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UMBANDA CONTEMPORÂNEA

UMBANDA CONTEMPORÂNEA

 

 

     Foi-se o tempo da “macumba”. A velha e pejorativa expressão sobrevive em pontos isolados da sociedade, alguns redutos evangélicos mais radicais ou que a utilizam como fórmula para causar temor. Em outros redutos, o termo é utilizado como deboche – “chuta que é macumba”. Por trás disso tudo existe o preconceito e a falta de conhecimento. Antes de seguir adiante, deixo claro que este artigo não é contra nem a favor da umbanda, é um artigo para retratar e esclarecer fatos.

     O termo “macumba” é usado de forma errada. O popular trabalho realizado nas encruzilhadas – diga-se de passagem – realizado por pessoas de vários credos e não apenas seguidores da umbanda, é despacho. Também pode ser denominado oferenda. Um ritual que remonta séculos na vida do ser humano, e não deveria causar estranheza.

A verdade é uma só: religiões, sejam quais forem, ensinam espiritualidade, e espiritualidade é uma arma que pode ser bem ou mal utilizada pelo homem. A diferença entre uma e outra, e que impressiona este ou aquele segmento social, é a forma de realizar o ritual. Gritos ou silêncio, choro verdadeiro ou choro fingido, entrar em transe ou estado alterado de consciência, falar em línguas ou pensar que está falando em línguas (mais um resultado do estado alterado de consciência), acender velas, oferecer comida ou o próprio sangue, tudo isso são coisas que caracterizam a variedade de rituais. Até lavagem cerebral se encaixa em determinados rituais.

     A Umbanda é religião nascida no Brasil, misto de rituais do candomblé com o catolicismo. Os negros trazidos da África para o trabalho escravo nas fazendas eram proibidos de praticar o candomblé. Então adotaram as imagens católicas para realizar seus cultos, daí nasceram as associações; o culto à Nossa Senhora é o culto à Yemanjá, à São Jorge é a Ogum, e assim por diante. Se o candomblé é um ritual de essência espírita, a umbanda traz essa essência acrescida das imagens de origem católica. O espiritismo de origem afro tem uma composição muito próxima, senão igual, dos cultos indígenas. Poderíamos dizer que é um espiritismo primário, ligado intimamente aos elementos naturais – terra, ar, fogo, água. É essa a diferença para o espiritismo kardecista, onde os elementos intelectuais, psíquicos, se sobrepõe aos elementos naturais, ou primários. No entanto, ambos vão se complementar para a realização do ser humano no mundo, embora o preconceito social afaste um do outro.

     Com o passar dos anos, todas as religiões sofrem mudanças, ainda que discretas. As mudanças podem ser superficiais ou profundas. E sem dúvida as mudanças mais notáveis tem sido no catolicismo e na umbanda. Na igreja católica, ainda que o culto às imagens prossiga normalmente, os templos modernos não ostentam o excesso de figuras e imagens como nos séculos passados. A sociedade mudou e a própria igreja reconhece; símbolos para causar temor não se encaixam na espiritualidade que o homem necessita. Na umbanda algo semelhante ocorre. Mas o que mais impressiona é que hoje a umbanda é uma religião que possui mais brancos do que negros. Em nosso país, se for feita uma pesquisa, poderá ser constatado que 50% ou mais das pessoas da raça negra estão nas igrejas evangélicas. A religião, praticamente restrita aos negros no século dezenove, hoje seus templos possuem maioria branca, em alguns chegando a quase 100% dos membros. A resposta está no caminhar da humanidade. Conforme o ser humano evolui naturalmente, vai em busca de conhecimento. Quer conhecer tudo o que existe em termos de matéria e espírito. Ainda que o preconceito e o medo façam parte da vida de muitas pessoas, boa parte, em algum momento de sua vida, buscará algo novo, respostas não encontradas no lugar onde estavam.

     A umbanda moderna, por sua essência ligada à natureza e ao espiritismo, caminhou para as veredas da magia. A magia, combatida a ferro e fogo pelos cristãos de séculos atrás, mostra hoje sua cara através das inúmeras seitas ocultistas e também da própria umbanda. Na verdade, a magia já estava dentro do candomblé e da umbanda, o que houve foi a reunião das práticas através de estudos técnicos e culturais, coisas atualmente muito mais fáceis de se fazer do que algum tempo atrás. O mundo globalizado e unido através dos velozes meios de comunicações propicia tanto os contatos como as viagens para realização de pesquisas. Como citei num outro artigo, hoje é até irônico falar em ocultismo, todas as informações estão ao alcance de qualquer pessoa disposta a conhecer isto ou aquilo.

     Se a voz do povo diz que Paulo Coelho é o mago do catolicismo, Rubens Saraceni é o mago da umbanda. Saraceni é um nome que já apareceu em minha pesquisa sobre hábito da leitura e seus livros já somam algumas dezenas de títulos, quase todos referentes à magia com base nos quatro elementos naturais e a umbanda. Não li seus livros porque tratam de estudos teológicos, que para compreender, como na maioria das igrejas cristãs, depende de cursos. De fato, quando se fala em curso de Teologia, vem à mente da maioria das pessoas igreja católica ou evangélica. Pois existe sim Teologia da umbanda. Umbandistas não podem ser chamados de macumbeiros ou sectaristas, pois a religião não está nas margens da sociedade. Se o espiritismo kardecista é também ciência, candomblé e umbanda são culturas, cultura de um povo. Teologia é estudo da espiritualidade que envolve Deus e o homem associado à natureza, pois sem os elementos do mundo, o homem não sobreviveria. E é dentro desses elementos que surgem os estudos que se enveredam por caminhos alternativos, atalhos e paragens desconhecidas. A magia por exemplo, sempre existiu e faz parte da natureza. O problema é como foi e vem sendo praticada. Sabe-se que o homem do século XXI, mais que nunca, está preso ao dinheiro, e em sua ânsia por ascensão social, é capaz de tudo. Nesse caso, a busca por conhecimento para alimentar a alma é substituída pelo apelo, interesse em manusear armas novas para se sobressair socialmente. Saraceni, assim como Paulo Coelho, é amado por alguns e odiado por outros. Independente de serem amados ou odiados, fazem literatura que impõe respeito, se assim não fosse, PC não estaria na ABL e Saraceni não teria hoje o maior acervo a respeito de magia contemporânea. Ambos falam sobre armas. E responsáveis que bem sabem ser, alertam seus leitores: “saibam como usar essas ferramentas, pois a lei do retorno é uma lei natural e infalível”. Se umbanda não é “macumba”, magia não é “bruxaria”. Afinal, ninguém chamaria os três reis magos de “bruxos”. Se os reis magos faziam o bem, tais ferramentas censuradas por décadas pela autoridade monopolista da velha igreja também podem fazer o bem. Depende do preparo. Depende da mais nobre atitude que o ser humano traz dentro de si mas nem sempre usa: fazer o bem ao próximo, seja ele quem for.

     Se o culto às imagens já não está dentro de muitos católicos de hoje, os rituais umbandistas também já não são os mesmos de outrora. A umbanda moderna condena o sacrifício de animais, e os despachos não são necessários. Tudo está na mente. A espiritualidade moderna, em muitas religiões cristãs, ensina o auto controle, como trabalhar a mente, o que é ótimo, pois o ser humano precisa se desapegar da matéria, posses. O porém é de que forma ele vai utilizar essa valiosa ferramenta.                      Como este artigo foi sobre a umbanda atual, finalizo com as palavras do mago da umbanda contemporânea: “não façam mau uso do poder adquirido, a lei do retorno não falha”.

    

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