Boa tarde!

O BRASIL E A HOMENAGEM AOS VELHO

VIDA DE BAR E BALADAS

     Em 1989, fui a uma cidade do interior do Rio de Janeiro para assistir a formatura de um colega. Teria que estar lá antes das oito da manhã, e quando é assim, costumo ir um dia antes e dormir num hotel. Mas naquela ocasião não fiz isso, peguei o ônibus à meia-noite em São Paulo para desembarcar na cidade por volta de quatro ou cinco da manhã. Viagem que considero penosa, desgastante, pois não dá para dormir bem. Optei pelo sacrifício, porém, tudo que se faz tem um motivo. E só depois de desembarcar, no frio da madrugada, numa rodoviária horrível, fui entender o porquê.
     Quieto num canto, eu esperava os primeiros raios do sol para sair em busca de um local que estivesse aberto para tomar café. Nisso, surgiu um rapaz, aparentando regular de idade comigo, pedindo humildemente que eu lhe arrumasse uns trocados para ir para casa, numa cidade vizinha. Percebi, no olhar e na conversa dele, que não era má pessoa, mas com certeza teria abusado na bebida numa balada qualquer e “ficou duro”. Prontifiquei-me a arrumar o dinheiro da passagem, mas como não havia ônibus naquele horário, fiquei conversando com o cara. Embora demonstrasse sinais de que havia bebido, não dizia coisa com coisa, estava bastante lúcido. Pouco mais de uma hora de bate-papo, propus a ele algo raro hoje em dia. Manter correspondência comigo. Naquela época não havia a facilidade da internet, ou era telefone ou carta. Carta? Coisa de “boiola” alguns podem pensar, mas era a forma mais prática, popular e barata de conversar com pessoas de outras cidades. Pedi o endereço dele, anotei e cada um seguiu seu caminho.
     Uma semana depois, escrevi para ele. Contei como foi minha viagem ao Rio, a formatura de meu colega...e claro, coloquei palavras de valor à vida, palavras sinceras que despertassem a consciência nele, afinal, estávamos na faixa dos vinte e poucos anos de idade, não éramos tão jovens, e por isso é importante ter juízo. Pedir dinheiro para voltar para casa é coisa que podemos passar uma vez na vida, mas criar esse “hábito” é retrocesso. Fiz a minha parte, não sabia se haveria resposta. O cara poderia ler e jogar fora. No entanto tive a surpresa. Em poucos dias veio a resposta. Suas palavras eram igualmente de surpresa, pois estava fazendo algo que nunca havia feito em sua vida. Era comum receber cartas de parentes, normalmente respondidas pela mãe ou irmã. Mas em seu caso, seus “amigos” eram os amigos de bar, de baladas. Companhias que não tem hábito de ler ou escrever. E muito menos conversar sobre assuntos saudáveis, que fazem pensar na vida, criar consciência. Nas baladas e nos bares, só se fala sobre mulheres, futebol ou algo relacionado a trabalho. Assuntos corriqueiros que pouco ou nada acrescentam. Minha carta quebrou essa rotina. E o fez pensar um pouco sobre a circunstância em que nos conhecemos.
     A partir daquela data, trocamos mais algumas cartas e sua mãe, admirada com a novidade, passou a me escrever também. Não demorou muito, ela me convidou para fazer uma visita à família. Naquela época eu não era de “deixar para depois”, e logo voltei ao Estado do Rio, agora para visitar aquele cara que conheci na rodoviária, naquela situação constrangedora.
     A recepção foi calorosa. O rapaz estava com uma aparência bem melhor de quando vi na rodoviária. Sua mãe me recebeu como se fosse um membro da família. O pai já não era de tanta “cerimônia”, mas também me tratou muito bem. Passei o dia com a família, me levaram conhecer a cidade e tiramos fotos. No dia seguinte, vim embora trazendo as recordações da cidade e daquela família, que se tornou amiga graças a uma situação que muitos diriam ser “acaso”. Mas acasos não existem, tudo tem motivo. Continuamos trocando cartas, escrevia para ele e para sua mãe, que me dizia que o rapaz havia diminuído a frequência nos bares, mas eventualmente ia. Segundo ela, o tempo de convivência com aquelas pessoas não permitia um afastamento total, por outro lado, a maioria dos jovens e solteiros naquela cidade não possuía lugares saudáveis para se divertir. Ou ficavam em casa ou se misturavam ao “joio”. Fiquei sabendo que, apesar da cidade ser pequena, o número de ocorrências policiais envolvendo os “baladeiros” era grande. Fui fazendo minha parte. Escrevia. Jogava boas ideias para o rapaz. Até que um dia, recebi uma carta da mãe dele com a notícia que eu não queria receber: mataram-no num bar.
     Algumas semanas depois desse lamentável fato, voltei lá para conversar com a família dele. Mas nada poderia ser feito, a não ser a conformação com a nova realidade. Ele possuía bom coração, não prejudicava ninguém, no entanto, o convívio com “camaradas” que abusavam do álcool e “perdiam a cabeça” por motivos fúteis, custou caro. Custou a vida. Existe um ditado que fala “diz-me com quem andas e te direi quem és”. O convívio faz com que todos se tornem iguais com o passar do tempo. Por isso, circulo por todo tipo de lugar mas não me envolvo, não me torno integrante. Em 2006, por um mês acompanhei o cotidiano de um grupo de colegas que frequentava um bar. Conheci para tirar minha própria conclusão. Penso que ninguém deve criticar aquilo que não conhece. Por isso fui conhecer. E vi que não era ambiente para mim. Mas não devemos discriminar quem frequenta bares e baladas. Nem obrigar ninguém a deixar de frequentar. Fazemos o convite. O convite para uma vida nova, conhecer outras formas de prazer e diversão. Convite para amizades saudáveis, de pessoas que estão fora do poço, pois ninguém sai de um poço dando as mãos para aqueles que estão juntos, lá dentro. Só se sai dando as mãos para quem está fora do poço. Vai da consciência de cada um. Enquanto há tempo. No caso de meu amigo fluminense, o tempo dele havia se esgotado. Ele teve os olhos abertos pela minha amizade. Chegou a diminuir a frequência. Mas a tentação ainda era mais forte. E assim encerrou sua jornada no mundo. Talvez tenha levado a experiência e a missão para algum lugar no além. Para mim, uma experiência a mais acumulada. Às vezes penso se poderia ter feito algo mais, ousado mais para “mudar o destino” dele. Mas a distância não permitiu um convívio maior. E se teve que ser assim, assim foi. Um drama urbano que se alastra pelo país. A ociosidade. A falta de baladas saudáveis, a cultura do bar brasileiro, que é muito diferente dos bares ingleses, os “pubs”. Penso que o ambiente do bar em nossas cidades poderia ser diferente, com atrativos, os donos de bares poderiam criar algo para melhorar o ambiente, pois a criação, a quebra da rotina, produz efeito nas pessoas. O bar muitas vezes é a fuga do ambiente familiar, carregado de problemas que “não se consegue resolver”. Por isso nós, como cidadãos, precisamos ser agentes transformadores. Não há problemas que sejam impossíveis de serem resolvidos. Basta que não fujamos deles e enfrentemos com coragem, ousadia e criatividade.

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