Boa noite!

LOUVEIRA – 142

ITUPEVA – 130

  

 

     A quarta cidade a ter a pesquisa concluída é Itupeva, localizada a noroeste de Jundiaí. Além de algumas semelhanças com Louveira nos aspectos físicos e sociais, Itupeva também coincidiu em outros com a pesquisa realizada em Louveira. Um centro com moradores antigos e conservadores, rodeado por bairros novos, repleto de moradores vindos de cidades da região e do Nordeste (incluindo o que chamamos de periferia), e a extensa área rural. O itupevense (tanto o nativo como o forasteiro) recebeu este escritor e pesquisador relativamente bem melhor que o louveirense, mas o desinteresse pela aquisição de livros na única oportunidade que teve com o escritor presente, não permitiu que a pesquisa fosse adiante, igual ocorreu em Louveira. Sempre lembro o leitor deste site que o objetivo da pesquisa não é venda, mas é a atitude do cidadão que gosta de ler em adquirir o produto naquele momento único, que sustenta a pesquisa. Se não há interesse, a pesquisa não prossegue. Assim, estes 130 pesquisados são na maioria residentes da área central e bairros do entorno, como a Vila São João, locais onde pude circular a pé. A exceção foi o Bairro da Chave, antigo bairro rural e que possui atualmente toda a infraestrutura urbana, ocasião que aproveitei o compromisso na residência de um amigo no Jardim Novo Horizonte de Jundiaí para realizar a pesquisa, por ser bairro vizinho. Ainda dentro desses 130, aparecem na pesquisa alguns residentes em outros bairros mais afastados da área central, pessoas que responderam a pesquisa no comércio e na rodoviária de Jundiaí, e outras que se encontravam na casa de parentes na área central.

 

 

 

A REALIDADE SOCIAL DO MUNICÍPIO

 

     A política de desenvolvimento do município, favorecendo principalmente a indústria, atraiu gente dos municípios vizinhos e de outros estados, como o Piauí, constatado durante a pesquisa. Além do aspecto emprego, a cidade “pequena”, desde os anos 90 vem atraindo o paulistano em busca de sossego e “segurança”, criando a classe média e a “geração condomínio” na região. Como o círculo vicioso das políticas públicas no Brasil não permite uma integração harmoniosa entre as classes sociais, Itupeva experimenta hoje a dura realidade enfrentada por municípios como Várzea Paulista alguns anos atrás; o medo, a insegurança, as drogas, a violência. Apesar do bom patrulhamento da cidade (como pude perceber durante a pesquisa), Itupeva sempre figura no noticiário policial da região, de uns tempos para cá com grandes assaltos as indústrias e agências bancárias. A cidade onde outrora se via charretes pelas ruas centrais, hoje desfilam carros novos e jovens com roupas de grife. O contraste social, inclusive com “moradores de rua” e trecheiros na praça central é gritante. A figura do “country chique” é notada aqui e acolá. Em suma, a qualidade de vida existe mas não atinge a todos.

 

 

 

COMO FOI A PESQUISA

 

     No Bairro da Chave, onde pesquisei 12 moradores, os dois grandes problemas foram residências fechadas e cachorros, principalmente nos portões (do lado de fora). As distâncias entre uma residência e outra tornaram a pesquisa desgastante e pouco produtiva nesse bairro, que mistura antigos moradores e também paulistanos residentes há pouco tempo. É interessante esclarecer que o nome Bairro da Chave deriva de São Roque da Chave, o nome completo do lugar e que é desconhecido dos novos moradores, principalmente da nova geração recém chegada, que lê no letreiro de alguns ônibus “Bairro do Chaves” ou “Itupeva via Chaves”. A ignorância e a falta de uma fiscalização da parte das empresas e do próprio poder público podem levar o povo a deduzir que o nome do bairro é referência a sobrenome de alguma família ou até mesmo uma homenagem àquele personagem humorístico (o Chaves). No Brasil, tudo pode acontecer. Inclusive o absurdo. Da Chave cheguei ao Residencial Pacaembu. Já nas outras ocasiões, deixei a locomoção de carro e fui de ônibus para a região central da cidade, onde percorri vários bairros circunvizinhos a pé. Pessoas de todas as idades foram ouvidas, e a constatação preocupante foi o elevado número de idosos com problemas de vista. Muitos alegaram gostar de ler, mas abandonaram o hábito por causa da vista. No Jardim Buriti encontrei um senhor da terceira idade não alfabetizado, disse apenas “mal assinar o nome”. Em outro bairro próximo, respondeu a pesquisa um jovem que fui descobrir depois, “trabalhava” numa biqueira. Normal, coisas que fazem parte do cotidiano urbano, e numa pesquisa abrangente, feita por um escritor que sabe entrar e sair de qualquer lugar, não existe empecilhos. Na “selva de pedra” do mundo capitalista, aprendi que cada um se vira como pode. Se existem consumidores, sempre haverá fornecedores.

 

 

 

A “PÉROLA” NESTA PESQUISA

 

     Em todas as pesquisas que realizo nesta e em outras cidades, sempre ouço uma “pérola”. A de Itupeva foi dita por uma senhora evangélica de um bairro próximo ao centro, dona de uma casa relativamente boa. Primeiro ela “me intimou” a dizer para que era a pesquisa. Não costumo dizer no início para não influenciar nas respostas, mas nestas exceções acabo explicando por educação. Aparentemente satisfeita com minha resposta, ela começou a responder. Mas na metade, cismou de fazer mais perguntas a respeito do objetivo da pesquisa e “o que ela ganharia respondendo”. Não gostei dessas palavras, contudo expliquei que ela está colaborando com um trabalho que é colocado a disposição de todos os interessados em literatura na internet, inclusive estudantes e professores... a pesquisa é uma rica fonte de informações principalmente para estas pessoas. Pensei que depois dessa, a compreensão seria total, no entanto fui surpreendido com as seguintes palavras da “madame”: “ah, então não vou responder mais porque eu não acesso a internet”. Surpreso com o egoísmo explícito, respondi de forma direta que ela não se importa com a difusão cultural se essa difusão não for para ela (e sua família). Numa rápida reflexão sobre minhas palavras, ela resolveu terminar de responder o questionário da pesquisa. Saí de lá com a imagem daquela mulher insegura e que com certeza quer o céu e a salvação só para ela e sua família, pouco se “lixando” com os demais pecadores deste mundo. Ela não sabe que os maiores pecadores não são as prostitutas, os trombadinhas, os traficantes e os usuários. Os maiores pecadores são os atiradores de pedras nos outros, que se escondem atrás da bíblia para julgar e disparar suas armas em todas as direções e esconder seus podres. Aqui também se enquadram os egoístas, os corruptos, os que enriquecem em cima da pobreza e da ignorância dos outros. Parece que alguns trechos bíblicos são pulados ou não são compreendidos; “daqueles que mais tem, mais será cobrado, dos que menos tem, menos será cobrado”; “...disse então Jesus: atire a primeira pedra aquele que não tiver pecado”.

 

 

 

OS NÚMEROS DA PESQUISA

 

     Foi pouca a diferença entre o sim ao hábito de ler e o pouco; o sim ganhou por aproximadamente 15 pontos a frente apenas. E os “nãos” foram 8, significativo para 130 pessoas ouvidas. “Os nãos” partiram mais do público adulto, no entanto também teve de jovem e um adolescente do Jardim Samambaia; realidade preocupante e que confirma o que já coloquei em livros e artigos: o poder público investe pesado nas crianças, mas não sabe lidar com o adolescente. Faltam políticas públicas sérias e técnicas para o adolescente brasileiro.

     Já o número de escritores citados como preferidos, ficou dentro do padrão das demais cidades, inclusive os nomes são os de praxe: Paulo Coelho a frente vindo em seguida nomes tradicionais da literatura brasileira, como Zíbia Gasparetto, Machado de Assis e autores de igrejas, como o padre Fábio de Melo e o bispo Edir Macedo. Também foram citados Ellen White, Ezequias e R.R. Soares, Silas Malafaia, Chico Xavier representando o espiritismo e James Van Praag, este, primeira vez que aparece na pesquisa. Outros nomes inéditos vindos de Itupeva: Eurípedes Kühl, Bullhon, Cristiane Cardoso e Luciano Subira. Já os nomes da região foram poucos, todos citados apenas uma vez: Douglas Tufano, Elvio Santiago, Helenice Rodrigues e Ezequias Soares, estes, jundiaienses. Também apareceu o nome de Cláudio Blanc e Scavone (que é de Itu e não de Itatiba). Um pesquisado afirmou que há uma escritora em Itupeva, mas não lembrou o nome. O mais curioso foi ouvir de uma artista plástica que uma escola da cidade realiza feiras com escritores regionais, inclusive alguns autores jundiaienses marcaram presença neste ano de 2010. Cabe aqui ressaltar uma verdade; o povo grava mais facilmente o título do livro que o nome do autor. Na maioria dos casos, o personagem do livro fica mais famoso que seu criador (o escritor).

     Quanto a associação musical, Itupeva apresenta um povo eclético nesse quesito, principalmente os mais jovens. O sertanejo foi um dos mais citados e engloba tanto os adultos como os jovens. Em seguida vem MPB e pagode, além do som clássico do Nordeste, como forró e axé entre a comunidade nordestina da cidade. Outro destaque ficou para o country, realidade cultural presente e marcante em Itupeva.

     Pude perceber claramente a maior diferença no gosto literário entre jovens e adultos nessa cidade; o público adulto possui bastante interesse em literatura religiosa (católica, evangélica e espírita) e autoajuda; enquanto os mais jovens não se ligam a literatura religiosa, preferem os tradicionais romances de ação, suspense e aventura. Os nomes da literatura infantil citados foram Ziraldo, Maurício de Sousa, Monteiro Lobato e Florbela Espanca.

 

 

 

NÚMEROS FINAIS (POR BAIRRO)

 

     A região central de Itupeva, tal como Várzea Paulista, é formada por “bairros centrais”.  Como o entorno da praça da matriz, compreendendo a Avenida Brasil (principal) é área quase que estritamente comercial (e prefiro realizar a pesquisa mais nas residências do que no comércio), incluí o Jardim São Vicente, a Vila Marchi e a Vila Paraizo como “Centro”. Nas folhas da pesquisa vai o que o cidadão pesquisado responde, quem quiser verificar as folhas da pesquisa, encontrará “Centro” e “Centro – Vila Marchi, Vila Paraizo e Jardim São Vicente”. Toda essa região central concentra as classes B e C de Itupeva, principalmente as famílias tradicionais, os filhos da terra. A classe D corresponde um pouco menos da metade na área central.

 

 

 

CENTRO – JD. SÃO VICENTE, VILA MARCHI E V. PARAIZO (8)

Classes: B, C, D

Pessoas ouvidas: 30

 

PARQUE AMARYLIS (9)

Classe: C, D

Pessoas ouvidas: 8

 

RESIDENCIAL SÃO JOSÉ

Classes: C, D

Pessoas ouvidas: 1

 

NOVA ITUPEVA

Classes: C, D

Pessoas ouvidas: 1

 

J. PRIMAVERA

Classes: C, D

Pessoas ouvidas: 2

 

J. SAMAMBAIA (8)

Classe: D

Pessoas ouvidas: 26

 

J. BURITI (9)

Classe: D

Pessoas ouvidas: 12

 

J. ALEGRIA (9)

Classe: D

Pessoas ouvidas: 4

 

VILA SÃO JOÃO (8)

Classe: D

Pessoas ouvidas: 15

 

PACAEMBU I

Pessoas ouvidas: 8

 

PACAEMBU II

Pessoas ouvidas: 4

 

SANTA FÉ

Classes: C, D

Pessoas ouvidas: 2

 

VILA INDEPENDÊNCIA

Classes: C, D

Pessoas ouvidas: 1

 

BAIRRO DA CHAVE (7)

Classes: C, D

Pessoas ouvidas: 12

 

GUACURI

Pessoas ouvidas: 1

 

MONTE SERRAT

Pessoas ouvidas: 2

 

CAFEZAL

Pessoas ouvidas: 1

 

 

CONCLUSÃO DO ESCRITOR

 

     Não fiquei satisfeito com o resultado, para traçar melhor o perfil social e literário do itupevense, seria necessário ouvir no mínimo 300 pessoas. Itupeva não é mais considerada “cidade pequena” embora não possa ser classificada como média. Além da população nativa ter crescido, existem muitas famílias vindas de Jundiaí, São Paulo, Campinas e Indaiatuba. Bairros como Santa Fé e Vila Independência são populosos mas o deslocamento para lá não foi possível. Quando o brasileiro aprender a dar menos valor à aparência e se preocupar em investir mais em seu crescimento cultural, com certeza muitos escritores e outros artistas anônimos conseguirão dar uma valiosa contribuição à sociedade. Assim como o Meio Ambiente, a cultura é cara porque o povo nunca deu o devido valor à estas coisas.

 

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