens, adolescentes e crianças (ainda) não demonstram essa conduta. A explicação pode estar no fato de se habituarem às circunstâncias atuais e saberem se defender, ao contrário dos adultos e idosos, que acham mais fácil fugir do que encarar os problemas.

     O trabalho a campo, como eu faço, é o caminho para aprender a identificar os problemas e saber se defender. Como pode alguém querer defender sua cidade, seu bairro, sentado diante do computador, escrevendo bonito para jornais ou preparando soluções miraculosas para levar à associação do bairro? O que produz a teoria sem a prática?

     Os bairros tradicionais de São Paulo acharam que o crescimento desordenado lá na periferia, no extremo da Zona Sul, não os incomodaria por causa da distância. Terrível engano. Uma cidade é toda interligada, e é justamente esse povo, da periferia, que não tem medo de andar para cá e para lá, que prova isso: a existência ou não de qualidade de vida de um bairro interfere no vizinho. Sem falar também que o crescimento desordenado na região das represas comprometeu a qualidade da água na cidade toda.

     Esse paulistano, que atendeu mal este escritor, tenta descontar nos outros a burrice e a omissão que ele mesmo produziu, para seu bairro, sua cidade. A gigante São Paulo precisa urgentemente de união. Precisa receber pessoas que trazem novas ideias e experiências, pessoas que não estejam presas iguais a esses moradores, pois duas pessoas no fundo do poço, nada podem fazer uma pela outra. Lamentavelmente, a pesquisa na capital pode ficar comprometida por esse trauma que o paulistano não consegue (e não quer) se libertar.

 

     O OUTRO LADO DA MOEDA

 

     Se esses bairros tradicionais se fecham em suas redomas de vidro, na periferia isso não acontece. Resolvi tirar a dúvida e o segundo teste na capital foi no bairro de Perus, extremo da Zona Norte. Confirmei o que suspeitava. 95% das pessoas contatadas responderam bem a pesquisa. Não são de fazer amizade, como é comum aqui no interior, mas atendem muito bem os estranhos.

 

     O EFEITO INTERIOR

 

     Paulistano age de um jeito em sua cidade, fora dela ele é outro. E isso ficou provado na pesquisa feita aqui em Jundiaí, na estação rodoviária, onde paulistanos em trânsito, moradores de bairros classe média e alta, responderam relativamente bem a pesquisa. Em Itupeva e Louveira, ex moradores da capital e outros em trânsito, também responderam bem a pesquisa, apesar de ser perceptível uma certa insegurança ou desconfiança no rosto destes.

 

     Chegando neste ponto, a pesquisa cumpre seu objetivo, de retratar o hábito de ler, a cultura e o meio social em que a pessoa vive. O ambiente influencia muito o modo de ser de cada um. O que falta é a pessoa se conscientizar de que ela é parte de um todo, e sendo parte do todo, ela pode tomar atitude para mudar o curso das coisas. São Paulo, terra de todos, pois todos se dirigem para ela em algum momento; mas é terra de ninguém, pois foi criado o cada um por si como um equivocado meio para se proteger.

     Enquanto as portas se fecharem, nada mudará.

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