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a teia da vida

A lentidão da justiça dos homens trouxe neste início de 2012 o "caso Eloá" de Santo André. Só agora definirão a pena do namorado assassino. Juntamente com esse caso, agora está em pauta também o caso do pai de Eloá, apontado como "policial justiceiro" e autor de assassinatos em sua terra natal. O homem, ao que tudo indica, tentava aqui em São Paulo passar uma borracha em seu passado e "recomeçar a vida". Jamais imaginaria que de repente, um assassino frequentasse sua casa e namorasse sua filha. E o passado volta, com um novo rosto. E embora um erro não justifique outro, o "justiceiro matador" recebe a pior das punições: ter sua filha assassinada.

A família evangélica com certeza conhece muitas passagens bíblicas, principalmente aquela que manda perdoar os devedores. Mas a Bíblia não deve ser levada ao pé da letra. Compreendê-la nas entrelinhas exige boa formação cultural e espiritual, algo que está longe da massa brasileira. A Palavra de Deus não diz abertamente, deixa indícios de que existe uma lei imutável no universo, que é a lei do retorno. Tudo o que se faz (ou deixa de fazer), reverte para a própria pessoa, só não sabemos o lugar e a hora. Tive uma experiência em 2010 onde senti na pele a manipulação religiosa para "perdoar" um erro cometido intencionalmente por determinada pessoa. Orações não apagam o passado, e tampouco mudam uma pessoa de má índole. O que reverte situações são atitudes, amargas mas necessárias.

A polêmica que fica neste caso é mais espiritual que social. Por que uma inocente pagou com a vida? Teria ela vindo ao mundo para que o pai pagasse pelos crimes cometidos? Isso rende um debate longo. Compreender a teia da vida (espiritual) é tão complexo como compreender a teia social, criada e alimentada pelo próprio homem. Por que um jovem de vinte e poucos anos, obsessivo (poderia ter a mesma obsessão por outra jovem que conhecesse fora dali), cruzou justamente com a família de Eloá? Quando começamos a encaixar as peças do quebra-cabeça, sem deixar que as emoções e os argumentos doutrinários entrem em cena, descobrimos algo que muita gente não aceita e é fato: por trás de toda tragédia, existe um motivo. Nada acontece por acaso. Não vou falar de "destino", coisa que cheira a esoterismo. Os fatos falam por si, e para compreendê-los é necessário aceitar verdades que as pessoas normalmente não aceitam ou escondem. Ora, o caso de Eloá, crime a princípio visto como passional (premeditado ou não, não vem ao caso agora), acontece em muitas famílias, inclusive famílias que "nada devem". Puro engano. Atire a primeira pedra aquele que não deve. E se realmente não deve, lembremos de outro integrante da teia espiritual: a provação.

A lei do retorno, juntamente com a provação, constitui a base das teias espirituais e sociais desde que o primeiro ser humano na face da terra usou o próximo para levar vantagem. Foi quebrado o ciclo natural. Animais matam para se alimentar, e não por prazer ou levar vantagem. Defendem seu território para garantir sua sobrevivência. Lá atrás, o homem descobriu que poderia escravizar desde que se colocasse como rei, sábio. E ao contrário dos animais, não defenderia aquilo que é seu e basta para levar sua vida; cada vez que adquirisse mais poder, poderia ter quantas propriedades quisesse, ainda que não as utilize. Isso soa simpático ao capitalismo? É o preço que pagamos pela insatisfação com a simplicidade. A morte ronda cada um de nós pelo excesso. Excesso de propriedades, excesso de moda, liberdade desenfreada. Eloá foi vítima do sistema, que começou lá atrás. Uma ciranda aparentemente irreversível. O pai deu seus pulos para se garantir, num lugar onde o coronelismo manda e desmanda. Lindemberg, motoboy, dava seus pulos para conquistar posses, objetivo da maioria esmagadora dos jovens. Dentre as posses, uma bela moça. Se não fosse dele, não seria de mais ninguém. Ele errou. Mas o que o levou a raciocinar dessa forma? Algo que invade a mente de milhares ou milhões de pessoas Brasil afora. Eis o ponto que chamo atenção. Esse crime passional não foi o primeiro e não foi o último. Ele reflete não apenas o desequilíbrio espiritual sobre a concepção de amor, mas o desequilíbrio social onde não habita o amor e o respeito pelo próximo, e que pode representar risco para sua vida e seus negócios. É a teia. É a corrente. Semelhante atrai semelhante. Pessoas más atraem pessoas más, boas atraem boas e más. É besteira esse negócio de "conversão". O tempo não apaga um erro cometido, a pessoa má pagará pelo erro, mesmo depois de "convertida". O pai de Eloá foi reconhecido no ato. Além de pagar com a própria carne, foi apedrejado pela opinião pública quando esta soube de seu passado. Não que isso justifique a atitude do jovem: "a maldade e o desequilíbrio de Lindemberg serviram para fazer justiça ao pai de Eloá". Nada disso. Na teia espiritual o raciocínio da justiça dos homens se perde, se confunde. A melhor pista para compreensão é aquilo que citei acima; a lei da atração. Lindemberg estava próximo, e a proximidade de um pólo negativo com outro resultou nisso. Outras famílias, "vítimas inocentes" de psicopatas, sequestradores, assaltantes, maníacos e irresponsáveis, questionam. "Não matei ninguém para merecer isso". Pode não ter matado com arma de fogo, mas matou com a omissão, a passividade diante de crimes políticos. Matou com o apoio político às pessoas erradas. Com a manipulação da opinião pública. Com a exploração de um funcionário. Até com o simples ato de deixar passar uma semente que poderia ter sido plantada. Às vezes pensamos que estamos levando uma vida correta quando não estamos. Por isso, antes de incriminar aquilo que está evidente, convém voltarmos os olhos para dentro de nós mesmos. Descobriremos que não somos assassinos como revelados nessa história de Santo André, mas somos omissos ou cooperadores – quiçá inconscientemente – de erros terríveis que alimentam essa teia nociva. Podemos esconder erros passados dos homens, mas da vida nada escondemos. E a vida está inserida nessa teia, que aproxima os perigosos dos perigosos, os mal-intencionados dos mal-intencionados, os desequilibrados dos desequilibrados. Conversão não passa borracha no passado de ninguém. Como a lei do retorno não falha, finalizo com a "bomba" para reflexão: por trás de toda tragédia existe um motivo. Difícil é descobri-lo e compreendê-lo.


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