Boa noite!

A VIDA

A VIDA, O XADREZ, A MORTE

 

 

     Quanto tempo pode levar uma jogada de xadrez? Armar as estratégias exige muito dos jogadores. Mas desviemos os olhos para o xadrez da vida. Quanto tempo levamos para compreender as situações que vivenciamos? Vida, sofrimento, dúvidas, morte. Já encontrei várias pessoas que preferem não compreender, não pensar. Como diz o célebre refrão de uma de nossas MPB, “deixa a vida me levar”.

     Ao mesmo tempo em que ninguém gosta de dar uma pausa para reflexão, todos gostam dos “realities show”. Os casos “cabulosos” que a mídia martela diariamente na cabeça do povo. Maníacos, pedófilos, sequestros, assaltos, crimes. Todos nós estamos sujeitos nesse tabuleiro real. Mas por que estamos nessa jogada? Onde estão nossos protetores, guardiões? Leis? Justiça do homem? Justiça divina? Morrem arbitrariamente, “bons e maus”. Cumpriram suas missões? Quais eram essas missões?

     Velórios são locais de poucas palavras em relação ao morto, à morte. Normalmente as conversas giram em torno de questões familiares, já que essa é uma das poucas ocasiões em que se reúnem todos ou quase todos os parentes, com e sem afinidades. De fato, falar o que sobre a morte? Deixar ou não deixar bens é irrelevante perante a Vida. A questão é: qual foi sua missão? Todos possuem uma tarefa na vida, um recado para a sociedade, para o mundo. Até mesmo o anônimo dos anônimos, um morador de rua, “sem família”. Se não compreendemos a missão de nosso filho, estudado e muito bem empregado, como compreender o anônimo, às margens da sociedade?

     Durante minha vida, já presenciei mortes de parentes e amigos. Porém, de todas as mortes, uma que me fez refletir com mais empenho, foi a de um colega, de pouquíssimo contato. Amizade relâmpago, que surgiu durante o Curso de Cinema que fiz na capital. Carlos era mais novo que eu e possuía um conhecimento cultural formidável. Conversava e dominava qualquer assunto, falava fluentemente algumas línguas; além do português, espanhol, inglês, francês e não me recordo se italiano ou alemão. Dinâmico, prestava atenção em tudo e em todos, demonstrava equilíbrio embora às vezes deixasse transparecer uma pontinha de orgulho. Não o orgulho dos doutores, mas o orgulho natural de alguém que possui cultura e está de bem com a vida, ou seja, não é aquele que afasta as pessoas, e sim atrai. Carlos sabia fazer amizades, curtir as amizades, curtir a vida. Não sei e nunca soube de sua posição social, mas era evidente que um rapaz culto frequentasse as baladas na região dos jardins. Programas típicos da classe média paulistana. Programas que mal cheguei a participar. Duas vezes apenas me encontrei com a galera do curso para assistir filmes de produção europeia. Num dos últimos encontros, soube da fatalidade; mataram nosso colega numa das regiões mais badaladas da capital, pois reagiu a um assalto. Esse fato ficou em minha mente. A imagem daquele rapaz culto. Qual foi sua missão? O que ele produziria para a sociedade, com sua cultura e capacidade, se estivesse entre nós? Por que ele morreu? São as perguntas sem respostas. No xadrez da vida, alguém deve saber. Por que morrem inocentes? Até que ponto os inocentes são isentos ou também culpados pelo caos da sociedade? Pessoas como ele não se vê com frequência. Pobres e analfabetos morreram e ainda morrem “em peso”. Cultos e raros também morrem, vítimas de outros cultos e também dos incultos. Rico mata rico e mata pobre, pobre mata pobre e mata rico. No tabuleiro da vida, é impossível saber o que se passa na cabeça do adversário, do parceiro. Mas é possível encontrarmos respostas estudando as estratégias comuns que as pessoas armam. O círculo vicioso da sociedade é perfeitamente compreensível, existem centenas ou milhares de livros e teses sobre a questão. Quando compreendermos todas as jogadas desse tabuleiro da vida, então começaremos a subir os degraus para compreender os mistérios da morte, pois fatalidades não existem. Tudo tem um porquê. Por mais que as pessoas se recusem a aceitar, a dor da morte de um pai, filho ou amigo não é motivo para revolta com a vida ou com o Criador. A perda sempre está ligada a dois fatores: ciclo natural e teia social. Na maioria dos casos a morte é resultante da teia social; doenças associadas ao meio em que o homem vive; omissão ou descaso com a saúde; irresponsabilidade do próprio ou do outro; desequilíbrio produzido por vícios; competição desleal e desregrada; etc. etc. Na teia social, sempre há um culpado, que é aquele que favorece a construção dessa teia. Diante de um tribunal digamos espiritual, todos nós somos responsáveis a partir do momento que temos conhecimento das obrigações e nada fazemos. Conheço pessoas que temem e não temem a morte. A dita cuja não é nenhum bicho de sete cabeças, digo porém que é a justiça implacável, e isso deve ser motivo de temor para muita gente. Vou adiante; a morte de determinada pessoa pode ter sido justiça para os vivos. Não aquela que vem à mente de imediato, a famigerada vingança. A morte “injusta” de um inocente é nada mais que um aviso. Para acordar as pessoas em volta ou a própria sociedade. O inocente que morre (quando digo inocente é a pessoa que não causou mal a outrem), não sofre, pois o sofrimento físico é algo momentâneo e exclusivo desta dimensão. Pessoas nessas condições são fortes, suportam o que nós chamamos de martírio. Ai dos que ficam. Dos que assistem essas mortes e não acordam. O ciclo de vida terrena é um aprendizado infinito. Na verdade, o planeta vive de doações de animais, plantas e seres humanos. Toda a natureza (inclusive a humana) serve, a única diferença está na quantidade que cada um doa. Alguns mais, outros menos. Para os cristãos, Cristo foi aquele que se doou 100%, atingiu o auge. Nossa contribuição está muito aquém. Cristo atingiu 100% há dois mil anos atrás. A todo o momento assistimos pequenas contribuições de pessoas como nós, trabalhadores honestos, pessoas amáveis, que não atrapalham o caminho de ninguém. Morrem tragicamente. Assassinadas. Acidentes de trânsito, acidentes aéreos. Num só avião lotado, morrem pessoas de toda índole. Bons, maus, religiosos de toda espécie, católicos, evangélicos, espíritas, maçons. A “dona morte” não leva em conta essas divisões que o homem cria, mas enxerga diretamente na mente, o ponto-chave de nossa existência; o que fazemos com o conhecimento que adquirimos em vida. Esse é um lado da teia, o outro pertence às pessoas à nossa volta. É a junção desses dois lados que revela o ponto “x” do enigmático tabuleiro da vida.

     Estas são algumas reflexões sobre morte. Sobre a partida daquele jovem cheio de conhecimentos para transmitir. Conhecimentos que “levou”. Impediram-no de ensinar o que sabia. Mas quem o impediu? O assassino? Por que o indivíduo tirou-lhe a vida? Sabia quem ele era? De modo algum. Poderia vir a ser inclusive seu amigo. Alguém que transmitisse conhecimento e proporcionasse mudança de vida ao assassino. Tirar a vida de alguém que cruza o seu caminho pode significar apagar a única oportunidade que você teria de transformar sua vida. Você pode matar alguém que poderia ser seu único amigo de verdade. O crime consciente é imperdoável. E quando falo em crime, não é apenas o de tirar a vida. Você pode matar alguém com palavras ou atitudes. Mas a responsabilidade não fica restrita a tal indivíduo. Por trás dele passaram muitos. Família, amigos e sociedade. Por que o indivíduo chegou à vida do crime? Existe um histórico por trás, que no momento do julgamento dos homens não se leva em conta, porque vai cair na responsabilidade social, do Estado, do governo. Não adianta tentar “tirar o corpo fora”. O primeiro educador é o governo, a família é a segunda educadora, pois a estrutura de uma família depende de como é governado um país, um estado, um município. Não me venham falar em democracia, pois toda democracia é regida por veículos de comunicações , que como foi veiculado em recente matéria de um dos maiores jornais paulistas, mais de 50% está nas mãos de “laranjas”, comandados por políticos ou igrejas. Rádios e emissoras de TV têm o poder de determinar rumos. Desde que famílias estejam a mercê de tais forças, elas não podem ser responsabilizadas como primeira educadora. Se um governo cumpre com suas obrigações e faz o que a própria Constituição determina, as famílias encontram suporte para a educação básica.

     Por tudo isso, falar sobre vida e morte é reflexão para meses, anos...a vida toda. Assunto que não puxa apenas espiritualidade, religião; mas principalmente vida em sociedade, política. Não chorem pelos mortos, e sim pelos vivos. Chorem mas ajam. Porque lágrimas não vão mudar o rumo que a sociedade caminha. Já vi muito choro interesseiro, enganador. “Beijos de Judas”. Emoções são passageiras, enquanto isso, os crimes continuam de forma implacável. No trânsito. Na vida política. Na fuga ilusória daqueles que buscam as drogas ilícitas e também as “lícitas”.

 

 

AS MORTES NO TABULEIRO DO XADREZ PAULISTANO LEVAM A TODOS ESTES QUESTIONAMENTOS;

 

Por que ele estava naquele lugar, naquela hora?

 

Por que reagiu ao assalto?

 

Qual o histórico de vida da vítima?

 

Qual o histórico familiar da vítima?

 

Qual o histórico social e cidadão da família e da própria vítima?

 

Por que o assassino estava naquele lugar, naquela hora?

 

Por que optou por fazer aquela vítima?

 

Qual o histórico do assassino?

 

Qual o histórico familiar do assassino?

 

 

As respostas para tantas perguntas não serão encontradas somente na análise da vida dessas duas pessoas, mas na análise da conjuntura. Nós também estamos nesse tabuleiro de xadrez.

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